Como uma flor causou uma crise financeira em um país

Entenda a mãe de todas as bolhas

 

Quando falávamos sobre o tema de nosso projeto de conclusão de curso, a crise econômica mundial, normalmente a primeira reação das pessoas era dizer que achou o tema muito interessante e logo se seguia a mesma pergunta “por que esses países entraram em crise?”. A resposta: vários fatores, que explicaremos ao longo do projeto, mas o principal deles, uma bolha imobiliária. Pelo menos, foi isso somado às “hipotecas podres” que deu início à crise. Mas afinal, o que é uma bolha? E que hipotecas são essas? Vamos explicar tudo, mas antes disso, queremos saber: Você gosta de flores? Pois bem, vamos contar uma história que lá na frente fará todo sentido.

Na Europa do século XVII, os holandeses descobriram uma forma de ganhar dinheiro praticamente sem nenhum esforço. Mas quando dizemos ganhar dinheiro, é realmente muito dinheiro e, simplesmente, vendendo flores. Não era qualquer flor, eram tulipas, até então desconhecidas pelos europeus, que cresciam em algumas partes da Turquia.

Nos primeiros anos após desembarcar na Europa, por volta do século XVI, as flores ficaram restritas aos jardins da nobreza e aos botânicos especializados. Com o passar do tempo, banqueiros (extremamente endinheirados) começaram a comprar as flores, tornando-as assim, artigo de luxo entre os ricos. Todos queriam ter uma ou algumas, para mostrar como eram abastados. Entre essas flores, um tipo em especial chamou atenção pela sua beleza exuberante e pelo pigmento em cor púrpura imperial, mas ninguém imaginava que algumas tulipas só tinham essas características por que estavam contaminadas por um vírus, que as deixavam fracas e ao mesmo tempo ainda mais bonitas. Estamos falando de quase 400 anos atrás, época em que a vida microscópica ainda era desconhecida. De tão raras e diferentes, elas ganharam um nome todo pomposo, Semper Augustus, e quando um produto é escasso ou exclusivo, automaticamente o preço dele sobe e com essa flor não seria diferente.

De acordo com um trecho do livro Crash – Uma breve história da economia, do autor Alexandre Versignassi (redator-chefe da revista Superinteressante), um único botão da tal tulipa, em 1624, valia em florins holandeses (moeda da época) o equivalente a R$ 200 mil ou, para comparação, o mesmo que um Chevrolet Camaro SS (de preferência amarelo) aqui no Brasil. Esse altíssimo preço valorizou automaticamente a cotação das outras espécies de tulipas. É a mesma coisa do Camaro. O simples fato de um produto daquela marca passar a ser cobiçado faz aumentar o preço de todos os outros da mesma marca, e ter algo daquela determinada empresa ou daquele tipo (no caso, as tulipas) vira status, palavra de ordem entre os super-ricos, não importa em qual século.

O amor dos holandeses pelas flores tem uma explicação no solo dos Países Baixos. Por ser um terreno muito plano e bastante fértil, o cultivo se torna mais fácil, mas os floristas só vendiam as tulipas entre a primavera e o verão, época em que os bulbos (as raízes) floresciam e com a busca cada vez maior pelo tal produto, esperar tanto passou a não fazer sentido. Imagine que um florista precisasse de dinheiro no meio do inverno, ele não poderia vender a flor, já que ainda não estava na época. Foi aí que os comerciantes começaram a mudar o jogo, bastava eles venderem o direito de ter a tulipa quando ela florescesse, o que no “economês” é chamado de título. Nada mais é do que um contrato, um papel escrito “vale tal coisa” e como ideia boa pega, muitos vendedores tiveram a mesma ideia e rapidamente criou-se um mercado.

