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Entre mortos e feridos

Naquele dia o Aeroporto dos Guararapes estava repleto de políticos, jornalistas e militares que esperavam o Marechal Costa e Silva que, de última hora, desistiu de vir de João Pessoa para o Recife de avião, optando por chegar a capital pernambucana por terra. Trata-se do primeiro grande atentado terrorista ocorrido no país após o Golpe Militar de 1º de abril de 1964.

A Bomba dos Guararapes, que explodiu no saguão do aeroporto, matou o jornalista Edson Régis, o Almirante Nelson Gomes Fernandes, mutilou Sebastião Thomaz de Aquino, o “Paraíba e feriu outras 14 pessoas.

Na matéria que ganhou o prêmio Esso de Jornalismo constava que Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda, ambos considerados culpados todos esses anos, eram inocentes. A culpa ficou por conta da esquerda armada Ação Popular, com o Padre Alípio de Freitas como mandante de implantar a bomba.

Com a Lei da Anistia, por ter o perdão instituído, impedindo que envolvidos em crimes praticados durante a Ditadura fossem penalizados e com a Comissão da Verdade já em pleno funcionamento, as vítimas imaginaram que alguém assumiria a culpa, iriam depor na Comissão. Porém, mesmo com a Lei em vigor e a matéria do JC já publicada, nada mudou.

Mais importante que alguma indenização é apurar os fatos, é contar um história por completo, é pegar esses vários lados, apanhar os fragmentos e montar esse quebra-cabeça que está mais que solucionado, mas por empecilhos ou ruídos no processo não se consegue chegar numa versão oficial de todo o Atentado. As instituições governamentais precisam lembrar que o dever é com a verdade, com as vítimas inocentes que sofreram com um período negro do Brasil. O não esclarecimento, afirmar os fatos já expostos, é compactuar com a falta de humanidade e respeito ao povo brasileiro no passado.

Edson Régis

Flávio Régis é filho do jornalista e poeta Edson Regis, morto no Atentado. Sua entrevista para o Estilhaços da Verdade esteve repleta por uma sensação de justiça.

“A família repudia o ato covarde de não assumirem a culpa, a responsabilidade, mas não nos move o ódio nem o desejo de vingança, esse rancor não vai trazer meu pai de volta. Dói até hoje, marcou profundamente toda uma geração. Meus filhos, meus netos perguntam o que aconteceu – ‘Soube na escola que voinho morreu num atentado’ – Sim, mas é uma história mal contada”.

Atualmente morando no Recife e trabalhando como advogado, Flávio, o mais velho de cinco irmãos, tinha apenas 14 anos quando soube que seu pai, jornalista, poeta e Secretário de Estado, havia morrido aos 43 anos numa emboscada, uma explosão para matar o candidato a Presidente da Republica. Era o dia 25 de julho de 1966.

POETA Edson Régis (direita) ao lado do amigo Manuel Bandeira (esquerda) (Arquivo pessoal / Reprodução: Estilhaços da Verdade)

O filho de Edson Régis compara a comoção popular com a morte do ex-governador Eduardo Campos por sua violência. “Muitas pessoas foram ao velório, recebemos mensagens de apoio”, disse. Flávio, que se formou em direito inspirado nessa luta pela verdade, conta que a partir daquele momento a vida de toda família mudou, ficou destroçada, convivendo com esse trauma até hoje, pois o pai, que era uma figura muito presente na casa, foi tirado deles de uma forma violenta, de repente.

Durante 30 anos, a família Régis conviveu com uma longa ansiedade, com o desejo de saber a verdade. Era uma incerteza dos fatos, um jogo de empurra entre dois lados. A direita atribuía o Atentado à esquerda e esta dizia ser um ato da própria Ditadura do Regime Militar. “O fato é que nunca se chegava a uma evidência”, comenta Flávio com um ar de fadiga. O alívio veio no dia 23 de julho de 1995, quando a reportagem especial do Jornal do Commercio trazia, após uma longa e exaustiva investigação, a solução de um crime até então insolúvel. A família sentiu que o Atentado não estava esquecido, que a verdade era possível. “Naquele momento vimos uma luz no fim do túnel”, comenta o filho mais velho.

A família de Edson Régis considera os envolvidos como covardes, pois, segundo eles, deixaram que companheiros de militância e pessoas inocentes pagassem, por anos a fio, por um crime que não haviam cometido. “Os integrantes da Ação Popular sobreviveram à custa de companheiros, das vítimas e nunca vieram a público, sequer para resgatar a verdade”, completa com indignação.

A partir da seguinte frase: “Não nasce um pé de bomba, alguém colocou ela lá”, Flávio tece uma série de comentários negativos sobre a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara. De integrantes que não se sentem confortáveis em trabalhar na Comissão a uma má apuração. O filho acusa o órgão de não contar a história como ela é. De acordo com Flávio, é parcial, só abrange os crimes praticados pelo Regime Militar. “E os crimes praticados pela esquerda terrorista?”, completa numa retórica.Segundo Flávio, a deputada Luiza Erundina, presidenta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, deveria reconsiderar a forma de trabalho da Comissão da Verdade, já que a primeira comissão citada foi criada, justamente, para fiscalizar o trabalho da segunda. “O trabalho da comissão deixa a desejar”, afirma o filho de Edson.

