Mercado

A indústria de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos movimentou em 2014 mais de R$ 43 bilhões no Brasil. Este é um setor que continua a gerar emprego e renda, mesmo com a atual situação econômica no país. Embaladas pelo desafio de continuar crescendo, grandes e pequenas empresas da área, a exemplo de marcas de cosméticos e salões de beleza estão apostando em novos nichos: o dos cabelos cacheados e crespos e de recuperação de danos causados pela química.

Mercado oferece várias opções de produtos para cabelos crespos e cacheados

Mercado oferece várias opções de produtos para cabelos crespos e cacheados. Foto: Amanda Souza

Segundo pesquisa da Associação Brasileira da Indústria de Produtos de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), a área que produz cosméticos para cabelos é a segunda que mais recebe investimentos neste setor, junto a de artigos masculinos e de banho, entre outros. O panorama mostra que um dos motivos para o crescimento  é o lançamento constante de produtos atendendo cada vez mais às necessidades do mercado.

Porém, não são precisos números para perceber que propagandas de xampu, condicionador e creme de pentear específicos para cabelos crespos e cacheados estão tomando todos os horários na televisão e anúncios de revistas. Um exemplo é a Garnier Fructis, que lançou em 2015 o slogan “Em terra de chapinha, quem tem cachos é rainha”. Na tentativa de conquistar o público, a marca convida as mulheres a se empoderar assumindo os cachos.

 “Mesmo com a sociedade e a mídia impondo um padrão de beleza eurocêntrico, a vontade das mulheres de se reconhecer é maior”

Para profissionais do setor, a busca e a valorização do natural nas redes sociais estão forçando a mídia e a indústria a focar nestas demandas crescentes. Porém, eles encaram a mudança com ressalvas.  “Mesmo com a sociedade impondo um padrão de beleza eurocêntrico, a vontade das mulheres de se reconhecer é maior. Tanto que o comércio está se rendendo ao nosso tipo de beleza. Mas ainda falta muito para atender nossas exigências. Algumas empresas pequenas fazem uma oferta restrita de produtos específicos. Já outras maiores apostam na propaganda e apenas adaptaram produtos antigos, a ponto de só mudar o rótulo”, afirma a cabeleireira Jaqueline Santana, mais conhecida como Preta MC, que ajuda a organizar o movimento Encrespa em Pernambuco.

A dona da loja de cosméticos Cabelo Mania, no bairro da Boa Vista, no Centro do Recife, Viviana Cavalcanti, fala sobre o aumento no lançamento de artigos para cabelos crespos. Ouça:

 

Uma empresa que aposta na beleza brasileira é a Lola Cosmetics. Em seis meses em Pernambuco, a marca já promove a venda de linhas específicas em 40 lojas em todo o Estado. “O cabelo da brasileira é cacheado, crespo ou ondulado. Este é o foco da empresa, desde que surgiu no mercado há cinco anos. A indústria ainda não percebeu o potencial deste nicho. Nós temos 130 produtos voltados para quem quer passar pela transição capilar ou valorizar o natural. Hoje a gente percebe que a mulher quer ser quem ela é, sem imposições”, afirma o representante da Lola em Pernambuco, Tiago Félix.

SALÕES

Com a valorização do natural, também aumenta a procura por salões especializados em cabelos afro.  A dona do Anastasia, no bairro de São José, Centro do Recife, Ana Fabíola Nascimento, 39 anos, percebeu que muitos homens e mulheres procuram ajuda porque estão se conscientizando mais sobre a importância de se amar como são. “A partir de junho de 2015, cresceu em 60% o número de clientes que queriam fazer o big chop, o ponto de partida para a transição capilar. Algumas pessoas só querem entrar na moda, mas a maioria realmente é por questão de identidade. Também cresceu o número de itens para cabelo afro. Hoje tem de todo preço e qualidade”, relata.

O salão oferece os serviços de corte, tranças, mega hair, permanente e hidratação, entre outros. A equipe, formada por quatro pessoas, se reveza para dar conta da demanda crescente. O empreendimento começou há 10 anos, quando Ana Fabíola, que é negra e trabalhava como cabeleireira, percebeu um aumento no público.

De acordo com dados da ABIHPEC, outro motivo para a valorização do mercado é a maior inserção da mulher brasileira nos negócios. O analista do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Pernambuco (Sebrae) Thiago Suruagy explica que os salões afro existem por causa de várias “Anas Fabíolas” que estão espalhadas no país. “O setor de salões de beleza é informal, mas cresce a cada dia. A especialização em determinados serviços é uma forma de se destacar. No caso dos salões especializados em cabelos crespos, é um empreendimento que geralmente nasce de uma cabeleireira negra que conhece as dificuldades do público e vê uma oportunidade de negócio”, explica.

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