Na França, não faça como os franceses

François em visita ao Brasil. (Foto: Arquivo pessoal)

 

“A França é como a personagem Blue Jasmine de Wood Allen, mesmo depois de perder tudo, continua negando a própria realidade e é avessa a aceitar a mudança de vida”. É assim que François-Xavier Podvin, estudante de 22 anos, define seu país quando perguntamos sobre sua visão em relação à situação enfrentada pela França na crise econômica. No filme, homônimo à personagem principal, Jasmine é casada com um mega investidor bilionário, que do dia para noite perde tudo e a abandona. Assim, ela vai viver de favor na casa de sua irmã, em um subúrbio da Flórida.

A comparação que o estudante de jornalismo François faz de seu país com a personagem do filme, se dá pela França ser um dos países que mais reluta em admitir o estrago causado pelo “tsunami” que foi a crise mundial, tentando a todo custo não alterar o estilo de vida de uma sociedade que há muito, já não o tem.  Enquanto no filme, os anos vividos em meio ao luxo, fortuna e frivolidade ficaram para trás e fazem da nova realidade de Jasmine algo inaceitável e quase insuportável para ela, na França o povo vive algo semelhante. De um lado, o governo se esforça em manter o discurso que o pior já passou e que recessão é coisa do passado; do outro, a pior crise econômica e social das últimas décadas leva milhões de famílias a situações antes impensáveis no país.

E nesse meio está o jovem François, e com ele mais de cinco milhões de outros desempregados, o que representa 10% da população ativa do país. No penúltimo ano de universidade, ele diz que a crise só não atingiu sua família com mais força porque seu pai continua empregado, mas em compensação levou dele e de sua irmã mais nova (estudante de turismo) a esperança de construírem uma carreira de sucesso, ao menos em seu país de origem.

“Penso que na França somos todos responsáveis pela crise. As dificuldades da vida é apenas culpa nossa porque regulamentamos, construímos, compramos, vendemos e administramos nossos bens. A escassez na criação de empregos também é culpa nossa, assim como a decadência da educação. A dívida pública não nos deixa esquecer os anos difíceis, mas ainda assim, as coalizões políticas tanto de direita quanto de esquerda, paralisaram o país e anestesiaram os franceses prometendo-lhes a cada eleição um mundo melhor e logo reconhecem serem incapazes de realizar suas promessas” desabafa François.

O estudante, que se diz apolítico, é apenas mais um dos cidadãos frustados com a situação decorrente em seu país. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto francês BVA, apenas 26% dos franceses aprovam o governo do atual presidente, François Holland. Entre os eleitores declaradamente de direita, a rejeição chega a 97% dos entrevistados, número que o torna o presidente mais impopular da França desde que a pesquisa começou a ser feita, há 32 anos.

As razões para um índice tão alto são inúmeras. Entre os anos de 2008 e 2010, a dívida do país chegou a 1,53 trilhão de euros, o que representa mais de 85% do PIB do país, que é a soma de todas os bens e serviços produzidos pelo país no ano. É como se o que a França deve representasse 85% de seu salário anual. Mas esse é apenas um dos problemas financeiros do país. Nesse mesmo período, o déficit orçamentário atingiu 8%, ou seja, o país gasta 8% a mais do que arrecada.

Vamos supor que o seu salário fosse R$ 5 mil e mensalmente você gastasse R$ 5.400, portanto, seu déficit no orçamento é de 8%. Tá bom, você pode até dizer que esse valor representa uma diferença pequena, afinal gastar R$ 400 a mais, quando se tem um salário de R$ 5 mil, não é lá algo de tirar o sono. Mas lembre-se que quando falamos de um país, esses cálculos são feitos na casa dos trilhões. E é mais dinheiro do que parece. Há 2 trilhões de segundos, por exemplo, a Europa era povoada apenas por Neandertais. São mais de 60 mil anos, portanto, fique atento aos trilhões!

Nos últimos anos, François aproveitou para se qualificar, já que para ele conseguir um emprego é uma tarefa cada vez mais difícil, e por isso, quanto mais qualificado estiver, melhor. Ele adora estudar idiomas (exceto inglês, o qual tem dificuldade em aprender), fala fluentemente espanhol e agora está aprendendo português. Aficionado por xadrez, ele dá cursos em um clube perto de sua faculdade, sem cobrar nada. Estudante de jornalismo, escolheu se especializar em imprensa escrita e webjornalismo, mas na verdade, não crê que terá um futuro promissor nessa área, “meu diploma serviu apenas para mudar de profissão. Na França, jornalismo é um curso universitário em decadência”, declara.

