Mídia

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A mestra e doutora em comunicação Ana Veloso acredita que faltam representantes negros na grande mídia. Foto: reprodução/Facebook

A estética negra não é muito valorizada socialmente e nas mídias tradicionais (televisão e revistas, por exemplo) isso fica ainda mais evidente. São poucos os negros que ocupam papéis de destaque nessas plataformas e muitas vezes, quando ocupam, estão com características culturais modificadas, como é o caso do cabelo. “A grande mídia perde oportunidade quando deixa de discutir as diversas maneiras e significados em torno do sentido da ‘beleza’ em nossa sociedade. Por vezes, reproduz desvalores como o racismo, que acabam por perpetuar uma compreensão distorcida da realidade”, explica a mestra e doutora em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ana Veloso.

Segundo ela, o padrão eurocêntrico funciona como uma chave de leitura do mundo e é visto como unicamente belo na nossa sociedade. Uma forma de uniformizar algo subjetivamente incorporado como sendo correto, que não permite a abertura simbólica para outras manifestações da beleza autêntica.

Em uma pesquisa divulgada no artigo Mulher, cabelo e mídia (veja mais), escrito pela mestra em educação pela Universidade de São Paulo Bianca Santana, das 52 mulheres que responderam o questionário, 29 afirmaram ter o cabelo cacheado ou ondulado, 14 alegaram ter madeixas crespas e oito, fios lisos. Entre as entrevistadas, 40  já alisaram o cabelo alguma vez e 20 delas mantêm ou mantiveram o cabelo alisado por anos. Apenas 12, entre as quais oito de cabelo liso, afirmaram nunca ter tratado quimicamente o cabelo. Quando perguntadas sobre como aprendem a cuidar dos cabelos, quase 60% das respondentes, 30 no total, afirmam aprender em revistas, que reforçam os estereótipos da moda.

Para a jornalista Graça Araújo, há 20 anos a imposição do padrão estético era mais massacrante do que atualmente, mas a comunicadora lembra que, ainda assim, em Pernambuco, nenhum repórter ou apresentador de televisão assume os cabelos como são. “Se gasta muita energia com a aparência. Pode ter certeza que, ao apresentar um programa, o jornalista vai estar preocupado se o botão da camisa está aberto, se ele está gordo ou magro. É preciso estar bonito para entrar nas casas das pessoas.”

Assista ao depoimento da jornalista sobre o assunto:

Desde que começou a trabalhar na televisão há 10 anos, a repórter Luciana Queiroz, da TV Jornal, resolveu alisar as madeixas. A jornalista começou a usar química no cabelo por acreditar que seria mais apresentável para o veículo no qual trabalha. “Nunca me senti obrigada a alisar. Sei que meus cabelos demorariam muito para voltar ao formato natural e por isso continuo tratando eles quimicamente”, conta.

O repórter da Rede Globo Pedro Lins corta o cabelo desde criança por achar mais prático, mas não acredita existir uma pressão dos veículos de comunicação para que os jornalistas se encaixem no padrão de beleza . “Penso que no início era uma época bem difícil para se fazer telejornalismo, mas as coisas mudaram ao longo dos anos. A televisão, de uma forma geral, está se reinventando. Um bom exemplo na TV que trabalho é a Maria Júlia, apresentadora da previsão do tempo, no Jornal Nacional”, explica.

“Não podemos dizer que as mulheres negras estão no mesmo patamar que as brancas nos meios de comunicação, mas há avanços quando alguns veículos, como a TV Brasil, apostam em programas pautados pela igualdade racial e de gênero”

Por outro lado, Ana Veloso acredita que não só a mídia tradicional é responsável pela perpetuação de tais estereótipos. A representação minoritária de negros e negras em espaços de poder nos meios de comunicação também é um problema. “Não podemos dizer que as mulheres negras estão no mesmo patamar que as brancas nos meios de comunicação, mas há avanços quando alguns veículos, como a TV Brasil, apostam em programas pautados pela igualdade racial e de gênero. Há avanços quando temos mais negras na tela. Não que isso signifique que elas romperam com o lugar de subalternidade que ainda ocupam nas novelas. Todavia, no jornalismo, na apresentação de noticiários, por exemplo, ainda não há uma igualdade racial.”

Veja como a internet liberta as amarras da mídia tradicional

Ela ainda destaca que uma das funções da mídia é atender às preferências da população, por isso é importante que haja uma pluralidade de vozes e conteúdos. “Significa que os veículos de comunicação, sobretudo o rádio e a televisão, que funcionam por meio de outorga de concessões públicas, devem perseguir o interesse do público e não apenas dos controladores”, alega.

Ainda assim, uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Ábramo (veja mais), em 2013, registrou que dos 82% dos brasileiros que assistem à televisão aberta diariamente, 43% não se sentem representados pelo que é veiculado nas telas. Outros 25% se veem retratados negativamente. Além disso, 49% dos entrevistados(as) consideram que às vezes a TV retrata a população negra com desrespeito. Outros 17% acreditam que a imagem dos negros é quase sempre desrespeitada. Para 52%  do total de pessoas que responderam ao questionário, esta população é menos retratada do que deveria.

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