Homer Simpson e os títulos

Na mitologia grega, tudo que o Rei Midas tocava, virava ouro. Acredite, os americanos e os bancos mundo afora descobriram algo mais lucrativo que o antigo rei: os títulos das hipotecas. Bancos são naturalmente as instituições mais lucrativas no mundo, nada rende tanto dinheiro quanto emprestar o que não é seu e ainda cobrar juros por isso. O que eles fazem é basicamente o seguinte: eles pegam o seu dinheiro, juntam com o de vários outros clientes, emprestam R$ 1 milhão para Seu Joaquim construir uma padaria e o fazem assinar um papel dizendo que daqui a um tempo, ele vai devolver R$ 2 milhões.

Só que a instituição financeira do padeiro Joaquim, não queria ficar sentado, esperando que ele construísse a padaria, comprasse as máquinas, contratasse pessoal e vendesse os pães, para só então começar a pagar a dívida. Isso iria demorar e você deve conhecer a máxima do capitalismo: “tempo é dinheiro”.

Foi ai que os bancos encontraram uma solução: ganhar com a dívida de Joaquim. Quando ele foi pedir o dinheiro, você viu que ele assinou um contrato dizendo que irá devolver tal valor daqui a tanto tempo. Esse contrato é o que o mercado financeiro chama de títulos (nada mais é do que um papel, nesse caso, escrito “vale R$ 2 milhões”). Começaram então, a pegar esse direito de receber tal valor e venderam para outras pessoas.

Funciona assim: o banco vende esse “vale”, esse tal papel que dá direito a receber R$ 2 milhões, por R$ 1,5 milhão. Descontando o que emprestou, o banco ainda embolsa R$ 500 mil e quem comprou também lucra R$ 500 mil quando a dívida for paga. Pode até parecer loucura deixar de receber R$ 500 mil que Joaquim irá pagar, mas na verdade não é.

Primeiro porque existe um risco de o padeiro não pagar o que pegou emprestado e, nesse caso, passando o vale adiante, levaria o calote o novo dono da dívida e não mais a instituição financeira que emprestou o dinheiro. Segundo, que eles fazem isso milhares de vezes ao dia, todos os dias. É lucro alto, rápido e, o melhor, com pouquíssimo risco.

Tudo bem, a ideia é muito boa, mas quem nesse mundo arriscaria tanto dinheiro em uma dívida que pode não ser paga? Existe um número pequeno de gente que tem milhões para arriscar. A solução foi dividir aquele “vale” em “valezinhos”. Os bancos pegam a dívida, R$ 2 milhões, e dividem em, digamos, mil títulos de R$ 2 mil, e vendem esse papel por R$ 1,5 mil. É bem mais fácil encontrar pessoas que arrisquem R$ 1,5 mil, para ter um lucro de R$ 500 lá na frente, do que pessoas dispostas a arriscar milhões de reais. Mas de todo caso, ainda há o risco de Joaquim “dar o cano” e ir curtir a vida com o dinheiro emprestado e não pagar o que deve. Nesse caso, perderia quem comprou os tais “valezinhos”, porque o banco já ganhou sua parte. Sabendo disso, os investidores ficaram com o pé atrás, afinal, correr o risco de perder dinheiro não é lá muito interessante.

Foi aí que os bancos viram a chance de acabar de vez com o medo dessas pessoas que investiam dinheiro nos tais títulos e corriam o risco de não receber. As instituições financeiras começaram a usar as casas, a do padeiro inclusive, como garantia de que receberiam o dinheiro de volta. Muito simples: Seu Joaquim pode sumir do mapa e não pagar nada, pode até ir para Antártida olhar os pinguins, não importa, sua casa estará no mesmo lugar de sempre e será vendida para cobrir o débito.

Por mais genioso que pareça, essa ideia não é novidade. No mercado ela é conhecida desde 1987 por Collateralized Debt Obligation (CDO), em português, algo como “nota promissória com uma garantia por trás”, sendo as casas, as principais garantias. Mas foi apenas no ano 2000 que a ideia se popularizou. Em parte, a rápida fama se deu porque no fim da década de 1990, a bolha da internet fez o mercado perder mais de U$ 5 trilhões e criou um medo de investir no que não tinha garantias sólidas.¹

Alexandre Versignassi, autor do livro Crash – Uma breve história da economia, explica em seu livro que outra razão fundamental foi o medo dos investidores no modelo de aplicações mais comum da época, os Títulos de Dívida Corporativa, o que no Brasil é conhecido como debênture. Basicamente os bancos emprestam às empresas, por exemplo, R$ 10 mil, para receber R$ 11 mil em uma data combinada. A única forma da empresa não pagar é se falir. O problema é que nos anos seguintes à bolha da internet, muitas empresas faliram, os bancos perderam e ficaram com medo de emprestar para companhias.

