A crise não é mais nas tulipas

Na Holanda, os universitários são incentivados a estudarem em outro país por um período mínimo de seis meses. (Foto: Arquivo pessoal)

“Eu sou Luz Elena van Vat Lopez, tenho 33 anos, nasci na Colômbia, meu pai é holandês e minha mãe colombiana. Quando tinha 12 anos fui viver na Holanda. Casei aos 21 anos, tive uma filha e atualmente moro em Barendrecht, uma cidade perto de Roterdam (a 50km da capital Amsterdã). Meus pais são aposentados, minha mãe vive na Colômbia e meu pai na Holanda. Tenho uma irmã que vive na Espanha e trabalha como enfermeira”.

Conhecemos a jovem de traços sul-americanos aqui no Brasil. Ela, estudante do curso de Negócios Internacionais e Línguas, da Universidade de Rotterdam, veio para a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), cursar um semestre em um programa de intercâmbio. Foi a partir de seus relatos que tivemos a mesma sensação quando visitamos a Holanda meses atrás: a de que a crise não existia naquele país ou, se existisse, era muito diferente das outras nações do bloco.

Diferente da maioria dos países daquele continente, principalmente os da Costa Mediterrânea, a Holanda sempre foi símbolo da prosperidade econômica, do desenvolvimento social bem acima da média e de uma estabilidade que fazia os outros Estados parecerem uma classe emergente, se comparado à “terra das flores”. E isso não é de hoje. O estado de Pernambuco é um exemplo disso: nas quase duas décadas e meia de ocupação holandesa, Recife foi a cidade mais cosmopolita das Américas, inclusive com grandes obras de engenharia, entre elas, a primeira ponte na América Latina. Uma curiosidade inclusive: você já percebeu que o bairro do Recife, conhecido popularmente como Recife Antigo, é uma das poucas áreas da capital que não alaga durante as fortes chuvas? Agradeça ao Conde Maurício de Nassau, que construiu ali o mesmo sistema de drenagem que está em Amsterdam.

Tudo bem, mas vamos deixar Recife por aqui e voltar lá para a Europa. Sabemos que os holandeses constroem sistemas de drenagem como ninguém e vimos na história das tulipas que eles também sabem ganhar dinheiro muito bem, pelo menos até a crise chegar. Sabendo disso, eis a questão: você é daqueles que juram que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Se sim, saiba que cai. Quem disse isso? Os próprios holandeses que viram as tulipas florescerem mais uma vez, só que agora disfarçadas pelo empolgante mercado imobiliário.

Se você já leu o texto do Homer Simpson, sabe que o mercado de imóveis foi o gatilho de tudo, só que aí está o pulo do gato: em nenhum outro país europeu o povo se endividou tanto com hipotecas como a Holanda. Lembra que nos EUA o valor das hipotecas bateu os U$ 2 trilhões? Na terra das flores o valor chegou a R$ 1,7 trilhão em hipotecas. Não subestime o trilhão! E principalmente, compare a maior potência do mundo, a “terra do tio Sam” com a “terra das bicicletas”. A diferença, colossal, está na riqueza dos dois países, o PIB (aquele número que representa a soma de todas as riquezas que o país produz). Enquanto a Holanda arrecadou em 2012 um total de U$ 559 bilhões, os EUA (no mesmo ano) humilharam com monstruosos U$ 15,68 trilhões, aproximadamente, 28 vezes a mais.

É como se você com um salário de R$ 4 mil decidisse comprar o apartamento ao lado do seu amigo, que ganha ao mês mais de R$ 110 mil. Por mais boa vontade, honestidade e crédito para financiar que você tenha, provavelmente, uma hora você não vai conseguir honrar sequer as parcelas do novo imóvel. Assim foi com a Holanda, eles acreditaram que iriam pagar, pela simples lógica da valorização do mercado. Você comprava hoje um “apê” de R$ 500 mil na esperança de vendê-lo mais à frente por R$ 700 mil. Mas lembra que assim como na Mania das Tulipas, o número de jogadores desse “banco imobiliário” é finito e na Holanda eles demoraram para perceber.

