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A verdade publicada

Em 1995, o Jornal do Commercio reproduziu uma reportagem especial sobre o Atentado dos Guararapes, trabalho que ganhou o prêmio Esso daquele ano, a mais importante distinção conferida a profissionais de imprensa no Brasil. Um dos principais focos da publicação, além de revelar detalhes do Atentado, era provar que dois acusados de terem explodido a bomba eram, na verdade, inocentes.

Após o Atentado, durante 29 anos, com investigações que podem ser consideradas “falhas”, da imprensa e do Governo, ficou entendido que os engenheiros Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda eram os responsáveis pela bomba. Para um dos repórteres da publicação de 1995, e atual editor-chefe do caderno de Política do JC, Gilvandro Filho, um jornalista deve ter vontade de informar ao público o que realmente acontece, independente da situação apurada. “Nós devemos ir até o limite para a apuração dos fatos. Na época, a gente tinha pistas de quem poderiam ser os verdadeiros culpados e fomos atrás de fontes que pudessem colaborar com as apurações”, disse.

Para fazer a investigação sobre o caso, foi reunida uma equipe de repórteres do JC para procurar todos os tipos de informações relevantes. Ao todo, participaram da reportagem especial Gilvandro Filho, como coordenador; os repórteres Fernando Menezes, Nádia Ferreira, Duda Guenes e Vladimir Calheiros, além de Samarone Lima, que trabalhou como free-lancer.

Na época do crime, Zarattini e Edinaldo foram acusados de serem autores do Atentado e chegaram a ser presos pelo Regime Militar. Zarattini declarou que ele e Edinaldo foram torturados nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e da Aeronáutica para confessarem um crime que não cometeram. Segundo Gilvandro, a motivação maior para prosseguir com a ideia de fazer o especial era que poderiam ajudar a provar que a injustiça estava prevalecendo. E eles tinham material para isso.

De acordo com Nádia Ferreira, depois do início das apurações, não foi preciso muito tempo para ficar claro que a equipe realmente tinha uma pauta especial com um ótimo material. “No inicio das apurações, quando as informações começaram a chegar, elas já eram muito consolidadas, o que nos permitia ter uma ideia do que tinha acontecido de verdade no Atentado. A gente já sabia que estava com um fato histórico em mãos”, afirmou. Com o passar dos dias, ficava cada vez mais evidente que duas pessoas inocentes tinham sido culpadas por um crime que não cometeram.

Acompanhe a premiada série de reportagens do Jornal do Commercio de 1995

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Entre o início das apurações e a publicação da reportagem, foram aproximadamente dois meses de pesquisas. Gilvandro Filho procurou as primeiras fontes e focou nas entrevistas com os personagens pernambucanos, além de ter feito a entrevista por telefone com o Padre Alípio. O contato do Padre foi disponibilizado por Duda Guenes, que trabalhou como correspondente do JC em Portugal. Samarone Lima teve participação mais ativa com fontes e pesquisas em São Paulo. Vladimir Calheiros atuou na pesquisa histórica para a série de reportagem. Já Fernando Menezes e Nádia Ferreira focaram suas atividades na busca de informações de arquivo, fazendo um resgate histórico.

“É fundamental a imprensa assumir o papel investigativo também. Naquele tempo, muita gente do bem sabia da história verdadeira, mas acharam conveniente não falar nada. Quando fizemos a reportagem, queríamos, acima de tudo, desfazer a injustiça que estava sendo feita”, contou Gilvandro.

Com a grave violação dos direitos humanos praticada pelo Estado que produziu material inverídico, a reportagem do Jornal do Commercio, além do papel de informar, assumiu um papel investigativo, e confirmou a inocência de dois acusados, que só seriam reconhecidos inocentes pelo Estado, em 2013, através da Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara.

Assista ao depoimento de Gilvandro Filho

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