Assim, emprestar dinheiro tendo uma garantia (as casas) que não declara falência, tampouco foge para não pagar, é melhor que emprestar dinheiro para pai e mãe, é saber que vai receber de volta. Se isso já não bastasse para fazer o negócio decolar, investidores do mundo todo gostaram do negócio e começaram a comprar títulos no mercado americano “a toque de caixa”, confiando nos lucros. Com muito dinheiro em caixa e gente querendo investir, os bancos apostaram sem medo de levar calote. Abriram o mercado de crédito, os tais CDOs, e emprestaram dinheiro “a rodo”, até para quem jamais conseguiria financiar uma casa.

O negócio pegou, e rápido! Só que, se mais pessoas podem pegar dinheiro emprestado para comprar casa, logo vai ser preciso construir mais casas e o volume de empréstimos era tão grande, que não tinha casa para quem queria. Nos EUA e em outros países ricos que usavam o mesmo mecanismo de financiamento, chegou-se ao ponto de 83% das pessoas serem donas do próprio teto onde viviam. Era algo revolucionário na história do mundo e que os governos usavam como forma de auto promoção. Em uma reunião anual em Davos, na Suíça, o então presidente da Espanha, José María Aznar, se gabava por seu país estar construindo mais casas que Alemanha e França juntas.

E se existe muita gente querendo comprar a mesma coisa, naturalmente o preço sobe. É a lei de mercado, todos aproveitam para vender mais caro e abocanhar um lucro maior. É a mesma lógica que o preço do peru. No Natal ele está mais caro que carne de primeira, afinal, todos querem colocá-lo na mesa. Basta passar a virada de ano e ninguém quer comprar a ave. E o que acontece? O preço despenca e fica mais barato comprar peru do que frango congelado anunciado pela ex-apresentadora do jornal.

Entre os anos 1996 e 2006, nos Estados Unidos, os imóveis tiveram uma valorização anual de 17%. Nessa década, o valor de todas as casas dos EUA somadas pulou de US$ 10 trilhões para US$ 21,8 trilhões. É como se cada família americana, dona de algum imóvel, tivesse enriquecido US$ 200 mil.¹ As pessoas começaram a usar suas casas como garantia de empréstimos a juros de cheque especial.

Por exemplo, você ia ao banco, refinanciava seu próprio imóvel, que valia, digamos, US$ 200 mil. Saia de lá carregando o valor exato da casa e um carnê para pagar ao banco US$ 400 mil em longas parcelas. Ninguém em sã consciência faria isso, a não ser que fosse caso de vida ou morte. E lá não era. As famílias passaram a usar os próprios imóveis como “caixa eletrônico” para ir às compras. Sacavam o dinheiro que valia a casa, botavam o carnê de pagamento no bolso e iam torrar o dinheiro no shopping, trocavam de carro, viajavam, reformava a casa e movimentavam a economia.

O povo pensava que estava fazendo um super negócio. Era algo tão comum, que o próprio Homer Simpson fez isso. No 12º episódio da 20º temporada, da série “Os Simpsons”, ele se gaba para Marge, sua esposa, por ter “enrolado” o banco e convencido que lhe emprestassem uma bolada para dar uma festa no jardim e, para isso, só precisou assinar um papel dando a casa como garantia.

No fundo, a lógica de Homer era a mesma das pessoas. As casas se valorizavam mais que água no deserto. Elas sabiam que antes mesmo de terminar as prestações, o imóvel valeria até o dobro. Na pior das hipóteses, a casa serviria como garantia.

Numa estratégia para atrair mais investidores, durante a farra das compras de imóveis, os bancos passaram a classificar os devedores, como forma de dar credibilidade aos títulos. Os devedores de classe média alta eram chamados de “prime”, os outros de “subprime”, apenas uma forma de dizer que os devedores pobres eram “sub-ricos”. Teoricamente, era também, uma forma de proteger quem comprava os títulos, que poderia escolher os prime, cuja dívida pertencia a pessoas com um maior poder aquisitivo, logo seria mais seguro receber o valor da dívida.

Foi exatamente esse o problema. Lembra por que as tulipas deram errado? Porque uma hora chegou ao fim o número de pessoas com dinheiro para comprar a flor. Os bancos sabiam disso, e também sabiam que o número de clientes prime era finita e uma hora acabaria. Sem títulos desses clientes, os investidores iriam começar a se afastar. A solução foi maquiar o processo.

