A realidade espanhola


Apesar das dificuldades, Tamara não deixa de sorrir. (Foto: Geração Bolha)

 

A cidade em que escolhemos para morar, Salamanca, na Espanha, é o contraste entre o passado e o presente. Foi ali que conhecemos nossa primeira professora no curso de espanhol, Tamara Florez Perez, uma jovem de 26 anos que era facilmente confundida como estudante: 1,60m de altura, cabelos castanhos lisos, olhos arredondados, um sorriso largo de risada alta e contagiante. Divertida, paciente e atenciosa, sua função, inicialmente, era tornar os estudantes de espanhol, em seus níveis básicos a superiores, verdadeiros especialistas na língua estrangeira.

Mestre em ensino de espanhol como língua estrangeira, quem a vê de longe não sabe o que está por trás de sua história de vida: seu maior sonho é passar toda a sua vida ensinando. Mas este desejo parece impossível após seu país ser atingido pela crise econômica europeia no ano de 2011, a maior desde a Grande Depressão Americana de 1929.

Milhares de europeus viram as economias de uma vida desvalorizar em poucas semanas, milhões perderam seus empregos, tiveram impostos aumentados e, em meio ao caos, os governos precisavam fechar a conta, promovendo cortes de orçamento em quase todas as áreas, desde a educação, até mesmo saúde e segurança. O estilo de vida mudou e, com isso, sonhos como o de Tamara tiveram que esperar, afinal, o futuro naquele continente ainda parece incerto para muitos jovens.

Uma formação de prestígio não era mais uma segurança na conquista de um emprego. Os últimos nove anos foram de muito estudo para Tamara, que buscava conquistar um trabalho que lhe fornecesse estabilidade econômica e uma vida confortável, assim como a maioria dos cidadãos em todo o mundo. Mas de acordo com a Pesquisa de População Ativa do Instituto Nacional de Estatística da Espanha, realizada no quarto trimestre do ano de 2013, a taxa de desemprego no país atingiu a marca de 26,3%, mais de seis milhões de pessoas desempregadas, sendo que esse número chega a incríveis 70% entre pessoas de 18 a 25 anos.

Tamara, que até pouco antes da crise, tinha os horários sempre cheios graças a grande oferta de trabalho nas escolas, se viu pela primeira vez sem sequer uma vaga temporária. Isso foi no início de 2013, mas ela já sabia que o futuro não parecia tão promissor. Com o plano de austeridade do governo, aquela série de cortes inclusive na educação, o número de bolsas de estudo na Espanha praticamente foi zerado, e os planos de cursar o doutorado, como os de Tamara, foram suspensos, indeterminadamente.

O ideal de emancipação mudou muito depois da crise de 2011. Até alguns anos atrás, era comum para os mais novos, estudarem em outras cidades, mas principalmente saírem cedo da casa dos pais. Atualmente essa realidade parece um passado tão antigo quanto as Catedrais de Salamanca. Segundo o Observatório de emancipação do conselho da juventude da Espanha, chega a 80% o número de jovens entre 16 e 30 anos que moram com os pais, e essa taxa cresce cerca de 3% ao ano.

Para José Sarrión Cayuela, professor de Sociologia e secretário geral da Universidade Pontifícia de Salamanca, “os recém-formados não dispõem de recursos necessários, por exemplo, para se tornarem independentes de suas famílias”. Ainda segundo ele, no dia que eles encontrarem – se encontrarem – trabalho, estarão entre duas gerações, uma de pessoas que já estão estabilizadas e outra de jovens que estarão iniciando suas carreiras. Ou seja, daqui a dez anos, esses jovens, que hoje sofrem com a crise estarão muito velhos para um primeiro emprego, e sem experiência profissional para algo melhor. “Isso vai abalar na vida deles para sempre e também o nosso país. Será uma geração inteira com problemas que afetará, principalmente, a nossa economia”, explica Sarrión.

Conheça mais sobre a história de Tamara:

Assim como a história de Tamara, nossa viagem foi cheia de descobertas. Percebemos que ali, na Europa, não havia apenas um caso para contar, existiam milhares. E entre eles, conhecemos pessoas como Francisco, de 27 anos, que assim como Tamara não tem perspectivas sobre seu futuro.

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