Ter aquele “vale tulipa” em mãos passou a valer bastante dinheiro. É uma lógica simples. Lembra que no ano de 2013, o tomate estava absurdamente caro? Isso aconteceu porque a safra do vegetal foi ruim. Os produtores insatisfeitos com os preços nos últimos anos, plantaram menos e, para completar, São Pedro castigou as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste com muita chuva, enquanto a região Nordeste sofria com a seca. Esses fatores combinados fizeram com que chegassem menos tomates na feira do seu bairro. Mas tomate é algo necessário, pelo menos na alimentação, e se tem menos disponível e muita gente para comprar, o preço vai subir. Levou o tomate quem pôde pagar mais, e levavam as tulipas quem podia se endividar para comprá-las.

Os “vales tulipas” passaram a ter tanto valor no mercado que os preços subiram vertiginosamente. Várias pessoas compravam diversos bulbos na esperança de vendê-los ainda mais caros e com isso sair no lucro. Essas pessoas são chamadas de especuladores: o sujeito comprava um título de 1200 florins, por exemplo, e rapidamente o vendia por 100 ou 200 florins mais caro. Convenhamos que ganhar dinheiro assim é fácil. Outra tática muito usada pelos compradores que não tinham dinheiro em mãos era pedir empréstimos. Funcionava assim: o cara passava no banco pela manhã e saía de lá com dinheiro (que não era dele) para comprar uma tulipa antes mesmo do almoço. À tarde com o título em mãos, ele revendia mais caro para outra pessoa, pagava o banco (com juros) e à noite estava comendo o jantar comprado com o lucro do dia. Isso virou algo extremamente lucrativo e comum. Dava para viver disso.

E até hoje dá. Os bancos tomam empréstimos de até o triplo do que tem em caixa (ou seja, o nosso dinheiro), fazem investimentos com esse dinheiro e terminam o dia lucrando. Um deles era o maior banco de investimento dos Estados Unidos antes da crise. Até 2008, o Lehman Brothers chegava a pegar emprestado U$30 bilhões para cada U$ 1 bilhão que tivesse em mãos. “Era como se uma pessoa que ganha R$ 5 mil por mês hoje em dia pegasse empréstimos de R$ 2 milhões por ano”, relata Versignassi em seu blog Crash no site da revista Superinteressante. Pagar esse dinheirão e ainda ter lucro, não é para qualquer um, nem mesmo para o Lehman, que faliu, e levou todo mundo junto com ele. Mas disso falaremos mais tarde, porque agora ainda estamos na Holanda das tulipas que valiam mais que uma casa em Amsterdã.

No começo da “Mania das Tulipas”, os clientes que alimentavam esse mercado eram ricos colecionadores de bulbos e grandes empresários holandeses. Mas com o tempo, nem mesmo eles queriam gastar tanto dinheiro para comprar uma flor e abandonaram o negócio. Se a coisa tivesse parado ali, o prejuízo talvez não tivesse sido tão grande, mas os rumores de que as tulipas da Holanda estavam fazendo fortunas, foi o suficiente para atrair uma leva de estrangeiros, principalmente franceses, que queriam elevar os preços até o limite e abocanhar parte do lucro. Edward Chancellor, conta em sua obra Salve-se quem puder, que esse grupo era formado em sua maioria por tecelões, padeiros, sapateiros e camponeses, de Paris e do norte da França, que venderam e hipotecaram as próprias casas e todos os bens que podiam na tentativa de comprar ao menos um bulbo e com isso revender a um preço suficiente para torná-lo rico.

Essa onda de globalização da “Mania das Tulipas” fez de vez os preços subirem, afinal, era mais gente interessada em algo escasso. Lembra-se do tomate? Era mais gente na feira disputando a mesma sacola do vegetal. Nesse negócio, ganha quem especula mais, quem compra pra vender logo ali, prometendo ao novo comprador que ele também irá lucrar. O negócio era tão insano que entre 1634 e 1636 um único bulbo da Semper Augustus valorizou 300% e chegou a ser vendida a 6 mil florins. Outro tipo, a Gouda, subiu de 20 para 225 florins, um aumento de 1125%. Mas em um negócio onde o céu é o limite e ganha quem especular mais, as pessoas perdem o bom senso e, no caso das tulipas, ele já havia se perdido há muito tempo.

