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A história arquivada

O ser humano, nas suas inúmeras necessidades, determina o que é importante e seu valor na sociedade. Assim acontece com o papel, que nada mais é que o resultado de ligações de hidrogênio, um material constituído por elementos fibrosos de origem vegetal, feito a partir de uma espécie de pasta desses elementos e secada sob a forma de folhas. É colocada tanta autoridade em um mero objeto ao ponto de terminar toda uma vida. Assim aconteceu, um documento, do período da Ditadura, foi responsável pela desgraça de famílias ligadas, de formas diversas, ao Atentado dos Guararapes.

Lilian Maria Gondin, economista, e Rafael Leite, historiador com experiência há mais de dez anos no assunto, foram os responsáveis, como ele mesmo conta, por encontrar um documento numa caça ao tesouro acidental. Os dois fazem parte de um grupo de nove membros que constituem a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara. Divididos entre quatro subcomissões, Lilian e Rafael integram o setor de pesquisa, onde o principal objetivo é tentar encontrar o máximo de documentos relacionados às mortes e desaparecimentos de pernambucanos ou de pessoas de outros estados que foram mortas em Pernambuco durante o período da Ditadura Militar.

A partir da Lei de Acesso, de 18 de novembro de 2011, o Arquivo Nacional fez uma portaria, através do Ministério da Justiça, determinando que todos os órgãos e autarquias sociais passassem suas documentações para seu acervo, num prazo de até dez anos. Dentre todos, o Ministério da Defesa e o Superior Tribunal Militar são os poucos que ainda não disponibilizaram. Para adquirir o máximo de informações possíveis, Lilian e Rafael percorreram o Arquivo Público Estadual João Emerenciano, no Recife, o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, o Arquivo Público do Estado de São Paulo e o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul durante semanas e horas a fio para catalogar e montar o banco de dados da Comissão.

Até que, após uma infinidade de arquivos públicos visitados, se chegou ao Arquivo Nacional, em Brasília. “A gente faz a busca pela listagem de nomes que temos de mortos e desaparecidos”, comenta Lilian Maria. E foi assim que, quase que por coincidência, ao pesquisar o nome de Ricardo Zarattini, que não está nesta lista como morto ou desaparecido, mas sim como torturado, foi achado um documento do Ministério da Aeronáutica, datado de 1970, apontando Raimundo de Figueiredo como verdadeiro culpado. Sendo assim, foi desconsiderada a versão que acusa Zarattini e Edinaldo Miranda de terem implantado e explodido a bomba que vitimou duas e feriu 14 pessoas.

Porém, os dois pesquisadores não perceberam o que tinham em mãos até chegar em solo pernambucano, pois precisavam reduzir custos da viagem, como passagem e hospedagem. Não havia condições de lerem documento por documento no arquivo. “Só quando chegamos no Recife, conseguimos ler com calma e selecionamos o que era mais interessante”, comenta Rafael. É um grupo pequeno, quatro pessoas, além de Lilian e Rafael, responsáveis por analisar e catalogar 80 mil documentos. Após serem destinadas ao banco de dados, as documentações são encaminhadas para as relatorias que pertencem, sendo discutido, em reunião ordinária, se ficam para o relatório final ou se são divulgadas logo, dependendo da importância. Nesse caso, foi decretado, por unanimidade, que deveria ser apresentado, com urgência, à sociedade civil, por causa da saúde já precária de Ricardo Zarattini.

Estes documentos são considerados pela Comissão como um grande achado. “O Governo cometeu um crime de violação aos direitos humanos quando acusou Edinaldo e Zarattini durante um longo período já sabendo que não tinham sido eles“, afirma Lilian. Quando perguntados sobre todo o caso da bomba, um esclarecimento total dos fatos, os pesquisadores alegam que esse tema não faz parte das investigações da Comissão e que só descobriram a inocência de Zarattini e Edinaldo porque procuravam nomes de pessoas que foram presas e torturadas.

“Por ser um documento vindo de um órgão estadual, já é uma prova da veracidade dos fatos”, dispara Rafael. No mesmo instante, onde alegam que o documento por si só já é uma fonte, um atestado da verdade, sem espaço para dúvidas, não acreditam que Raimundo de Figueiredo possa ser, realmente, o culpado pelo Atentado. Dizem que do mesmo jeito que os militares acusaram injustamente Ricardo Zarattini e Edinaldo, podem ter feito isso com Raimundo. “Não sabemos a veracidade dele, é um documento da repressão”, deixa escapar Lilian. Deixando dúbia a credibilidade dos documentos encontrados e levantando a ideia de que as investigações não são tão bem apuradas, não pesquisam a fundo o que lhe és apresentado, como se aceitassem qualquer informação sem uma maior checagem.

Mesmo assim, Lilian e Rafael acreditam que a lei que institui a Comissão da Verdade não deve ser mudada e que ela deve continuar somente esclarecendo crimes aos diretos humanos cometidos pelo Governo vigente da época. Para eles, não se deve apurar os dois lados, os crimes feitos pela direita e os pela guerrilha da esquerda armada, e nem contar a história por completo, pois a militância esquerdista ou as que eram contra a Ditadura já responderam por suas ideias e ações pelos inúmeros processos e inquéritos policiais militares. “Agora é a vez do Estado investigar suas próprias ações. E para quem diz que somos da “Comissão da meia Verdade”, eu discordo. Havia meias verdades antes da Comissão existir, quando se dizia que nunca houve tortura, que nunca houve mortes nas delegacias e quarteis militares”, responde Rafael, incomodado.

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