De filha para mãe

“Eu decidi que tinha que ser naquele momento e, aproveitando que tinha passado em frente a um salão de beleza, resolvi cortar”. Foi em 12 de julho de 2014, no dia da abertura da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, que a cabeleireira Ladjane Vieira, de 34 anos, resolveu fazer o big chop.

A primeira vez que se encarou no espelho foi um choque. “Fiquei parada me olhando, estava me achando feia”, explica. Mas a sensação de alívio e liberdade foi maior do que a preocupação com o que as pessoas iriam falar do cabelo quase raspado.

A cabeleireira Ladjane foi influenciada pela filha a passar pela transição capilar. Foto: Amanda Souza

Foi graças aos conselhos da filha Lavinya Vieira, de 15 anos, que Ladjane conseguiu se libertar da química.  Nos momentos de dúvidas sobre se deveria passar pela transição ou não, a jovem fazia questão de relembrar a mãe o quanto ela é bonita. “Falava como o rosto dela é lindo”, conta.

O incentivo da filha foi maior do que a crítica da família que, apesar de ser em sua maioria formada por negros, reagiu negativamente à escolha de Ladjane. “Você não vai pentear? Como você é cabeleireira e não cuida do cabelo?”, eram algumas das perguntas feitas. Mesmo assim, ela não desanimou e seguiu em frente com o plano de não fazer mais escova progressiva nas madeixas.

A experiência aproximou ainda mais a mãe e a filha

A experiência aproximou ainda mais a mãe e a filha. Foto: Amanda Souza

Apesar de ter visto a mãe de cabelo alisado durante toda a vida, Lavinya nunca pensou em passar química para domar os fios encaracolados. Mas isso não quer dizer que a jovem não tenha passado por um processo de autodescobrimento. “Eu não sabia como cuidar do meu crespo e comecei a pesquisar e ver vídeos na internet. Quando vi outras meninas tratando seus cabelos, vi que o meu também era bonito e o aceitei como ele é. A partir disso, tentei ajudar a minha mãe a se aceitar também”, conta Lavinya, que ficou muito surpresa e feliz quando a mãe contou, pelo telefone, que havia feito o big chop. Ela foi até o salão buscar Ladjane, que não teve coragem de sair na rua sozinha com medo do julgamento alheio.

A transição de Ladjane aproximou muito mais as duas. Hoje, elas não só têm uma relação de mãe e filha, mas de amigas. “Conversamos sobre tudo, vemos vídeos sobre cabelos na internet, saio com ela e suas amigas também. Muitas pessoas falam que parecemos irmãs”, diz a cabeleireira.

“A minha felicidade e liberdade começaram no meu cabelo e se espalharam pelo resto do corpo”

Além disso, as duas tentam ajudar pessoas que têm vontade de se livrar da química e não sabem como fazer isso. Como cabeleireira, Ladjane não aplica mais produtos alisantes nas clientes. “A minha intenção é cuidar de cabelos naturais com hidratações e fazer o corte em quem quer tirar as partes lisas”, esclarece. Na escola, Lavínia tem ajudado colegas a aceitarem seus crespos e cacheados e aprender a cuidar deles. Muitas já estão passando pelo processo de transição capilar graças ao incentivo da amiga.

Basta chegar perto das duas para perceber o brilho que emana de suas essências. “A minha felicidade e liberdade começaram no meu cabelo e se espalharam pelo resto do corpo. Hoje eu me amo muito mais!”, garante a cabeleireira.