Slam das Minas: a poesia como ferramenta

Slam das Minas: a poesia como ferramenta

Ocupar as ruas com mulheres é o objetivo do Slam das Minas PE

Mulheres reunidas recitam seus versos, falam de amor, de dor, de revolta, de preconceito, de violência. Tornam-se musas de si, saem de casa e ocupam espaços públicos com suas vozes e corpos. Do primeiro slam misto de Pernambuco, realizado pelo coletivo Controverso Urbano este ano, houve o estalo para o Slam das Minas PE. O impulso, como define Patricia Naiara, surgiu pela vontade de localizar as mulheres escritoras da cidade e, atualmente, é um palco para muitas se descobrirem.

Bell Puente foi a grande vencedora da primeira edição da competição em Pernambuco

As poetisas Patricia Naiara e Amanda Timóteo são as idealizadoras do evento. Como membros do Controverso Urbano, elas já traziam a vontade de ocupar espaços públicos com arte. Com o slam, reúnem um público normalmente excluído dos saraus e batalhas de hip hop: mulheres poetas, artistas, criativas e, em sua maioria, jovens. As participantes têm em média de 14 a 26 anos. Apesar dos eventos serem frequentados por pessoas de todos os gêneros, nas batalhas do Slam das Minas – como o nome sugere – só participam mulheres. Naia reforçou a regra ao negar o pedido de um participante do slam misto para declamar. Perto do resultado da final ela compartilhou que “nós somos sempre barradas e silenciadas, por que eles também não podem ser?”, deixando claro que aquele é um lugar de fala exclusivamente feminina.

Assista ao MIC Aberto de Patricia Naia e Amanda Timóteo

As batalhas geram apoio mútuo, vínculos de amizade e solidariedade entre as participantes. Em três minutos elas interpretam suas estrofes, palavras saem do papel ou da tela do celular e chegam às juízas unicamente por meio dos seus corpos. Há uma consciência coletiva da importância de estarem em um movimento em que podem falar e ouvir outras. Antes confinadas ao lar, diminuídas na vida pública, presas a quatro paredes, hoje elas gritam nas ruas do Recife.

Isabella Puente, a Bell, venceu a final em frente ao monumento Tortura Nunca Mais, o mesmo que acolheu a primeira disputa. As batalhas ocorreram durante a tarde e a noite de um sábado, com duas rodadas para a decisão, que ficou entre Bione, a slammer mais jovem, com 14 anos, e Isabella, com 24 anos. Foi uma vitória acalorada, entre abraços e palavras de confiança. Naia, Amanda, Bione e tantas outras buscaram transmitir força para a primeira pernambucana a disputar o Slam BR.

Assista ao MIC Aberto de Bell Puente

ORIGEM

A poetry slam é uma batalha de poesia que nasceu nos anos 1980, próxima à cultura hip hop. Assim como o rap (Rythm And Poetry), envolve ritmo e poesia. Marc Smith é considerado o precursor do movimento, por ter realizado em 1984, em um colégio na cidade de Chicago, a primeira competição de slam. O objetivo de Marc era promover o reencontro da escrita poética com a performance. Os slammers reproduzem em suas apresentações a união entre a palavra falada (spoken word) e a interpretação e são avaliados por esses dois quesitos.

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Nos anos 1990 ele se espalhou pelos Estados Unidos e outros países da América, ampliando-se o suficiente para ter uma competição mundial. Ao contrário do que acontece no rap, o slam é uma disputa indireta entre os participantes, que não contam com beats, mas se valem do seu ritmo. Os temas costumam envolver as experiências de vida dos poetas.

Chegou ao Brasil em 2008, com o ZAP! Slam, a primeira batalha de slam no País. O Zona Autônoma da Palavra foi fundado por Roberta Estrela D’Alva, em São Paulo. Após voltar de uma viagem aos Estados Unidos, Roberta sentiu falta do que viu fora. Atriz, poetisa, pesquisadora, apresentadora do programa televisivo Manos e Minas e slammer, Roberta, como muitas mulheres, não pode ou consegue se resumir. Ela é considerada um dos nomes mais importantes quando o assunto é poesia falada no Brasil. Com o ZAP!, abriu caminho para a realização dos mais de 50 slams que existem atualmente no país.

Ouça a contribuição de Amanda Timóteo na Roda de Conversa

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