Razão e Arte

O casal se emponderou e, hoje, ajuda outras pessoas a se reconhecerem negras

O casal se empoderou e, hoje, ajuda outras pessoas a se reconhecerem negras. Foto: Amanda Souza

Adelson Santana, de 28 anos, e Waneska Viana, 31, se conheceram pela internet em 2012. A amizade nasceu naturalmente, apesar das diferenças. Ele, jovem, negro, ilustrador, grafiteiro e tatuador, da periferia, gostava de retratar pessoas brancas em seus desenhos, pois achava que conseguia se reconhecer no traçado de feições. Ela, também negra, estudava Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na época e queria compartilhar com alguém as ideias que tinha na cabeça, fruto de discussões das salas de aula.

O encontro dos dois saiu do mundo virtual para o real. A amizade virou namoro e, depois, casamento. A parceria se tornou muito mais do que afetiva. Waneska trouxe a racionalidade e Adelson, a arte para o mundo deles. O resultado disso se refletiu nos desenhos, antes tão impessoais e sem personalidade. Viraram quadros explosivos e cheios de cores de mulheres negras com suas cabeleiras crespas e cacheadas.

“Cresci ouvindo que os brancos eram diferentes de nós. Por exemplo, negro não tem nariz e boca e sim venta e beiço. Aprendi que os brancos eram mais bonitos e era isso que reproduzia”

A mudança no estilo começou com Waneska. Por muitos anos, a socióloga usou produtos químicos no cabelo para diminuir o volume. Para deixá-lo “dentro do padrão aceitável, para não assustar ninguém”, como define. Depois de entrar na universidade, entendeu melhor questões como preconceito racial e as razões históricas e sociológicas para a formação da sociedade atual.

Além disso, conheceu mulheres na mesma condição que ela que modificaram os formatos naturais dos fios para tentar agradar a sociedade. “Antes de entrar na faculdade, eu já tinha ideia de que era negra, mas não entendia o significado disso. Não entendia porque eu sofria tanto, passando química no cabelo ou negando minha essência”, relata.

A partir daí, ela resolveu passar pela transição, não só capilar, mas também comportamental. Usou tranças para recuperar os danos causados pela química, já consciente de que aderir ao estilo afro era um posicionamento político. Foi nessa época que conheceu Adelson e perguntou: “por que você só desenha mulheres brancas?”

Waneska fala um pouco sobre a sua busca por autoconhecimento, que envolveu seu cabelo. Ouça:

Adelson, que até então só pintava mulheres brancas, passou a destacar a beleza afro

Adelson, que até então só pintava mulheres brancas, passou a destacar a beleza afro. Foto: Amanda Souza

“Vim de uma família formada essencialmente por mulheres negras. Cresci ouvindo que os brancos eram diferentes de nós. Por exemplo, negro não tem nariz e boca e sim venta e beiço. Aprendi que os brancos eram mais bonitos e era isso que reproduzia. Desde que nos conhecemos, eu e a Waneska conversamos sobre tudo, inclusive os estudos dela. Depois de ler textos sobre questões como raça, me descobri como negro também. Comecei a desenhar mulheres negras, como a minha esposa e as minhas familiares”, relata Adelson.

Nos quadros, são retratadas mulheres do cotidiano de uma forma empoderada. O cabelo e outros elementos são exaltados para mostrar a beleza das negras. Em muitas das peças, os pássaros são usados para representar a liberdade. “Não apenas a liberdade de usar o cabelo natural, mas a liberdade para ser o que é”, refletiu o ilustrador.

As obras de Adelson estão em exposição no Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Touro, no Bairro do Recife, até o dia 19 deste mês de dezembro. Nomeada “Mulheres Negras: Expressões da Liberdade”, a mostra traz pinturas de parentes do autor e de personalidade negras. O museu está aberto a visitação de terça a sexta, das 12h às 18h, e no sábado, domingo e feriados, das 14h às 17h.