Depoimentos

Elis Gomes

27 anos, assistente social  

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A assistente social Elis Gomes sofreu racismo no trabalho. Foto: reprodução/Facebook

“Quando decidi encarar a transição capilar, enfrentei vários dilemas pessoais, pois lidar com meu cabelo e sua natureza, até então tão estranha, nunca foi fácil. Recebi críticas de familiares, conhecidos, da cabeleireira que dizia que eu não teria cara de assistente social com o cabelo que resolvera assumir. No último corte nem eu mesma me reconhecia naquele volume todo, ouvi críticas de uns colegas, outras me pintaram a boca com um batom vermelho e me encorajaram: ‘deixe de besteira menina! Você é linda e está ainda melhor assim’. Depois disso cheguei a conclusão de que precisamos nos bastar pra nos sentirmos lindas e deixar de lado comentários opressores e racistas. Encrespei. Devolvi o volume antes tolhido pelas químicas nessa eterna busca de quem é a Elis negra e de cabelo crespo que estava ofuscada desde o início da adolescência.”

Inêz Prazeres

21 anos, técnica em edificações

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Inêz já sofreu racismo estético, mas não se importa. Ela ama o cabelo do jeito que ele é. Foto: Ana Oliveira

“Bem, o preconceito passa de mãe para filha. Desde criança eu escutava que meu cabelo é ruim, que era preciso baixar o volume dele… até que chegou o dia em que eu resolvi assumi-lo, mesmo contra a vontade de todos. Dei um permanente afro, mas ainda receosa com o volume fiz um corte que disfarçava. Com o tempo, aprendi a gostar do volume e do frizz. Já escutei que meu cabelo era uma juba, já me perguntaram se eu ia sair com ele ‘assim’ e que ele é ruim. Uma cabeleireira já me perguntou porquê eu não passava produtos alisantes nos meus fios. Essas coisas já me afetaram muito, mas hoje nada disso me abala. Amo meu volume, amo meus cachos! Não sou mais escrava de químicas e nem padrões!”

Silvia Simbine

21 anos, estudante

A estudante se reconheceu negra após chegar ao Brasil

“Não me lembro de ter passado por algum racismo explícito, mas constantemente as pessoas me olham quando estou andando na rua e isso me deixa muito desconfortável. Às vezes me pergunto o porquê de me olharem tanto. Acredito que seja por algo relacionado a minha estética. Uma vez estava no shopping com meu namorado e uma moça branca me olhou com desdém. Eu ignorei, mas isso não quer dizer que não tenha machucado. Sou moçambicana e me reconheci como negra depois de chegar ao Brasil e sentir na pele atitudes racistas. A forma como as pessoas me olhavam e me tratavam. Engraçado que no meu país eu me sabia negra, mas não me afirmava. Tudo isso ocorreu quando me distanciei de Moçambique, porque lá reflexões acerca disso raramente eram colocadas.”

Sheyla Xavier

22 anos, estudante

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No prédio de Sheyla só há duas famílias negras morando

“Como eu sou moradora de um prédio classe média/ alta, onde só há duas famílias negras (a outra chegou recentemente), sempre passamos por constrangimentos e olhares tortos, entre outras situações. É bem comum e me incomoda muito quando perguntam se eu trabalho no prédio. É como se, por ser negra, não tivesse a minima possibilidade de morar nesse local, o estigma da pele ligado à inferioridade.”