Notas das Autoras

PicsArt_11-28-08.16.13Amanda Souza

Tudo começou com a visita de uma das integrantes da Marcha das Mulheres Negras em uma aula de radiojornalismo, na época ministrada pela mestra e doutora Ana Veloso, na Universidade Católica de Pernambuco. Não me recordo do nome da mulher que eu e meus colegas de classe entrevistamos, mas lembro bem de uma frase que ela disse: “Somos negras ainda que não nos reconheçamos, ainda que alisemos nossos cachos e pintemos o cabelo de loiro”. Essa frase me incomodou de forma que várias perguntas se criaram na minha cabeça, porque eu percebi que me encaixava nessa descrição.

A partir daí, comecei a pensar se passei 11 anos da minha vida escondendo meu cabelo porque não gostava dele ou porque tinha aprendido a não gostar. “Será tão ruim como eu me lembro?”. E decidi que ia libertar as minhas raízes depois de tanto tempo. Quando entrei na transição capilar, nem sabia o que o termo significava, só descobri depois de começar a pesquisar na internet, ver vídeos de como cuidar dos meus fios e saber que outras meninas também estavam passando pelo mesmo processo que eu. Aí pensei em sugerir a Bianca que esse fosse o tema para o nosso projeto e ela se empolgou muito com a ideia.

Ver os meus cabelos como realmente são foi uma surpresa maravilhosa! Hoje os amo, cuido, me reconheço e reconheço muito da minha cultura e resistência neles. Posso dizer que meus cabelos mudaram a minha vida!

Bianca Bion

12187775_972263292820572_5755123894958652006_nEra moda. A maioria das garotas alisava o cabelo quando eu estava no colégio. Até mesmo aquelas que já tinham cabelos ondulados. Parecia que era preciso aplicar química para ser considerada bonita. E não era só impressão. Só percebi a influência das minhas colegas quando senti vontade de alisar também. Eu, que tenho cabelos ondulados naturais, queria fazer escova permanente, para que meus fios ficassem “comportados”, iguais todos os dias. Desisti após minha mãe me mostrar as consequências.

Talvez por conhecer o mundo liso, foi fácil perceber o movimento contrário emergir. Timidamente, algumas mulheres voltaram a usar o cabelo cacheado. Essas pessoas se sobressaiam na multidão e despertaram minha curiosidade. Isso foi há cerca de cinco anos. Hoje em dia, está mais visível a valorização do natural. Só que diferente da moda do liso, a decisão de passar pela transição é íntima, uma revolução. Quando Amanda sugeriu o tema, fiquei animada. O resultado, depois de meses de pesquisa, foi mais do que uma webreportagem: amigos, conhecimento, esclarecimentos e coragem. A autoestima e a história de cada personagem me inspiraram a me sentir bem comigo mesma da maneira que eu quiser ser.