O medo do desemprego

Ariane em visita a La Alhambra, na Espanha, país que desejava morar. (Foto: Arquivo pessoal)

 

“Estou um pouco inquieta a respeito do meu futuro, preocupada pelo índice de desemprego e principalmente tenho medo de viver com dificuldades financeiras. Acredito que todos estejam sofrendo este mesmo sentimento. Não tenho vontade de ficar aqui na Bélgica, adoraria morar na Espanha quando eu terminar a faculdade, mas parece impossível, já que atualmente a Espanha está muito mal, em pior situação que a Bélgica. Há muita gente desempregada, sobretudo os jovens espanhóis”, declara a francesa que viveu toda sua vida na Bélgica, Ariane Germander, 19 anos, estudante de Ciências Políticas da Universidade Pública de Bruxelas.

Essa realidade atualmente tão comum, era algo difícil de imaginar pelos belgas, afinal, estamos falando de um país que não somente era símbolo de prosperidade, mas principalmente de segurança e estabilidade financeira. Sede da União Europeia e da Otan, foi na Bélgica que o bloco do Euro começou a ganhar forma, ainda em 1944, a fins da Segunda Guerra mundial, quando três países, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, formaram a Benelux, uma área de livre comércio entre eles, que buscava além da eliminação de barreiras alfandegárias, o desenvolvimento do comércio no pós-guerra.

O Tratado foi o embrião do que hoje conhecemos como União Europeia. Voltando para o século XXI, encontramos um país que tenta a todo custo vencer as barreiras e as perdas geradas pela crise. É lá também que encontramos a jovem Ariane, representação de um sentimento comum entre os belgas: a da falta de perspectiva. Apesar de seus amigos e familiares não terem sido afetados pela crise ela sabe que os próximos anos são de incertezas, contudo, conseguiu um trabalho temporário em uma padaria em seu bairro e se considera sortuda por essa oportunidade: “Hoje, de cada quatro jovens, apenas um conseguirá emprego, os outros vão continuar dependendo da ajuda dos pais, se eles ainda tiverem seus empregos”, conta.

Esse é apenas uma face de tantas da crise financeira. Os preços foram elevados, o desemprego cresceu e a austeridade (aqueles cortes nos gastos de dinheiro público, nos investimentos na educação e saúde, por exemplo), atingiu diretamente o país e passou a ser assunto de todos, seja dos que apoiam ou dos que rejeitam as mudanças. Houve cortes em todas as áreas, desde educação e saúde, até despesas com matérias de uso diário em órgãos públicos.

Apenas no ano de 2013, mais de 11 bilhões de euros foram reduzidos dos gastos públicos, em uma tentativa de diminuir a dívida pública que em 2010 já ultrapassava os 100% do PIB. Imagine, por exemplo, que somando o seu salário ao longo de 12 meses você tivesse R$ 36 mil. Esse é seu PIB, a soma de tudo o que você recebe ao longo de um ano. Mas digamos que quando você coloca na ponta do lápis, percebe que deve naquele mesmo ano mais de R$ 72 mil. Como pagar isso? Só há uma solução, reduzir ao máximo as despesas, negociar a dívida, e provavelmente pedir empréstimos para cobrir os gastos.

Lembre-se que com um país, a lógica é a mesma, mas a conta costuma ser mais difícil, já que estamos falando de bilhões e trilhões, valores quase abstratos para nós seres humanos financeiramente comuns. Outro grande problema da Bélgica, é que sua economia é basicamente resumida em serviços (entenda no gráfico abaixo), e de tudo o que é produzido no país, segundo o Banco Nacional Belga (NBB), 61,7% tinha como destino a própria Europa, o que em tempos de crise gera outro problema. A lógica é simples: se as pessoas de todo o continente estavam cortando gastos, logo vão menos às compras e claro diminui-se o consumo.

Os cortes nas despesas acarretou em uma diminuição das exportações no país entre os anos de 2009 e 2011, chegando a registrar US$ 18 bi em exportações mensais, número que normalmente ficaria na casa dos US$ 30 bi mensais. Nesse período o PIB caiu e o desemprego foi no sentido inverso, superando 8% da população em idade ativa. Perguntamos como Ariane vê os cortes de gastos públicos, ela prontamente se diz contrária. “A culpa disso tudo foi daqueles que brincaram com o dinheiro da população, os especuladores, os bancos, até que chegou o momento em que perderam tudo. Penso que a solução desde o início era pegar o dinheiro de quem tem muito e não daqueles que mais precisam. Fazer todos esses cortes quando a crise chegou, para mim, não foi uma boa ideia porque são as necessidades mais básicas de todos: a saúde e a educação”, afirma.

A forma que Ariane encontrou para enfrentar a crise foi a mesma de milhares de outros jovens: permanecer na casa dos pais. Ela vive com sua mãe, professora para crianças com idade entre 6 e 12 anos, e seu irmão mais velho, estudante de medicina. “Por conta da crise não buscamos apenas aptidão pela área de estudo, quando ingressamos na universidade, temos que escolher uma área em que haja emprego. Quando fui escolher meu curso, me senti pressionada por minha família, pois eles me pediram para levar em consideração se a profissão escolhida daria dinheiro. Foi um fator determinante para mim na escolha da carreira”, relata a estudante.

Perguntamos sobre seus planos para o futuro, ela titubeia e solta “não sei, tudo me parece incerto, quero acabar meus estudos, quem sabe até lá as coisas melhoram”, conclui.

Saindo da Bélgica, fomos parar nas terras dos nossos colonizadores. Apesar de nós brasileiros gostarmos de fazer piadas sobre eles, na situação em que se encontram, é melhor deixar a piada um pouco de lado e entender o que se vive naquele país. Conheça o árbitro de futebol português João Ari.

Deixe uma resposta