Movimento político

Manifestantes se reuniram na Praça do Derby, no centro do Recife, para seguir em marcha pelo empoderamento negro. Foto: Amanda Souza

Assumir os cacheados ou crespos pode ser encarado como um ato político. Na sociedade brasileira, pessoas com fios nestes formatos sofrem preconceito e são levadas a usar métodos de alisamento. Só que não atentam para o fato de que o cabelo está relacionado à ancestralidade africana.

A construção da identidade passa pela forma de se relacionar com o corpo. Entre 1966 e 1982, os integrantes do grupo norte-americano Panteras Negras utilizavam a estética como uma forma de se afirmar. Para isso, apostaram no punho erguido e nos cabelos black power como símbolo.

O processo de reconhecimento da coletividade negra no Brasil começou muito antes, com a resistência do quilombo comandado por Zumbi dos Palmares. No entanto, atualmente, enfrenta o preconceito para se consolidar. É o que afirma o membro do conselho político do Movimento Negro Unificado (MNU) José Oliveira. “O pensamento da democracia racial no Brasil, publicado no livro Casa Grande e Senzala, do escritor pernambucano Gilberto Freyre, reforçou a ideia de que não existe racismo no país. Segundo o autor, a miscigenação ocorreu de maneira harmoniosa”, relata o ativista.

Ele acrescenta que o preconceito se manifesta de forma silenciosa por causa deste tipo de raciocínio defendido por Gilberto Freyre. “Na década de 1930, as mulheres sofriam muito, pois tinham que se encaixar nos padrões europeus ditados pela sociedade. Nos currículos, era preciso colocar o seu perfil físico para conseguir emprego”, cita como exemplo.

Ainda segundo José Oliveira, vários atos de resistência e a força do movimento político ajudaram a população a se encontrar e a se assumir. Por exemplo, a criação da Frente Negra Brasileira, em 1931, do MNU, em 1978, e a realização de vários eventos com danças e ritmos próprios da cultura, como a Terça Negra, que acontece no Pátio de São Pedro, no Centro do Recife.

“Hoje, vejo que a juventude não tem medo de se identificar como negra. Muitas pessoas estão assumindo os cabelos naturais. Isso é uma conquista dos movimentos populares, um empoderamento pela estética, que gera auto-estima”

Atualmente, não são poucas as atividades culturais que celebram a ancestralidade africana e o ser negro. Este ano, Recife recebeu o Coco da Resistência e a Marcha do Empoderamento Negro. Em Brasília, a Marcha das Mulheres Negras  reuniu mulheres de todo o país. Em São Paulo, Bahia, Porto Alegre e Brasília, ocorreu a Marcha do Orgulho Crespo. Nestes eventos, o cabelo crespo e natural é visto como uma forma de manifesto e resistência.

“Assumir elementos característicos dos negros, como o nariz achatado e a boca, é um ato político. A estética não significa só beleza, mas também ancestralidade e empoderamento. Sabemos que os negros sofrem críticas da sociedade porque não se enquadram no padrão de beleza europeu. Decidir ir contra isso é uma forma de resistência”, afirma a professora Dayse Cabral, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

MARCHA

A Marcha do Empoderamento Negro, inicialmente intitulada Marcha do Orgulho Crespo, concentrou pessoas que assumiram o cabelo natural para protestar contra o preconceito que estigmatiza os negros. Depois, o ato mudou de nome para não excluir os simpatizantes do movimento que usavam o cabelo de outras formas.

“A marcha do empoderamento negro é uma resposta a nossa sociedade embranquecedora e racista. Pernambuco é o estado onde mais se mata negros no Brasil. Hoje, temos o objetivo de dar poder a uma pessoa negra. Nós crescemos com pouca representatividade negra na TV. Se encontrar hoje é uma forma de mostrar união”, afirma Joeb Andrade, um dos organizadores da marcha.

A estudante de direito Gabriela Chaves participou da marcha e falou sobre a importância do movimento. Ouça:

O grupo, formado por crianças, jovens e idosos, se concentrou no dia 17 de setembro de 2015 na Praça do Derby. No primeiro momento, o microfone foi aberto para quem quisesse fazer depoimentos. Até mesmo Leonardo, de 8 anos, tomou a palavra para falar sobre o quanto o racismo é ruim, emocionando a todos. “Um dia, eu serei advogado. E não é por causa da minha cor que vão me impedir”, afirmou, com toda convicção.

Leonardo, 8 anos, falou sobre a importância de combater o racismo. Foto: Amanda Souza

A mãe do pequeno e agente socioeducativa, Gisele Ladislau, explicou que ela e o marido procuram passar para os quatro filhos a importância de se reconhecerem como negros e de se amarem como são. Por isso, levou Leonardo, Miguel, 6, e Dandara, 4, os mais novos, para a marcha. “Era uma imposição da minha família alisar o cabelo, por isso eu vivi oprimida por muitos anos. Hoje, não quero que meus filhos passem pelo que passei. Eu os incentivo, mostro que eles são lindos como são. Leo, inclusive, está deixando crescer o black power. Na escola, sabe se afirmar e dizer o que quer”, relata, com orgulho.

O grupo seguiu pela Avenida Conde da Boa Vista, onde algumas pessoas encenaram peças rápidas sobre questões como o genocídio de jovens negros. O ato culminou em uma roda de coco no Marco Zero, no Bairro do Recife.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*
Website