A prima rica da Espanha

A crise passou longe da vida de Meesha. (Foto: Arquivo pessoal)

Quando a bolha imobiliária explodiu no fim de 2007 nos Estados Unidos, de cara a Inglaterra foi uma das nações mais prejudicadas, pois era um dos países que mais tinha dinheiro investido em fundos de ações americanas. Vários bancos perderam grandes fortunas e alguns foram socorridos pelo governo, na tentativa de impedir que a crise se alastrasse ainda mais. Ainda assim, não foi suficiente para impedir a falência de algumas instituições financeiras e as economias de milhares de ingleses desapareceram da noite para o dia.

A Inglaterra entrou em uma recessão que durou 18 meses, viu o seu PIB (a soma de todas as riquezas que o país produz) cair vertiginosamente, sentiu os cortes financeiros e o congelamento de salários em quase todas as áreas. Foram feitas demissões em massa, e pela primeira vez em 17 anos, a taxa de desemprego chegou a 8,4% e tirou o sono de muitos ingleses.

Mas na “Terra da Rainha”, não é só a direção do carro que é o do lado oposto, a crise deles também é um pouco diferente. E quem nos ajuda a compreender isso é uma inglesa de traços indianos e sangue africano. Nascida e criada na pequena cidade de Harrow, noroeste da Inglaterra, Meesha Doshi, 27 anos, vive com seus pais e seu irmão mais novo, todos atualmente empregados. Graduada em Optometria pela Cardiff University e com três formações técnicas em biologia, química e matemática, Meesha é um exemplo perfeito do motivo pelo qual o Reino Unido sempre foi destino preferido dos imigrantes que tentavam a sorte na Europa.

Filha de pais quenianos que foram estudar na Inglaterra (sua mãe é microbiologista e seu pai é engenheiro civil) foi lá que eles encontraram grandes oportunidades de emprego e decidiram ficar permanentemente. Constituíram família e hoje, apesar da crise, Meesha se diz tranquila por não sofrer grandes perdas com a recessão. É bem verdade que a Inglaterra sofreu e ainda sofre com a crise, mas a situação daquele país é bem mais favorável do que na maioria dos outros no Bloco Europeu. E a principal razão para isso, caminha dentro dos bolsos e carteiras nas úmidas ruas da capital britânica, a Libra, moeda que diferentemente do Euro (adotada em quase todos os outros países da União Européia) sofreu muito menos com os cortes.

Desde a criação da Zona do Euro, a Inglaterra sempre foi favorável à união, contudo sempre manteve os dois pés atrás no quesito autonomia financeira. Mesmo depois de passar a integrar o bloco, ainda no início de sua formação, em 1973, o Reino Unido preferiu manter a moeda que já era usada, isso porque seria mais fácil para o controle da economia e realizar intervenções quando necessárias, como mudanças nas taxas de juros ou mesmo desvalorizar a moeda, sem ter que depender de decisões de outros países.

Com todo esse controle nas mãos não é de se esperar que o Reino Unido tivesse mais “facilidade” para lidar com a crise europeia. E quando a tempestade veio, os ingleses se deram muito bem em não dividir a mesma moeda que os outros países. Esse bem estar pode ser visto na família de Meesha. Dos quatro familiares em casa, todos estão empregados, inclusive seu irmão dois anos mais novo, que trabalha como corretor financeiro.

“Não tenho amigos e nem familiares sofrendo com a crise. Numa esfera pessoal, nem eu, nem minha família fomos afetados em nossos empregos ou em nossos estilos de vida. Entretanto, as nossas carteiras de aplicações em fundos de pensão foram afetadas. Elas estariam valendo muito mais hoje se não fosse a crise”, explica Meesha.

O sentimento de maior perda entretanto está naqueles que, depois da crise, deixaram seus países e cruzaram a fronteira para tentar a vida no Reino Unido. Foram milhões de europeus que tiveram a mesma ideia ao mesmo tempo, e dificilmente o mercado poderia absorver tanta mão de obra em tão pouco tempo. Assim, a taxa de desemprego cresceu ainda mais e, aos poucos, até trabalhos, antes fáceis de encontrar, se tornaram escassos como, por exemplo, vendedores e garçons.

“Dei sorte porque minha profissão não foi impactada nem pela crise nem pela recessão que se seguiu, já que é um braço do sistema de saúde e um serviço que o público necessita continuamente”. Mas ela faz uma ressalva, talvez a que mais fazem os ingleses que seguem empregados: “Entretanto significou que meu salário permaneceu estável, mas eu tive sorte e pude economizar tudo que eu podia antes da crise”, relata.

Questionada sobre seu futuro, Meesha afirma que não tem planos, mas adoraria ter experiências em outros países para aplicar seu amor por sua profissão. Ela continuará construindo gradativamente sua vida, trilhada com muitas experiências. Diz que não se vê na mesma profissão e no mesmo lugar para sempre. “Adoraria poder ou fazer a mesma coisa em outro país ou tentar algo totalmente novo”, conclui.

E foi assim que a conhecemos na Espanha, em busca de novas oportunidades e experiências, enquanto estudava espanhol. Porque em casa, do lado oposto do Canal da Mancha, estão esperando por ela a estabilidade e a segurança do país que aprendeu a se reerguer e ser independente.

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