Racismo

Uma das principais barreiras para quem pensa em assumir ou já assumiu os fios crespos é o racismo. Como o cabelo anelado é uma das características da etnia negra, ele é visto como feio, já que não segue o padrão de beleza europeu que é o modelo também aceito no Brasil.

De acordo com a chefe da divisão de Igualdade Racial da Secretaria Executiva de Direitos Humanos da Prefeitura do Recife, Girlana Muniz, as pessoas tendem a associar a estética negra ao não belo, ao baixo poder aquisitivo e status social. “Muitas vezes, a negra é demitida do trabalho, ou nem chega a ser contratada, por causa do seu crespo, do seu nariz, da sua boca, mas isso não é falado abertamente, dão outros motivos para justificar a demissão. Então, muitas vezes, as pessoas culpam as próprias vítimas de racismo por vê-lo quando, supostamente, ele não existe”, explica.

A gestora ambiental Dandara Marques, de 25 anos, passou por uma situação de discriminação recentemente. Em setembro de 2015, um homem que ela nem conhecia, morador de São Paulo, compartilhou uma foto dela no Facebook, com a legenda: “Me dá uma caixa de fósforo que faço progressiva nessa infeliz”.

Primeiramente, Dandara ficou perplexa com o que estava acontecendo, mas com a ajuda de amigos e familiares, entrou em contato com o Ministério Público para denunciar o racismo. A repercussão do caso foi tão grande que a gestora ambiental foi convidada a participar do programa Altas Horas, da Rede Globo, para falar sobre o ocorrido. Ainda assim, ela encontra dificuldades para conseguir usufruir dos seus direitos. “A burocracia é grande, apesar de eu estar correndo atrás para que ele responda criminalmente. Vai ser muito difícil que ele vá preso pelo que fez”, lamenta.

“O racismo é difícil de ser tipificado, porque é uma ideologia. Mas um importante passo para que haja punição é que as pessoas não silenciem”

A jovem ainda conta que já passou por várias outras situações de preconceito. “Uma vez, trabalhei recepcionando convidados em uma festa e tudo o que eu fazia era motivo para que a minha contratante reclamasse de mim. Embora a outra menina que estava trabalhando comigo fizesse as mesmas coisas, não era tratada da mesma forma. Demorei para perceber que era racismo, mas depois tudo fez sentido. No final, ela ainda me pagou menos do que o combinado pelo serviço que prestei”, relembra.

A professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e uma das coordenadoras do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), Dayse Cabral, fala sobre o racismo. Ouça:

Advogada Vera Baroni. Foto: Facebook

A advogada Vera Baroni defende que são necessárias políticas públicas mais eficazes para o crime de racismo. Foto: reprodução/Facebook

A advogada sanitarista com especialização em direitos humanos Vera Baroni defende que quem é vítima desse crime não deve se calar. “O racismo é difícil de ser tipificado, porque é uma ideologia. Mas um importante passo para que haja punição é que as pessoas não silenciem. É preciso denunciar e tentar caracterizar este tipo de violação dos direitos humanos, nesses casos em que a discriminação racial é velada.”

Ainda de acordo com ela, é preciso cobrar do estado que aplique as leis da forma devida. “Muita vezes, este crime, que é inafiançável e imprescritível, acaba sendo registrado como injúria racial, cuja pena é de um a três anos de reclusão e multa”, esclarece a advogada.

Veja mais depoimentos de pessoas que sofreram racismo

Segundo o site do Conselho Nacional de Justiça (veja mais), “enquanto a injúria racial consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem, o crime de racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça”.

AÇÕES

Para evitar a disseminação do preconceito racial, a Prefeitura do Recife e o Governo de Pernambuco têm lançado ações para informar os cidadãos. A Secretaria de Direitos Humanos do Recife põe em prática, desde 2004, o Programa de Combate ao Racismo Institucional, no qual ela realiza trabalhos sociais nos bairros. “Levamos danças e palestras relacionadas à identidade negra. Também fazemos essa atividade nas escolas. É um resgate da cidadania”, alega Girlana.

A Secretaria Executiva de Direitos Humanos de Pernambuco, junto com o Movimento Nacional Encrespa, lançou em setembro de 2015, a campanha “Encrespe-se, solte o cabelo e enfrente o preconceito”, que busca valorizar o cabelo crespo.

A ação foi realizada em três etapas. A primeira ocorreu virtualmente, para gerar a discussão entre os internautas, a segunda consistiu na afixação de cartazes nos ônibus que rodam pelo estado e a terceira é a implantação da temática nas escolas estaduais de Pernambuco. “Esse debate é necessário para o enfrentamento do racismo”, defende a secretária executiva de Direitos Humanos, Laura Gomes.

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