Em crise

Sarrión

 

Professor de Sociologia e secretário geral da Universidade Pontifícia de Salamanca, José Sarrión Cayuela, conversou conosco e nos explicou o antes e o depois da crise que assolou a Espanha e praticamente todo o continente europeu. Ele nos conta também sobre a geração perdida e o impacto da crise na vida dos cidadãos.

Geração Bolha: Como era a vida das pessoas antes da crise chegar na Espanha?

José Sarrión Cayuela: Crescíamos mais que todos na Europa, tínhamos uma redução no desemprego que nunca tínhamos visto desde os anos de Franco e a democracia. Tínhamos uma indústria que prosperava, o turismo, a construção, todos os serviços. Éramos uma  nação fundamentalmente receptora de cidadãos de outros países, imigrantes, tínhamos uma quantidade de serviços que pensávamos que nunca íamos perder. Vivíamos com segurança, um otimismo nacional e usávamos dos bens que adquiríamos com o nosso esforço, desde a educação até os viés culturais. Aqui na Espanha, temos a cultura de que nós estamos seguros se tivermos uma casa em nosso nome, propriedade nossa, não de aluguel. Tínhamos o crédito fácil e além disso, garantíamos o pagamento com nossos salários. “Alguém” falava sobre a bolha imobiliária, mas acreditávamos que isso não ia chegar aqui. Foi assim, até o dia em que não conseguíamos mais atender a esses compromissos e o que era apenas um “boato”, se realizou.

GB: Há especulações de que a crise continue no país até 2020.

JSC: É possível. Não tão duramente como estava de início, mas é possível.

GB: Como está, de fato, a crise neste momento?

JSC: São mais de 6 milhões de pessoas desempregadas. Estamos vivendo em uma situação de depressão em todos os níveis: de trabalho, cultural, ambiental, social… Tudo isso impacta fortemente nas pessoas. A visão que os espanhóis tem sobre a família, ainda conserva os laços de pais, filhos e avós podendo chegar ao caso de, por exemplo, famílias com netos viverem da pensão dos avôs. Vivemos uma espécie de amortecedor do golpe que a crise causou. Mas claro, chega um momento em que os bens são escassos e de onde não se repõe, ao final, desaparece. E talvez se isso seguir por esta mesma linha, há um alto risco de desestabilização social.

GB: Os serviços básicos foram muito afetados depois da crise?

JSC: Eu acredito que não ao ponto de gerar um alarde forte. Isso vai acontecendo paulatinamente, mas claro, estamos decrescendo. Temos menos acesso a bens que antes disponíamos com uma maior facilidade.

GB: O futuro dos jovens, o senhor acredita que vai ser muito afetado?

JSC: Eu acredito que há uma parte significativa da juventude atual que vai ser afetada muito fortemente por essa crise, chegando até a ser uma geração perdida, a não ser que seja implementada políticas que favoreçam a geração de desempregados jovens. Eles não dispõem de recursos necessários, por exemplo, para se tornarem independentes de suas famílias. E no dia que eles encontrarem – se encontrarem – trabalho, estarão entre duas gerações, uma de pessoas que já estão estabilizadas, e outra de jovens que estarão iniciando suas carreiras. Ou seja, daqui a dez anos, esses jovens, que hoje sofrem com a crise estarão muito velhos para um primeiro emprego e sem experiência profissional para algo melhor.

GB: Você acredita que o Brasil caminha em direção a uma crise?

JSC: Brasil tem momentos de crises desde governos anteriores, mas acredito que não como a nossa. Em relação ao Brasil há que se distinguir dois fatores. Primeiro: o país é uma fonte de matérias primas, é algo que nós, por exemplo, não temos. Segundo: o Brasil tem gerado nos últimos anos, políticas de desenvolvimento de valor adicionado às matérias primas. Não é somente gerar matéria prima e levar a outros países para que as transformem, mas também é possível modificá-las sem a necessidade de outra nação. Anteriormente no Brasil havia uma diferença muito forte, em que os pobres eram muito pobres e os ricos eram muito ricos. Até hoje isso não desapareceu, mas houve uma convergência para gerar uma classe média que esteja sustentada pelos recursos do próprio país. Eu acredito que está aí uma diferença fundamental entre o Brasil e a Espanha.

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