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Culpados, até que se prove o contrário

Mágoa. Este é o sentimento que carregam em comum Ricardo Zarattini e Lucila Bezerra, viúva de Edinaldo Miranda, os dois engenheiros que foram presos, torturados e responsabilizados durante 47 anos pela autoria do Atentado dos Guararapes. É de se esperar, claro, que condenem o Estado brasileiro, no período do Regime Militar, pelas prisões e torturas que sofreram deliberadamente, sem qualquer direito de se defenderem. Mas é a mídia pernambucana, sobretudo ao Diario de Pernambuco, que atribuem a maior parcela de culpa pela injustiça a que foram submetidos ao longo de quase toda a vida.

Na noite de 10 de dezembro de 1968, já passados dois anos do acontecimento, em 25 de julho de 1966, Zarattini e Edinaldo foram presos no apartamento de um amigo em comum, Hamilton Suárez, no bairro de Boa Viagem, no Recife. Até então, as acusações eram de envolvimento com a articulação da resistência camponesa nas áreas canavieiras da Zona da Mata e leitura subversiva.

Foi então que, dois dias depois, na edição de 12 de dezembro, o DP trouxe uma reportagem afirmando que o DOI-Codi tinha convicção do envolvimento dos dois no Atentado. A partir daí teve início a sucessão de acusações que só seriam desmentidas, pela primeira vez, ainda que extraoficialmente, pela reportagem especial do Jornal do Commercio (JC) em julho de 1995.

Um dos mais destacados militantes políticos contra a Ditadura Militar no Brasil, Ricardo Zarattini, hoje com 80 anos, foi um grande líder para os camponeses da Zona da Mata canavieira de Pernambuco naquela época. E foi, segundo ele, por atender aos interesses das oligarquias de usineiros e senhores de engenho e para ratificar o temor ao Comunismo que o DP passou a apontá-lo como “terrorista dos Guararapes”.

foto zarattini

EMOÇÃO Ricardo Zarattini discursa na cerimônia da Comissão Estadual da Verdade, onde foi inocentado (Reprodução: NE10)

É compreensível, portanto, a desconfiança que carrega até hoje sobre a imprensa. Afinal, considera que se não fosse por ela, não estaria sendo entrevistado até hoje como um dos principais personagens da nossa reportagem. Foram diversos contatos por telefone, entre explicações detalhadas sobre o escopo do Estilhaços da Verdade e tentativas de realizar a entrevista. Mesmo consentindo verbalmente com a gravação telefônica, ao final reconsiderou e preferiu conceder as declarações por e-mail.

Escute o áudio da conversa com Ricardo Zarattini

“A principal consequência da campanha desenvolvida pelo DP na Ditadura e especialmente depois, na Democracia, contra mim foi reforçar ainda mais a minha disposição de lutar pela verdade para todos os atingidos pelas mentiras da mídia, execrados publicamente nas alturas do Grande Tribunal onisciente e onipotente na mídia. E isso tem que acabar”, afirma Zarattini ao citar José Paulo Cavalcanti Filho, atualmente membro da Comissão da Verdade, em artigo publicado em 1995 no Correio Braziliense. É com este mesmo teor que comemora a revelação do documento que os inocenta de participação no Atentado pela Comissão Estadual da Verdade. Para ele, este fato novo vai impulsionar a condenação do DP no processo que move contra o periódico, buscando indenização por danos morais, que atualmente tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

No entanto, considera que este documento do Ministério da Aeronáutica, de 1970, que aponta Raimundo Gonçalves Figueiredo, o Raimundinho, como responsável pela bomba, não traz grandes novidades. Corrobora o que a mídia e os órgãos oficiais já sabiam e se junta a outras declarações de grande peso. Os dois principais líderes da Ação Popular (AP), na época, Jair Ferreira de Sá, em entrevista ao Jornal da República em 1979, e Herbert de Souza, o Betinho, em carta endereçada ao próprio Ricardo Zarattini, de 1990, já excluíam a participação deles no Atentado. Betinho, inclusive, explicita que a bomba foi fruto da ação isolada de um membro da AP, isentando a organização de responsabilidade.