Há relatos da época que um único bulbo, que valia 2500 florins, podia ser trocado por “27 toneladas de trigo, 50 toneladas de arroz, quatro bois gordos, oito porcos cevados, 12 ovelhas gordas, dois barris de vinho, quatro tonéis de cerveja, duas toneladas de manteiga, três toneladas de queijo, uma cama com lençóis, um guarda-roupa completo e uma taça de prata”, como conta Edward Chancellor em trecho de sua obra. Como os valores eram altíssimos, grande parte era pago com financiamentos e com outros bens, apenas a menor parte em dinheiro vivo. Isso não parecia uma preocupação por que a promessa de todos os especuladores era que no verão do ano seguinte, tudo estaria pago, já que as flores seriam entregues.

Mas em 3 de fevereiro “a farra acabou”. Motivos claros não há na literatura da época. Talvez porque o verão se aproximava ou talvez pela razão mais lógica: a falta de compradores. Num negócio como esse, o número de “loucos”, capazes de hipotecar a própria casa e vender tudo o que têm e até o que não têm para entrar numa especulação, é um recurso finito. Não é todo mundo que tem capacidade para isso e, no meio do caminho, quem pensa um pouco, sai com algum lucro antes que a bomba exploda ou que as tulipas não encontrem compradores. Mas na Holanda isso não aconteceu e, para completar, descobriu-se que alguns vendedores falsificavam os próprios títulos, e assim vendiam mais bulbos do que realmente tinham. Foi o suficiente. Do dia para noite aqueles “vale tulipa”, não tinham mais valor algum. Nas ruas não era possível vender sequer um título e assim, o mercado quebrou de vez.

Com o tempo, as cobranças dos títulos vieram. Os bancos, os vendedores, os floristas, os investidores, todos queriam receber os valores de seus títulos. Mas de quem cobrar a conta? Foram dois anos de tensão no mercado, até que o governo entrou na briga e declarou que os contratos seriam anulados, desde que fossem pagos, ao menos, 3,5% dos valores contratuais ajustados. Naquela altura, os antigos colecionadores voltavam ao mercado, mas só aceitavam pagar preços baixíssimos. Em poucos anos, os preços das tulipas voltaram ao valor real, apenas duas espécies preferidas por especuladores menores nunca se recuperaram.

Essa é a mãe de todas as bolhas. Uma bolha nada mais é que especular e elevar em pouco tempo os preços de algo às alturas e, a partir daí, criar um mercado de compra e venda com preços fora do comum. Em outras palavras, é comprar uma casa hoje por R$ 100mil e dois anos depois ela estar custando o dobro. Em nenhuma realidade o salário de uma pessoa valoriza tanto em tão pouco tempo. O problema está quando o mercado não encontra mais pessoas dispostas a pagar mais e mais por aquilo. As pessoas pararam de comprar tulipas.

Sabe o que aconteceu em 2013 com os tomates? As pessoas começaram a comprar molho industrializado (que era bem mais barato) ou pararam de usá-los. E os preços? Caíram, claro. Por vários motivos, mas caíram. Isso em uma escala reduzida não gerou nenhum colapso na economia do Brasil. Agora imagine isso aumentado bilhões de vezes. Imagine se todos “surtassem” e continuassem comprando tomate, parcelado no cartão de crédito. Em poucos meses, o quilo custaria até R$ 40 ou R$ 50. Foi essa proporção antes da crise nos Estados Unidos, quando cada família ficava, em média, 200 mil dólares mais rica ao ano, apenas com a valorização do imóvel. O que aconteceu? Vamos deixar o Homer Simpson explicar no próximo texto. Clique aqui.

 

*Texto baseado na obra Crash – Uma breve história da economia, de Alexandre Versignassi; e Salve-se quem puder: uma história da especulação financeira.

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