O campo é a sala de aula

Hoje os interessados em aprofundar os estudos sobre as agriculturas de base ecológica encontrarão no Estado de Pernambuco uma única opção de curso superior, o de tecnólogo em Agroecologia do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) de Barreiros, com duração de três anos. Mas existem outras alternativas, como o curso de técnico em Agroecologia do Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), com duração de um ano e meio e o curso de Agronomia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), cuja matriz curricular possui pelo menos uma cadeira referente à agroecologia, além de projetos de extensão que proporcionam experiências nesse sentido.

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No IFPE os alunos debatem as práticas diariamente. Foto: Flávia Torres

O curso de Agroecologia do IFPE funciona no campus Barreiros, a 110 quilômetros do Recife, na Zona da Mata Sul. No município, onde a monocultura da cana-de-açúcar ainda é predominante, hoje existem cerca de 12 assentamentos de reforma agrária, totalizando 616 famílias, segundo dados do Painel de Assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra, atualizado em novembro de 2016.  O IFPE de Barreiros tem 90 anos e se estabeleceu-se sobre a infraestrutura da antiga Escola Agrotécnica Federal. A área total é de 430 hectares. Dado ao universo de pessoas assentadas na região, o curso de tecnólogo em Agroecologia passou a ser ofertado em 2011. Cinco anos depois, com a primeira turma de 35 alunos formada, o curso ainda tem alguns desafios a superar.

O primeiro deles é a alta evasão, motivada principalmente pelo desconhecimento da formação superior. “Muita gente que entra no curso de Agroecologia, pelo Enem, diz ‘Há, passei no Enem, tinha lá esse curso, e eu vim para ver o que é’. Acontece então do estudante simplesmente não gostar”, destaca a professora Vivian Motta. Dois estudantes, José Ricardo e Vanessa Alves, compartilham da mesma visão. “Isso aconteceu com todo mundo da minha turma”, comenta José Ricardo. Para Vanessa, que entrou sem saber ainda no que consistia a Agroecologia, o comentário é de gratidão. “Uma amiga me aconselhou a fazer o curso. Eu me sinto realizada e pretendo trabalhar na área, fazer mestrado e, também, cursar Nutrição”, relata.

A oferta de vagas no mercado de trabalho é outro ponto citado quando se trata de justificar a evasão. Segundo os estudantes, o discurso dos empresários das usinas contribui para desestimular os discentes e ampliar o abandono do curso. O argumento é que só os agrônomos serão contratados, enquanto os agroecólogos não terão chance na região canavieira.  No entanto, Vivian Motta explica que existem vagas de trabalho em organizações não governamentais que prestam assistência técnica aos agricultores. Assim como naquelas que buscam atender às demandas terceirizadas de organismos do governo, como o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) -, por exemplo, além de movimentos sociais como o Movimento dos Sem Terra (MST), Via Campesina e a Comissão Pastoral da Terra, entre outros.

Somados a isso, há demanda por professores em pesquisas de extensão rural e cursos universitários, pois a maioria dos agroecólogos de hoje ainda estão sendo formados por agrônomos. Vivian comenta que alguns países, como a Holanda, por exemplo, oferecem bolsas de estudo na área. Ainda segundo Vivian, as possibilidades para o mercado da agroecologia são enormes, em nível do Brasil e do mundo, algo a se considerar se o interessado tem disponibilidade para migrar.

Eu mesma migrei várias vezes por questões de trabalho. Já trabalhei em Minas, no Rio, Brasília, no Pará, na Bahia, agora estou aqui em Pernambuco. É sempre a agroecologia me levando para esses lugares

Vivian é paulista, há 20 anos saiu de São Paulo para trabalhar e não voltou a residir em seu estado de origem. Desde então, já morou em 13 cidades diferentes, atualmente é professora do IFPE e está se preparando para fazer doutorado na Espanha.

José Ricardo e Vanessa Alves sabem dessa realidade e nutrem expectativas neste sentido. O entusiasmo pelo curso se traduz na dedicação à teoria e à prática, pois muitas vezes é preciso passar dias nos assentamentos de Barreiros. Outras atividades envolvem a colheita nos dois Sistemas Agroflorestais, o Núcleo de Estudos em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável – onde tem acesso à internet e também é possível estudar para as provas das disciplinas.

No dia de realização das entrevistas no IF de Barreiros, nove de novembro, teve início a ocupação da unidade de ensino pelos estudantes. Apesar de não haver aula no campus, alunos e funcionários estavam lá, caminhavam lado a lado. Via-se pequenos grupos conversando sobre política, a legitimidade do movimento de ocupação dos estudantes. Pouco depois, em plenária, estudantes e professores, em clima agitado, debatiam a expectativa do corte dos recursos para a alimentação, entre outras ameaças.  Até o fim desta reportagem os alunos seguem ocupando o IFPE Barreiros apoiando o movimento nacional de estudantes contra a PEC 55, denominada a “PEC do fim do mundo”.

A EXPERIÊNCIA DO SERTA

O Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta) é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Informações no site da instituição dão conta que foi fundada em 1989 por “um grupo de agricultores, técnicos e educadores que desenvolviam, através de uma metodologia própria, a melhoria da propriedade, da renda e do uso de tecnologias apropriadas, em comunidades rurais, de forma integrada ao meio ambiente”. A principal missão desde a origem, foi tanto o desenvolvimento quanto o reconhecimento da agricultura familiar.

Segundo o professor Roberto Mendes, um dos membros fundadores do Serta, a instituição surgiu a partir da necessidade de se ajudar os agricultores a se ecoalfabetizar. “Por isso, desde o início, oferecemos cursos de formação. Nos primeiros anos, houveram ajustes na carga horária e também no público alvo das formações, até que o curso de técnico em agroecologia se estabelecesse, e o Serta virasse uma escola ligada ao Governo do Estado”. O professor explica que, anteriormente, a formação era voltada para toda a família, principalmente para o pai, e duravam no máximo uma semana.

Mas quando o Serta se transformou em escola, o curso passou a ser voltado para os jovens dessas famílias de agricultores. “A gente queria envolver a família na formação, mas percebeu que quem topa mais estes desafios de mudança são os jovens, pois a cultura ainda está em formação”, afirma Mendes. A junta pedagógica percebeu que o curso precisava ter uma maior duração, passando a ter um ano e meio, pois assim haveria mais tempo para aprofundar os debates e conhecimentos a respeito da agroecologia. Ele é feito a partir de uma matriz curricular que inclui disciplinas como “introdução à permacultura”, “história dos movimentos sociais do campo”, “práticas agroecológicas”, “zootecnia”, “legislação ambiental”.  A atuação hoje é em dois campi: em Ibimirim, às margens do Açude Poço da Cruz, e, em Glória do Goitá, no Campo da Sementeira.

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