O outro lado da moeda

Apesar de Diego viver uma situação financeira confortável, ele está em contato direto com a crise. (Foto: Geração Bolha)

“Comecei a trabalhar em 2008, justamente no primeiro ano da crise na Europa, quando todos só falavam disso. E os lugares em que trabalhei, um fechava, outro cortava pessoal, então eu pulava de empresa em empresa e isso foi um pouco deprimente, mas segui e hoje estou empregado”, conta o espanhol Diego Moreno Perez, 27 anos, analista de sistemas.

A atual situação de Diego é diferente da realidade vivida pela maioria dos jovens espanhóis, mas não o impede de estar em contato direto com os efeitos da crise: “Meu irmão é funcionário público (função que na Espanha é tida como um dos melhores trabalhos possíveis, apesar dos severos cortes gerados pela recessão) e acredito que seu emprego está seguro. Já meu pai, tem 57 anos e há cinco não consegue um trabalho, agora mesmo é que não vão empregá-lo pelo fator idade”, relata. Assim como o pai de Diego outros milhões de espanhóis fazem fila diariamente nas agências de trabalho, em busca de qualquer trabalho que lhes gere, pelo menos, alguma renda.

É uma realidade difícil de aceitar para os cidadãos de um país, que poucos anos antes do “estouro da bolha” era símbolo do forte crescimento, principalmente, no setor imobiliário europeu. Segundo o Banco de España entre os anos 1999 e 2006 planejava-se construir mais de meio milhão de moradias, anualmente, apenas na Espanha. Em uma célebre declaração sobre o avanço na Terra das Touradas, o então presidente, José María Aznar disse que em seu governo se construiria mais imóveis que na França e Alemanha juntas.

E realmente construíram. Apenas nos anos do seu governo, que durou dois mandatos de 1996 a 2004, foram levantadas 3,5 milhões de novas casas. Haja cimento. Mas esses números são irracionais para um país de 49 milhões de habitantes, e como não haveria tanta gente assim com dinheiro para ir às compras, uma hora “a casa caiu”, e com ela foram juntos os bancos que financiavam essa compulsão imobiliária.

Mesmo vivendo em casa com os dois abismos do mercado espanhol, seu irmão e seu pai, Diego se considera um cara sortudo. Foi logo depois de concluir seu curso na universidade, que o governo começou a realizar cortes na educação para economizar gastos. Ele tem amigos que não tiveram a mesma sorte e tiveram suas bolsas de estudos suspensas. “Se tivesse demorado um pouco mais, talvez não tivesse concluído os estudos, ou teria muita dificuldade para pagá-los”, conta.

Com um salário em que ele classifica como “razoavelmente bom”, Diego consegue sustentar uma vida confortável, em que todas as suas necessidades básicas são atendidas, mas economizar virou um sonho distante: “Vivo bem, mas no momento não é possível economizar para comprar uma casa, por exemplo. Algo bem diferente do período anterior à crise quando conseguíamos crédito e tínhamos a sensação de que podíamos pagar a hipoteca. Hoje já não é mais assim. Vi meus pais e meus tios perderem todas as suas economias da noite para o dia”, lamenta.

Assim como muitos outros jovens, quando questionado sobre o futuro, Diego se diz com uma única certeza. Caso o mercado de trabalho piore e perca o emprego, tentará a vida em outro país: “Farei o que teria feito se não tivesse conseguido um emprego, buscaria um trabalho fora daqui, em Londres, por exemplo”.

Ideia compartilhada por outros milhões de europeus que veem na “Terra da Rainha” uma oportunidade de vida. Com a Libra, moeda mais estabilizada que o Euro, e rodeada de políticas protecionistas, a Inglaterra, que sempre foi vista como a “prima rica e metida” em meio às nações do bloco, hoje é a queridinha dos investidores, recebendo estímulos principalmente de bilionários asiáticos e russos que querem investir parte de suas fortunas em um dos poucos “portos seguros”. Mas esse abrigo em meio à tempestade, não foi visto apenas pelos super-ricos e por isso recebeu uma enxurrada de imigrantes dos países vizinhos em busca de qualquer trabalho, que em seus países de origem são impossíveis de serem encontrados.

Mas quem, em algum momento, assistiu Titanic, deve lembrar que depois de caírem ao mar, Rose e Jack não dividiram a porta que boiava no oceano congelante. As razões para a Inglaterra boiar sozinha em meio ao caos e o que aconteceu com os milhões de imigrantes que queriam dividir aquele pedaço de madeira com ela, está no nosso próximo texto, quando chegamos à Londres e encontramos a jovem Meesha Doshi.

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