Quando questionado sobre como a crise econômica mudou os hábitos de sua família, ele nos conta: “Tivemos que ter mais cuidado com nossos gastos como cada francês, suponho. Nosso estilo de vida não mudou radicalmente, mas tivemos que adaptá-lo”. Seu pai trabalha em uma cadeia multinacional de distribuição francesa, é o encarregado do crescimento da empresa e sempre está em contato com agentes imobiliários buscando terrenos para construir novas lojas. Sua mãe é psicóloga, mas parou de trabalhar há algum tempo, se dedicando aos cuidados da casa.

Talvez, a família de François não tenha necessitado realizar grandes mudanças no estilo de vida, mas certamente viram seu poder aquisitivo cair. Do início da crise até o ano de 2012, as famílias francesas viram seu poder de compra cair em 1%. Foi a primeira vez nos últimos 30 anos que esse número decresceu. Com uma economia baseada em exportações, a França sentiu diretamente o impacto da crise. Se o mundo está em recessão, as pessoas tendem a economizar mais dinheiro e logicamente deixam de adquirir, ou pelo menos diminuem a demanda, por bens supérfluos. E nisso o país sentiu. Muitas empresas de inúmeros setores viram seu faturamento cair, desde a produção de vinho e queijo, e até mesmo no setor automobilístico.

Mas os franceses, como bons nacionalistas, adoram os produtos feitos em seu próprio país. Como diz o ditado, “uma vez que se prova Champagne (fabriqué en France, claro), dificilmente vai querer Sidra”, e isso os franceses sabem melhor que ninguém. Acostumados a um estilo de vida, digamos que, financeiramente mais “abastado”, ao menor “aperto no cinto”, a população sentiu. De toda a Europa, na terra dos escargots o plano de austeridade foi um dos mais modestos, mas foi também o que mais enfrentou resistências internas. Foram inúmeros protestos, diversas greves gerais e embates emblemáticos entre os partidos políticos.

Ficou decidido que para se aposentar, os cidadãos terão que trabalhar mais dois anos, assim, o pai de François e todos os outros trabalhadores terão que esperar até os 62 anos para “pendurar as chuteiras”. Outra medida foi o corte no orçamento anual para diminuir o déficit orçamentário, aquele gasto que ultrapassa o salário que citamos ali em cima. Em 2013, por exemplo, a redução nos gastos públicos foi de 45 bilhões de euros.

No final das contas, o descontentamento com a posição do governo perante a crise é algo comum. Basta caminhar pelas ruas de Paris ou de outra cidade e perguntar a qualquer francês, qual a sua opinião. A maioria deles, assim como o jovem François, deve concordar com o renomado Peterson Institute, uma das organizações econômicas, sem fins lucrativos, mais renomadas do mundo. Segundo um estudo da instituição, publicado pelo jornal Le Monde, “o país perde hegemonia por não ter coragem de fazer reformas efetivas”.

O documento ainda apontou que a França tornou-se uma “economia periférica”, já que o efeito crise gerou uma dívida que tirou o país do “coração” do crescimento europeu e ainda cita sua “óbvia perda de influência no continente desde o início da crise”. Para se ter uma ideia da importância desse estudo, dois dos membros da organização são o ex-chefe do Federal Reserve (o Banco Central americano), Paul Voker e Jean-Claude Trichet, ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE).

O autor do estudo, Jacob Kirkegaard, frisa que “em tempos de crise é importante ter um governo forte”, algo hoje que a Alemanha, por exemplo, agradece. Com as medidas de controle financeiro, tomadas pelo ex-primeiro ministro Gerhard Schröder, ainda em seu governo (1998 – 2005), a Alemanha pôde enfrentar a crise de forma mais fácil, do contrário, segundo Jacob, provavelmente estariam como os franceses, onde um a cada seis está inscrito no escritório de emprego, algo semelhante a nossa agência do trabalho.

Apesar de sua vida não ter sido atingida duramente pela crise, a falta de perspectiva fez criar em François um objetivo: se nada mudar, partirá definitivamente de seu país para não dar a seus filhos esse “presente horrível e envenenado que se fez a França”. Sem querer antecipar o desfecho de Blue Jasmine, para aqueles que ainda não assistiram ao filme, para nosso entrevistado parece que no fim das contas “a França vai acabar essa saga como a personagem: narcisista, vestindo-se de forma deslumbrante, porém pobre, alienada e sem ter qualquer pessoa que se importe com ela”, conclui François.

Deixamos a França para trás e levamos na bagagem, além de histórias incríveis, a sensação de que, talvez, os franceses tenham chegado à conclusão que nem tudo que é essencial, realmente é invisível aos olhos. Para nós, chegou a hora de cruzar novamente uma fronteira e dessa vez conhecer a Bélgica. Nada melhor do que uma futura cientista política para nos explicar a situação de seu país. Conheça a belga Ariane Germander.

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