A sensação que aquela era uma nação à prova de tudo, fez com que as pessoas esquecessem que a Holanda era apenas mais um mercado, sujeito a todo tipo de situação. Era comum as pessoas irem aos bancos, pedir dinheiro emprestado para comprar uma casa, saírem de lá com financiamentos, na maioria das vezes, de 100% do valor do imóvel, além de um extra para decorar a casa e quem sabe, vir tomar um sol na metrópole mais holandesa do Brasil. Essa “onda” durou ainda mais que a das tulipas, tempo suficiente para o Banco Central Holandês reconhecer a euforia e alertar para os perigos, mas se conselho fosse bom… Todos sabiam que aquilo uma hora chegaria ao fim, mas “que seja eterno enquanto dure” e quando acabou a “farra”, o prejuízo da festança foi tamanho que, segundo o próprio governo, a dívida das famílias holandesas é, em média, 250% maior que suas rendas financeiras. Para se ter ideia, em 2011, na Espanha, onde a crise chegou com força, esse número não passava dos 125%.

Quando a bolha das tulipas estourou, deu sorte quem não tinha títulos “podres” nas mãos. Aqui no século XXI, deu sorte quem não investiu nos imóveis que se desvalorizaram como areia no deserto. “Não sentimos tanto porque não tínhamos dinheiro investido”, conta Elena, contudo, milhares de pessoas logo perderam seus empregos. “O setor da saúde e da construção sofreram com muitas demissões, mas na minha área de atuação, ao contrário, necessita-se de muita mão de obra por causa da globalização. E, a cada dia, as empresas precisam de funcionários que possam fazer contato com os estrangeiros para transações”, revela. O desemprego é um fator complicado na Holanda, já que o governo insiste em 7,7%, mas segundo o jornal alemão Der Spiegel, esse número é muito maior e constantemente mascarado pelo grupo demográfico ZZP, os “zelfstandigen zonder personeel”, algo como (trabalhadores autônomos sem empregos).

A solução adotada por muitas empresas foi as demissões em massa e a contratação de mão de obra temporária, já que assim estão livres das obrigações com seguros sociais, além de criar um mercado de disputa de preço de serviços entre os trabalhadores autônomos. Se a oferta de trabalho é escassa e há muitos trabalhadores buscando o mesmo serviço, ganha aquele que cobrar o valor mais baixo. É a lógica inversa da valorização de um bem: se alguém não aceita o emprego, porque quer um salário melhor, vem outro e fica com o serviço por um valor menor. Elena nos conta que na empresa em que seu marido trabalha, foi adotada uma medida mais diplomática: “Nos últimos meses, meu marido teve que ajudar doando uma parte do seu salário para eles não quebrarem. Seu chefe fez acordos com os empregados para reter 20% de seus salários e quando o negócio estiver “bom das pernas”, os colaboradores receberão o dinheiro de volta”.

Enquanto isso, para tentar segurar a dívida pública, o governo apertou o cinto e cortou uma série de gastos, numa recessão, alguns anos antes, inimaginável para aquele povo. Foi anunciado, em 2012, um plano de redução de gastos, em um período de quatro anos, totalizando 16 bilhões de euros. Em 2013, foi acrescido em mais 4,3 bilhões de euros que devem ser cortados a partir de 2014, mas nada disso parece ter adiantado. O governo responde defendendo mais cortes em longo prazo. O primeiro ministro holandês de finanças, Jeroen Dijsselbloem, que também é chefe do Eurogroupo, afirmou em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung que “espetar a faca ainda mais fundo seria muito irracional”. Os efeitos da demora na estabilização da economia, são sentidos pela população, que não tendo outra escolha, não conseguem sequer honrar suas dívidas.

