Resistência na internet

Por muito tempo, a mídia tradicional deu espaço apenas para modelos femininos que tivessem o cabelo liso – ainda que a mulher fosse negra, era representada com o cabelo quimicamente alisado, nunca com o crespo natural. Com o aumento das pessoas que buscam usar os fios genuínos, aos poucos, os meios de comunicação estão tentando incluir diferentes estéticas em seus personagens, seja nas novelas, séries ou comerciais. Um dos grandes catalisadores dessa  mudança é a internet. Através de grupos de valorização de elementos do orgulho negro, homens e mulheres têm assumido seus cabelos por incentivo de quem já passou pelos mesmos preconceitos.

Coletivo Faça Amor, Não Faça Chapinha usa as redes sociais para lutar contra a imposição do alisamento capilar. Foto: Amanda Souza

Dois grupos representativos em Pernambuco são o Faça Amor, Não Faça Chapinha (veja mais) e o + Cacheadas PE. Eles têm 14.428 e 6.583 membros (dados de 26 de outubro de 2015) no Facebook, respectivamente, e abordam discussões sobre identidade racial, formas de assumir o cabelo crespo/cacheado, como cuidar dos fios e também promovem encontros em várias partes da Região Metropolitana do Recife. Um deles é o Encrespa Geral, promovido em parceria com o + Cacheadas PE, que, além de promover o encontro entre as crespas, aborda temas relacionados ao preconceito estético e à história africana.

Já o FANFC surgiu há mais de dois anos, quando a estudante Letícia Carvalho, 18, sentiu necessidade de criar um meio em que se visse representada, o que não acontecia nos meios de comunicação. Ela quis desconstruir a ideia de que o cabelo crespo é feio e se uniu a mais três amigas que acreditavam na mesma premissa. “O nosso objetivo é fazer com que as pessoas percebam as diferentes estéticas e que entendam que nenhum tipo de beleza é melhor que o outro”, explica a estudante Amanda Bomfim, 19, outro membro do coletivo. A criação deu tão certo que hoje, a página no Facebook do projeto tem mais de 146 mil curtidas. “Todos os dias recebemos muitas mensagens legais de meninas dizendo que conseguiram se libertar da chapinha ou da química com a nossa ajuda”, se orgulha Amanda.

o FANFC foi criado há dois anos, quando a estudante Letícia Carvalho (esq.), 18, percebeu um incômodo das pessoas com o seu cabelo. Foto: Amanda Souza

Apesar de ver positivamente a representatividade crespa crescente na mídia tradicional, as integrantes acham que a mudança ainda é lenta. “O empoderamento das mulheres está modificando alguns conceitos, mas ainda é muito pouco”, lamenta Alice do Monte, 19. “Acredito que essa inclusão seja mais pelo viés capitalista do que social. Eles (os donos dos conglomerados midiáticos e de cosméticos) estão vendo uma forma de ganhar dinheiro e estão aproveitando. Mas não deixa de ser positivo para nós”, completa Amanda.

O técnico em segurança do trabalho Kleber de Moraes, de 29 anos, raspava o cabelo. Depois de conhecer o FANFC ele repensou o assunto e assumiu as madeixas há um ano. Em um dos locais onde já trabalhou como estoquista, foi questionado se poderia cortar o cabelo para ficar na empresa. Na ocasião, ele atendeu ao pedido do contratante, mas atualmente garante que não faria de novo. “Hoje não cortaria mais. Se aceitar do jeito que é, é muito mais bonito”, defende o jovem que teve uma melhora na autoestima depois da mudança.