Rayza, a menina que queria ser branca

A fotógrafa Rayza Oliveira chegou a evitar tomar sol para não escurecer a cor da pele. Foto: Amanda Souza

Olhar para os amigos e se ver diferente. Esse foi o sentimento da fotógrafa e estudante de pedagogia Rayza Oliveira, de 23 anos, durante toda a sua infância e adolescência. Como todo jovem, passou por várias fases e, em uma delas, sentiu estranheza com sua cor de pele e cabelo. Durante muito tempo, prendeu e domou os fios crespos.

Aos 12 anos, decidiu alisar quimicamente os cachos para diminuir a distância que sentia dos amigos de pele clara e cabelo “bom”, parecer com os cantores de heavy metal e rock que ela tanto admirava, e se sentir aceita e semelhante àqueles que faziam parte do mesmo círculo social. “Todos eram brancos, e eu, negra. Cheguei até mesmo a evitar sair ao sol para que a minha pele não escurecesse mais”, conta.

O cheiro ruim da amônia, a obrigação de retocar a química de tempos em tempos, a necessidade de passar chapinha no cabelo sempre. Pressões que Rayza sentiu durante três anos, sem saber muito bem o porquê, até que decidiu abrir mão da “beleza tão sofrida”. Deixou as raízes das madeixas, finalmente, se mostrarem. Cortou, ela mesma, toda a parte quimicamente tratada do seu cabelo. E passou a se ver de outra forma no espelho.

“Naquele momento, eu tinha que decidir. Eu iria me render novamente à ditadura do liso ou assumiria o meu cabelo?”

Um mudança que irradiou de dentro para fora. Ela decidiu que não ia mais prender e nem alisar os fios para que as pessoas se sentissem melhores em relação à aparência dela. Saiu com o cabelo ao vento, sem medo do seu volume ou de sua raiz – capilar e histórica. Ouviu piadas e risinhos debochados, mas nem se importou. “Naquele momento, eu tinha que decidir. Eu iria me render novamente à ditadura do liso ou assumiria o meu cabelo?”. Rayza não teve dúvidas de qual seria a sua resposta.

Ela decidiu que não ia mais alisar o cabelo para que as pessoas se sentissem melhores em relação à sua aparência

Rayza decidiu que não ia mais alisar o cabelo para que as pessoas se sentissem melhores em relação à aparência dela. Foto: Bianca Bion

Resposta essa que serviu para outras perguntas que guardava dentro do coração e da cabeça. A partir daí, libertou não só o cabelo, mas a essência. Conheceu novos estilos musicais vinculados à cultura negra e mudou a maneira de se vestir porque “finalmente sabia quem era”. E se viu representada em outras crespas e cacheadas, no rap, no reggae, no coco. Na cultura africana dos seus antepassados, da sua história.

Atualmente, Rayza vende brincos e colares artesanais

Atualmente, Rayza vende brincos e colares artesanais. Foto: Bianca Bion

Atualmente, vende brincos e colares artesanais, com desenhos e formas que retratam o orgulho que ela sente pela cultura do seu povo: mapa da África e pente garfo, entre outros. Um dos adereços de cabelo preferidos de Rayza é o turbante, acessório muito significativo para o povo negro.

Ela enfeita o cabelo crespo que incomoda. “Vai que ela é ‘macumbeira’ ou algo do tipo”, pensa quem evita sentar ao lado dela no ônibus. Rayza sabe que ainda é diferente perante os olhos alheios. Mas não se importa mais. Afinal, não é mais estranha aos próprios olhos.