“A crise sempre afeta a todos”


Francisco participa de vários movimentos sociais e está ativo nas mobilizações em geral. (Foto: Geração Bolha)

Me chamo Francisco José Vincente Santos, tenho 27 anos, sou espanhol e atualmente vivo na cidade de Salamanca. Estudei História, e agora estou fazendo mestrado na Universidade de Salamanca, sobre o período Paleolítico. Alterno meus estudos com um trabalho esporádico em um bar, para financiar minhas atividades acadêmicas. Quando terminar meus estudos penso em ir para a América, ao México para ser exato, porque conheço pessoas que estão trabalhando como professores universitários. Dessa forma, fica mais fácil das portas se abrirem para eu conseguir um emprego. E como as possibilidades aqui são mínimas – para não dizer nulas -, é para lá que eu vou.

A crise sempre afeta a todos. Eu tenho uma irmã três anos mais nova que não estudou e preferiu apenas trabalhar desde muito jovem. Hoje ela é a mais afetada da minha família porque há pouco tempo foi demitida e segue desempregada. Meu pai só não foi demitido porque trabalha em um rancho. Sei que não estou tão mal com a crise porque vivo com meus pais e tenho os mesmo gastos de antes. Se eu morasse em outra cidade, com certeza teria que retornar para casa porque não teria condição de seguir estudando. Para mim, acima de tudo, fui afetado na minha educação. O número de bolsas de estudo foi reduzido e o ingresso para a Universidade diminuiu drasticamente.

Eu acredito que a culpa em relação à crise é uma questão coletiva. É uma questão mundial e não somente nesta zona. Para mim há alguns responsáveis, claro. E neste caso, foram os bancos que brincaram com uma série de elementos que sabiam perfeitamente que eram de risco. É o sonho de qualquer pessoa ter a sua casa própria e os bancos fizeram desse desejo uma enorme fonte de renda, permitindo a qualquer um financiar e refinanciar imóveis que não podiam pagar. Estavam brincando com a vida de muita gente.

A corrupção também foi outro responsável, já que é vista como algo cotidiano e até natural pela sociedade. E os cortes feitos pelo governo não são nada justos. Está se cortando pelas zonas mais debilitadas e isso provoca fraturas sociais cada vez maiores, causando uma segregação da sociedade ainda maior. Vejo que o Brasil caminha para o mesmo fim, vocês são muito passivos, assim como nós espanhóis, apesar de que me surpreendeu bastante as manifestações (se referindo as diversas manifestações de 2013 que tomaram as ruas e foram amplamente divulgadas pela imprensa internacional) e a luta de vocês por um país diferente.

Participo de vários movimentos sociais, principalmente em Salamanca, algumas vezes em Madri e Barcelona. Faço parte de grupos como o 15M e grupos de estudantes que lutam contra a queda no financiamento de pesquisas, por exemplo. Estou ativo nas mobilizações em geral, tanto nas manifestações como nas associações.

Defendemos vários pontos de vista, mas para nós, dois deles são sagrados: a saúde e a educação. São dois pilares básicos para se construir uma vida. Em relação a saúde, não se pode brincar com a vida das pessoas. Por exemplo, para quem tem câncer ou uma doença rara, necessitasse de muito dinheiro o qual uma família não pode custear ou hipotecar a casa por uma vida inteira. Na questão educação, é necessário, básico e que qualquer pessoa deveria ter o direito de tê-la. Se você quer trabalhar em vez de estudar, isso é sua decisão, mas que o elemento econômico não seja o fator principal pela falta de educação.

Acredito que a mudança na Espanha não acontecerá rapidamente e tão pouco a médio prazo. Provavelmente só chegará depois de muito tempo e muito esforço. Na verdade, do meu futuro espero poder terminar minha tese e ir embora do meu país. Espero voltar algum dia, para trabalhar na universidade como professor e como pesquisador acima de tudo, já que eu gosto de investigar. E também sociabilizar minha investigação e todos os conhecimentos que eu puder transmitir.

Se pudesse, não sairia de Salamanca ou se saísse, seria apenas para conhecer outros lugares, outros sistemas, pessoas e culturas. Na verdade, eu gosto de viver na Espanha, especialmente em Salamanca. Não queria sair como se fosse algo obrigatório, mas se não há outras possibilidades, infelizmente tenho que escolher essa alternativa.

Veja o vídeo de um protesto no dia do trabalhador, em Salamanca, e o que a população pensa a respeito da política e do futuro:

Enquanto uns e outros passam por “apertos”, há jovens pelo velho continente que estão economicamente confortáveis e mesmo com a crise, suas vidas prosperam. Conheça o espanhol Diego Moreno Perez.

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