Rap libertação

A história de Gabriel Henrique Gomes, 20 anos, começou como a de muitos negros de baixa renda: uma mulher negra e uma criança nos braços. Seu pai morreu quando ele tinha 5 anos, por isso a mãe Genilza, com apenas 23, teve que lutar para sustentar o garoto sozinha. O menino cresceu com o estigma trazido pela cor da pele. Viveu tentando se esquivar do preconceito e se encaixar em um padrão, raspando ou alisando o cabelo. Por meio do rap, entendeu que o “negro drama” – como diz a música dos Racionais MC’s, com a qual se identifica -, enfrentado diariamente não era besteira. “Só sabe quem sente na pele”, afirma.

Gabriel

Gabriel cresceu com o estigma trazido pela cor da pele e viveu tentando se esquivar do preconceito. Foto: Bianca Bion

Quando pequeno, Gabriel usava o cabelo raspado. Os cachos anelados, bonitos e vivos, da infância, eram cortados sem dó nem piedade pelos seus parentes. “É coisa de marginal”, dizia sua mãe. Aos 15, alisou as madeixas para entrar na moda. O ritmo swingueira era sucesso em todas as festas. O rapaz participava de um grupo de dança com os amigos e, por isso, queria imitar o estilo de outros dançarinos. Com os fios quebrados e profundamente danificados, voltou a raspar, porque não se identificava com aquele perfil.

Aos 15 anos, o jovem alisou o cabelo para entrar na moda

Aos 15 anos, o jovem alisou o cabelo para entrar na moda. Foto: Reprodução/Facebook

O novo visual só durou um ano, mas trouxe muitos aprendizados. Com o cabelo liso, sentia que era tratado de forma diferente. “O padrão imposto pela mídia é de branco, olho azul e loiro. O povo na rua vê um negro e pensa logo que é drogado ou favelado. Ninguém falava nada quando eu dava progressiva. Era como se eu fosse uma pessoa normal”, lembra Gabriel, sem se dar conta da utilização errada do adjetivo.

Passou a entender melhor a situação quando conheceu e se reconheceu no rap. O gênero musical falava sobre pessoas como ele: negros, vítimas de preconceito, marginalizados pela sociedade. Muitas vezes, sentia que a própria vida era relatada nas letras das canções.

A partir daí, passou a frequentar eventos e a estudar mais sobre a história do país e os motivos da sociedade funcionar daquela maneira. Deixou o cabelo black power crescer para mostrar que era como aqueles cantores e as pessoas retratadas nas músicas. Encontrou a identidade. Nasceu o orgulho e, também, o sonho de entrar no curso de engenharia e escrever letras de músicas para quem sofre como ele. Por enquanto, procura aprender mais sobre si mesmo e seus ancestrais africanos.

“Quero participar de eventos que exaltam o orgulho negro. É muito importante para que todos possam se conectar com sua identidade. O preconceito cresceu com meus fios, mas minha aparência não define meu caráter”, diz o jovem que sofre com olhares tortos todos os dias. “Tem gente que nem senta ao meu lado no ônibus, prefere ficar em pé”, relata.

Enquanto o sonho de se tornar compositor não vira realidade, Gabriel quer repassar os ideais para a filha de dois anos. Por causa do trabalho na área de logística, não tem tempo para estar presente integralmente na vida de Ana Rafaela. Ela mora com a família da mãe, que não é negra.

Como ele quando era criança, a menina tem cachos muito bonitos. Mas só vivem presos. “Dá raiva ver que querem deixar o cabelo dela preso ou penteado, ‘arrumado’. Ela herdou esses traços de mim e vai aprender sobre a cultura negra. Vou colocá-la na capoeira para aprender o autocontrole. Quero que ela tenha a aparência que quiser, sem influência de ninguém”, determina.

O garoto que sempre se preocupou com as opiniões dos outros agora cresce em busca de seus sonhos. Como diz a música Negro drama, “vai entrar em campo para vencer, vestindo o preto por dentro e por fora”.

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