É um ciclo vicioso que se retroalimenta: onde os consumidores altamente endividados não conseguem pagar os empréstimos, logo, os bancos ficam sem receber e não podem injetar dinheiro na economia em forma de crédito. Essa sequência é suficiente para causar uma retração econômica que, por sua vez, aumenta o desemprego e dificulta ainda mais o pagamento daqueles empréstimos no começo do ciclo. A situação é tão complicada que segundo um estudo do PlanBureau  Centraal, o conselho de especialistas do Ministério da Economia, em Haia, apenas em 2013, 755 empresas pediram concordata na Holanda e no mesmo ano o PIB caía -0,8%. Os holandeses sempre foram bons poupadores e agora com a recessão, isso ficou ainda mais evidente, quem pode, guarda o que sobra, logo o consumo cai. Ainda que para as famílias uma redução de 1% nos salários não signifique muito, é algo alarmante para um país. É um tiro no pé, afinal se a população ganha menos, gastará menos, a economia fica estagnada e o país não avança.

Para Elena resta esperar que seu país não afunde ainda mais em meio à crise, coisa que atualmente parece difícil. Depois de muita conversa sobre suas impressões do Brasil e comparações com sua terra natal, perguntamos se ela pretende estender o curso e ficar mais tempo no Brasil. Ela é categórica, “quero voltar para a Holanda, pela comodidade da minha família e lá, apesar da crise, tenho mais segurança e estabilidade para trabalhar e viver”.

 

EDUCAÇÃO

“Estou no último semestre do curso de Negócios Internacionais e idiomas. Tenho experiência em outras línguas, além do holandês falo inglês, francês, espanhol e agora estou aprendendo português. Diferente do Brasil, na Holanda não existe diferença entre universidades públicas e particulares, há apenas um tipo, em que cada curso custa em média 7 mil euros e o governo paga 90% desse montante. O resto da conta, em torno de 700 euros, fica com o estudante. Além disso, o governo também disponibiliza uma ajuda de custo para os alunos, que varia de 100 a 500 euros mensais. A minha faculdade exige que todos os alunos busquem uma universidade conveniada, em qualquer parte do mundo, para estudar algumas disciplinas do curso fora do país, e também aproveitar para ter experiência com uma língua estrangeira”, conta Helena.

A pesquisa sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mundial é realizada para avaliar o desenvolvimento humano em três esferas: acesso ao conhecimento, qualidade de vida e vida longa e saudável. Em uma escala de 0 a 1, em que 0 é baixo e 1 é muito alto. Confira no quadro abaixo o abismo que separa o Brasil do “país das casas flutuantes”:

Brasil

Índice de 0.730

Classificação: Alto

85º lugar no ranking geral

 

Holanda

Índice de 0.921

Classificação: Muito Alto

4º lugar no ranking geral

Investimento: 5,7% do PIB Investimento: 5,9% do PIB
Adultos com, no mínimo, educação secundária: 49,5% Adultos com, no mínimo, educação secundária: 88,9%
Taxa de matrícula – educação primária: 127% Taxa de matrícula – educação primária: 108%
Taxa de matrícula – educação secundária: 101% Taxa de matrícula – educação secundária: 120%
Taxa de matrícula – universidade: 36,1% Taxa de matrícula – universidade: 62,7%
Satisfação com qualidade da educação: 53,7% Satisfação com qualidade da educação: 60,3%

 

Partindo desse pressuposto, vamos viajar agora para o outro lado do mapa, no Brasil, e chegaremos com a seguinte dúvida: na Europa, a falta de oportunidade é devida à crise econômica mundial, e no Brasil? Há falta de oportunidades pela deficiente injeção de investimentos, ou será que a crise está chegando ao nosso país?

Confira essas e outras respostas conhecendo as histórias de brasileiros da geração “nem nem”, dos concurseiros, de quem trabalha em uma área “nada a ver” com sua formação, e do jovem que descobriu na proatividade alinhada à tecnologia, uma ótima renda. Mas antes de chegarmos aos conterrâneos, vamos contar a história de um irlandês, Darren McVeigh  que escolheu o Brasil como refúgio da crise econômica europeia.

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