A indignação e a magoa só ferem mais a família quando percebem que, além de uma verdade contada pela metade, o Governo não respeita o sofrimento das vítimas. “Dinheiro não vai trazer meu pai de volta, não o trará a vida, mas procuramos um advogado para nos habilitar a uma indenização, já que o Governo não toma iniciativa”, comenta.

O pedido da família Régis está parado desde 2012 na Comissão Nacional da Anistia, vinculada ao Ministério da Justiça.

Assista ao depoimento de Flávio Régis

Almirante Nelson Fernandes

Apesar de ter apenas seis anos em 1966, Cláudio Lino da Costa , neto do Almirante e atual responsável pela reparação do avô, lembra bem do trauma deixado pelo Atentado.

Mesmo com 54 anos, o neto resgata o que sua família passou sob um olhar de criança assustada. “Foi um baque muito grande. Minha mãe ficou apavorada, tivemos que ir morar num sítio no interior do Rio de Janeiro. Ficamos oito meses lá, longe de escola, de tudo, completamente isolados. Foi uma época bem tumultuada. Ele era muito presente nas nossas vidas e também representava muito para a minha família financeiramente. Com a morte dele tudo desandou”, recorda.

O medo era porque, na época, a de falta informação fazia com que ninguém soubesse ao certo o que tinha acontecido. Nelson  era Almirante-reformado da Marinha, mas não tinha mais nenhuma ligação com as forças armadas. No dia do Atentado, estava no aeroporto a serviço da CHESF, empresa onde trabalhava.

Como o pai de Cláudio também era da marinha, a família, já abalada, temia outro atentado. “Não entendíamos bem. Isso tudo mexeu com a cabeça da minha mãe, ficamos com medo, então fomos morar longe do meu pai, por proteção mesmo”, comenta emocionado.

 Escute o áudio da conversa com Cláudio Lino da Costa

“Paraíba”

Marize Thomaz é a filha mais nova de Sebastião Thomaz de Aquino, o “Paraíba”. O guarda-civil que encontrou a bomba.

“Da perna dele saia de tudo: lã de aço, prego, vidro, pólvora”, conta Marize Thomaz. O guarda-civil percebeu uma mala no saguão do Aeroporto dos Guararapes. Achando que estava abandonada ou esquecida, resolveu entregar no balcão do Departamento de Aviação Civil (DAC). A bomba dentro da maleta explodiu na sua mão, deformando grande parte do lado direito do seu corpo. O depoimento da caçula, na época com quatro anos, conseguiu ser mais comovente ainda, pois, ao contrário do sentimento de revolta e de busca por esclarecimentos de Flávio Régis, Marize carrega a dor de vivenciar o Atentado todos os dias. “Paraíba”, atualmente com 83 anos, luta contra o Alzheimer já bem avançado e com o trauma do horror do passado. “Ele grita achando que vão matá-lo. O homem de barba, o homem de barba”, completa.

Também jogador de futebol, o “Canhão do Arruda”, como era chamado carinhosamente pelos torcedores do Santa Cruz Futebol Clube – tinha esse apelido devido ao forte chute que possuía – viu seu sonho e talento sumir junto com o clarão da explosão.

Marize, surpreendentemente, soube da novidade no caso através do Estilhaços da Verdade. A família (sua mãe e os dois irmãos) desconhecia a reportagem do JC e a descoberta da Comissão Estadual da Verdade. Acreditavam, até então, que Ricardo Zarattini era o responsável pelo ato que quase matou seu pai. Conta ainda que nunca duvidaram da direita: “Não acredito que seja o Exército, sempre deram apoio ao meu pai, sempre o chamavam para eventos do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. Vinham buscar ele em casa. Tinham que ser muito frios para fazer isso tudo sendo os responsáveis”, finaliza.

“Paraíba” ficou um ano internado na UTI do Hospital Pronto Socorro, no bairro da Boa Vista, passando por nove cirurgias. A última era a esperança final. Precisavam conter a gangrena que já se espalhava pelo corpo. “A perna dele tinha que ser lavada com uma escova de lavar roupa que saia o couro, na tentativa de estacionar a gangrena”, lembra. A amputação da perna direita o salvou. A filha ainda fala que ele nunca mais confiou em ninguém, pensa que todos são terroristas tramando sua morte.

“Eu tenho muito orgulho do meu pai. Ele, mesmo debilitado, subia no ônibus e ia trabalhar todo dia”, conta Marize, bastante emocionada. Sem uma perna, epilético, com marcas e cicatrizes, “Paraíba” conseguiu um tratamento nos Estados Unidos e uma perna mecânica, por intermédio do Governo brasileiro que também o deu um emprego na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), onde trabalhou até sua aposentadoria. A caçula agradece toda a ajuda, mas confessa que esperava outro comportamento do Governo.

Nunca viram dinheiro algum, nem sabiam que tinham esse direito. Expondo o coração humilde, nem menciona dinheiro, só pede fraldas geriátricas. Leia aqui a reação de Marize Thomaz ao ser informada sobre a novidade no caso e o direito de reparação

 Assista ao depoimento de Marize Thomaz

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