“O amanhã não se sabe”

Além de estudante de Licenciatura em Relações Internacionais, o português João Ari é árbitro de futebol. (Foto: Arquivo pessoal)

A fuga de cérebros nada mais é do que a saída de jovens, com suas várias qualificações profissionais, de seu país de origem por razões financeiras, ideológicas, sociais ou políticas. Esse é um dos principais fatores que faz com que Portugal não consiga recuperar seu melhor desempenho depois da crise que assolou toda a Europa em meados de 2008.

“Aqui em Portugal, todos conhecem pelo menos uma pessoa que já emigrou ou pretende emigrar em um futuro próximo. O principal erro do nosso país foi acharmos que ao entrar na zona do Euro, teríamos uma vida fácil. Os primeiros anos de fato foram: pouco trabalho e muito consumo. Porém, dessa forma, bloqueamos a nossa capacidade de crescimento”, afirma o português João Ari da Silva Ferreira, 24 anos, estudante de Licenciatura em Relações Internacionais, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa.

De acordo com as Estatísticas Detalhadas sobre a União Européia e Países Candidatos (Eurostat), o número de desemprego, até meados de fevereiro de 2014, em Portugal, atingiu a marca dos 15,3%. Já em relação a pessoas com até 25 anos, esses números se elevam, chegando aos 35% até aqui. Na União Européia, Portugal fica atrás apenas da Grécia (58,3%), Espanha (55%) e Itália (41,6%), em termos percentuais de jovens sem emprego.  

Com a crise, todas as classes econômicas (alta, média e baixa) foram atingidas e sentiram na pele os cortes realizados pelo governo derivado do programa do Fundo Monetário Internacional (FMI) de assistência à economia. “A partir do ano 2010, passou-se a ouvir mais a frase: ‘Não posso ir porque não tenho dinheiro’. Isso nos revelou que as pessoas passaram a administrar o dinheiro em função de suas despesas primárias e só depois a gastarem em diversão e necessidades secundárias. É notório o aumento dos sem teto e dos pedintes nas ruas. Se andarmos em qualquer transporte público ou a pé, existe a grande probabilidade de vermos alguém pedindo dinheiro”, relata João. Em sua vida, pouco mudou. A partir de 2010, João se tornou árbitro de futebol da Associação de Futebol de Lisboa e desde esse ano colhe os frutos de seu trabalho, tanto por participar de jogos de divisões superiores como também por fazer mais jogos por semana. Dessa forma, seu salário aumentou, fazendo a diferença na participação financeira familiar, mesmo com seus pais trabalhando.

“As despesas ficaram mais pesadas e é fundamental guardar dinheiro para o futuro. Aprendi com a crise que se hoje estamos em uma situação confortável, o amanhã não se sabe”.

Esse mesmo pensamento aflige os portugueses quando abordamos o tema “filhos”: “Em Portugal as pessoas pensam duas vezes quando querem ter filhos, o que faz com que haja um decréscimo no número de nascimentos já que, as expectativas em relação ao futuro dos portugueses são negativas”, relata João. A Base de Dados de Portugal Contemporâneo (Pordata), organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, relatou em sua última pesquisa, atualizada em março de 2014, que a taxa bruta de natalidade no país, de fato, está decrescendo. De 2008 até este ano, o número caiu de 9,9% para 8,5%. “Isso são sinais notórios de uma crise que ninguém sabe quando irá acabar e quando poderemos respirar com alívio novamente”, conclui João. Seguimos agora para a Holanda, onde a crise não é mais das tulipas. Conheça a colombiana que vive na Holanda, Luz Elena van Vat Lopez.

Deixe uma resposta