 Primeiro os bancos diminuíram o valor de entrada dos imóveis. No começo, era preciso dar em torno de 20% do valor do imóvel como entrada, igual ao Brasil. Com o tempo, esse valor passou para 9% e, logo, um terço dos compradores não precisavam dar nenhum centavo de entrada, ou seja, financiavam 100% do imóvel. É um mecanismo muito arriscado, já que compromete uma grande parcela da renda do comprador.

Começaram também a oferecer empréstimos para quem não tinha comprovação nenhuma de renda, pessoas que até então, nunca imaginaram poder comprar um imóvel. O próprio presidente americano Jorge W. Bush afirmou orgulhoso em rede nacional “Você não precisa ter uma casa miserável. O comprador de imóvel de baixa renda pode ter uma casa tão boa quanto qualquer outro”.  Mas lembre-se: uma casa é normalmente o bem mais cobiçado e batalhado de uma família, porque é caro e custoso. Se não fosse assim, não seria o prêmio máximo de um título de capitalização.

Outra saída foi oferecer financiamentos a juros zero, nas primeiras prestações, e depois o banco “metia a faca” nos clientes. Não é à toa, que ainda no século XVIII, o pai da economia moderna, Adam Smith já dizia “não é da benevolência do açougueiro que sai o meu jantar”. Assim, a grande sacada dos bancos que alavancou os ganhos foi “dar um jeitinho” nos títulos. Quem investia na compra daqueles “vales” lá do início, buscava os papéis dos consumidores prime, porque eram os que ofereciam mais segurança no pagamento. O banco aproveitou a confiança dos investidores, e começou a classificar meio mundo de gente, inclusive o Homer Simpson como prime.

Claro que eles não fizeram isso na cara de pau, criaram outra divisão no nome dos títulos, os prime mezanino. Apesar do nome elegante, era só uma forma de enganar os clientes. O próprio CEO do grupo Citibank, Chuck Prince, que na época também era conselheiro do governo americano defendeu a atitude dos bancos dizendo “temos que dançar até a música parar”. A questão era que a música já tinha parado há muito tempo e os bancos insistiam em continuar o show.

Entre os anos 2000 e 2007, o número de títulos que receberam a classificação AAA (a mais alta das agências de risco) aumentou exponencialmente. Isso porque quanto mais títulos as agências rotulassem com nota máxima, mais elas recebiam. Uma delas, a Moody’s, quadruplicou os ganhos nesse mesmo período. Assim, as próprias agências passaram a premiar com grandes bônus aqueles analistas que mais avaliações positivas fizessem. Eles por sua vez, queriam lucrar como todo mundo na dança e rotularam todos como prime.

Por mais articulado que fosse o esquema dos bancos, uma hora ele daria errado. Era uma bomba relógio que a qualquer minuto poderia explodir, enquanto isso, todos continuavam comprando e vendendo os títulos e valorizando as casas a taxas assombrosas, da mesma forma que as tulipas na Holanda. Em 2004, o departamento de fraudes financeiras do FBI alertou o governo americano para uma epidemia de fraudes nas hipotecas. Dois anos depois, o então diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, anunciou publicamente “a crise que está à nossa frente é enorme”. Nenhum departamento do governo quis se manifestar.

Em maio de 2008, o 5º maior banco americano, Bear Stearns anunciou que estava sem dinheiro e devendo mais de US$ 100 bilhões. Na tentativa de não quebrar, a solução foi vender grande parte de suas ações por 2 dólares, cada. Meses antes cada ação chegou a ser cotada por US$ 170. Em 7 de setembro de 2008, as gigantes do mercado de hipotecas Fannie Mae e a Freddie Mac, sofreram intervenções do governo. Juntas, eram responsáveis por US$ 12 trilhões em hipotecas, o que representava metade do mercado americano.

Isso foi apenas o começo. Dois dias depois, o banco Lehman Brothers anunciou perdas de mais de 3 bilhões de dólares. No dia 15 do mesmo mês, anunciou que estava falido e com uma dívida de US$ 613 bilhões. O pânico foi geral, multidões correram para os bancos e caixas eletrônicos na tentativa de sacar o que pudessem, porque os próximos dias eram incertos. Naquele dia, os americanos sacaram mais de 30 bilhões de dólares dos caixas e agências do Lehman, 60% de tudo que eles tinham em caixa. O governo dos EUA garantiu que o dinheiro do contribuinte não seria mais utilizado para salvar instituições financeiras.

“The party is over!” (a festa acabou), disse a Presidente da Câmara Nancy Pelosi, em seu pronunciamento no dia 28 de setembro, às vésperas da votação que garantiu uma ajuda de US$ 700 bi para do governo americano para evitar um quebra-quebra geral.. Do dia para noite os títulos não valiam mais nada. Ninguém queria comprá-los e quem injetou dinheiro havia perdido, da mesma forma que na Holanda do século XVII.

Christine Lagarde, atual Diretora do FMI, na época Ministra das Finanças francesa, contou em depoimento para o documentário Inside Job que, para ela, a falência do Lehman foi algo chocante. “Vimos o Tsunami chegar e ficamos escolhendo o melhor traje de banho para usarmos”, comentou. Eles estavam vendo apenas uma “marolinha”.

Apenas a quebra do Lehman deixou sem emprego mais de 10 mil funcionários. Segundo estimativas do Banco Mundial, mais de 30 milhões de pessoas perderam seus empregos por conta da crise. As perdas financeiras somaram US$ 2 trilhões, era como ter perdido o PIB do Brasil do dia para noite. Você deve estar se perguntando: dois trilhões é algo absurdo, mas isso é suficiente para abalar o mundo dessa forma?

A resposta é: depende! O PIB da Terra era de aproximadamente US$ 60 trilhões, em 2008, logo, perder US$ 2 trilhões não deveria fazer esse estrago, até porque  no final da década de 1990, a bolha da internet deixou um rombo de 5 trilhões de dólares, muito mais de que a bolha de 2008, e não teve o mesmo impacto. O pulo do gato dessa crise atual foi que os grandes bancos, como Lehman Brothers, JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup e diversos outros, começaram a comprar uma enorme quantidade de títulos (CDOs). Os únicos interesses dos bancos eram os subprime, já que por ter um maior risco de calote, vinham com taxas de juros mais altas e rendiam mais dinheiro aos donos dos títulos, no caso, os bancos. Quanto menos dinheiro você tiver, mais juros terá de pagar na hora de financiar algo, já que o risco que o banco assume emprestando dinheiro é maior.

Vários bancos, inclusive o Lehman, pegaram fortunas emprestadas de outros bancos para investir em títulos. Isso se chama alavancagem. É quando você pega dinheiro emprestado para gerar lucro para você próprio. Depois de falido, descobriu-se que de cada US$ 1 bilhão em caixa que o Lehman Brothers tinha, ele fazia empréstimos de US$ 30 bilhões para comprar títulos podres. É como se uma pessoa que ganha R$ 5 mil tomasse empréstimos anuais de R$ 2 milhões, é uma conta que não fecha.  Quando abriram os cofres do Lehman encontramos bilhões em CDOs que não valiam mais nada.¹

Para você ter uma ideia melhor do que eles fizeram, imagine que você venda tudo que você tem, tudo mesmo, da casa ao carro, passando pelos móveis, pertences, até o cachorro. Depois você vai ao banco e pede 10 vezes mais do que você já tem em empréstimos, feito isso, pára na primeira casa loteria e aposta tudo na loteria. Por maiores que sejam suas chances, você pode perder. Os bancos sabiam disso, mas arriscaram, e perderam. Em todo o planeta, tudo o que alguns bancos tinham e mais o que pediram emprestado foi usado para comprar títulos que agora não valiam mais nada. Qual a solução, deixar todos eles falirem? Pode até ser, mas imagine que daqui a um tempo você vá comprar um carro ou um imóvel, ou até mesmo precise de um cartão de crédito, quem vai lhe emprestar o dinheiro, já que os bancos não existem mais? Sem crédito, o mundo pára e por isso o pânico foi geral.

O débito dos Estados Unidos que em 2008 era de US$ 500 bilhões, ultrapassou a marca história de US$ 14,2 trilhões que iriam somar-se a mais US$ 7,2 trilhões em dívidas a serem pagas nas próximas décadas.¹ A recessão atingiu em cheio o país. Fábricas fecharam, multidões perderam seus empregos e o sentimento de não saber o que viria depois foi geral. Foi nesse momento que o resto do mundo viu o Tsunami que Christine Lagarde comentava, mas era tarde demais para correr. O que aconteceu nos meses e anos seguintes, você verá nos próximos textos.

Embarque conosco para o outro lado do Atlântico e entenda como os EUA foram apenas a ponta do iceberg, clicando aqui.

Veja o que o professor e assessor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), tem a dizer sobre a crise:

 

¹Baseado na obra Crash – uma breve história da economia

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