Ainda assim, a versão é considerada insatisfatória. O historiador Jacob Gorender, no livro “Combate nas Trevas”, de 1987, aponta para uma versão de que o mentor intelectual teria sido o Padre Alípio de Freitas, o qual, por sua vez, não assume qualquer envolvimento com o caso. É por esta razão que Zarattini afirma que, ainda que tivesse a oportunidade de encontrá-lo, não poderia acusá-lo de nada. “Não diria nada a ele porque até hoje não tenho nenhuma prova, mais precisamente nenhum documento ou depoimento, quer dos arquivos da Ditadura, quer dos dirigentes da AP ainda vivos de que ele participou do Atentado.” Mantém, assim, a postura que ele e Edinaldo adotaram na época, quando já sabiam do envolvimento da AP, mas não se pronunciaram a respeito por achar que cabia a essas pessoas confessarem a autoria.

O fato é que a acusação injusta que o perseguiu ao longo de toda a vida ainda faz parte de suas preocupações. Segundo ele, não é possível superar este fato enquanto o DP não for condenado e, portanto, enquanto não conseguir o reconhecimento público das calúnias de que foi acusado. Mesmo inocentado pela Comissão da Verdade, ainda espera obter o que realmente considera o sentimento de justiça.

A mesma sorte não teve Edinaldo Miranda, falecido em 1997, vítima de câncer, de ver o reconhecimento de inocência oficial do Estado. “Ele tinha um sentimento de que tinha sido um injustiçado e queria uma reparação, não monetária, mas em relação a essa injustiça que ele sofreu. Não foi dada a ele a chance de viver isso”, afirma Lucila Bezerra, viúva, hoje com 72 anos, mesma idade que teria o marido se ainda estivesse vivo.

FOTO EDINALDO

ÚLTIMA FOTO Edinaldo fala sobre o caso com a equipe do Jornal do Commercio de 1995 (Arquivo JC / Reprodução: Estilhaços da Verdade)

Porém, a simples divulgação do documento não trouxe grandes mudanças, na visão de Lucila, uma vez que não alterou em nada o que todos já sabiam ser a verdade. Além disso, foi uma divulgação pouco expressiva, o que deixa a desejar quando se têm em mente as acusações como comparação. “Ele queria que a verdade fosse colocada na mídia de uma forma bastante contundente. Isso ele não viu, como nós não vimos até hoje.” O caso de Edinaldo é ainda mais grave, já que ele, diferente de Zarattini, foi formalmente acusado e, após ser absolvido em um primeiro momento, foi condenado na sequência a cumprir dois anos de prisão pela autoria do Atentado.

O sentimento que Lucila guarda em relação à imprensa e que Edinaldo também tinha é o mesmo que expressou Zarattini, afinal foram trajetórias de vida que caminharam lado a lado em função, justamente, dessas denúncias infundadas. Era, na época, segundo ela, um aparato institucional comprometido com os interesses do Governo, veiculando aquilo que ele permitia que fosse revelado. A mágoa é tamanha que, ainda hoje, não acredita na idoneidade da mídia. A única diferença, agora, é que atende aos interesses do poder econômico, não mais do poder político.

Mas, para ela, a responsabilidade não fica apenas por parte dos jornais. Há outras organizações e as pessoas pertencentes a elas que dividem a culpa pelo sofrimento do marido na vida curta e marcada que teve.“É claro que é um ato de covardia das pessoas que estiveram envolvidas e nunca se pronunciaram. Por isso eu não respeito, não respeito covardes. Hoje eu não espero mais nada, se até hoje essas pessoas não se pronunciaram, agora não faria sentido esperar por isso”, afirmou.

Apesar das marcas deixadas pela acusação que o perseguiu ao longo de toda a vida, Edinaldo era um guerreiro que encontrava alento para viver a vida com alegria. Segundo Lucila, era muito otimista e feliz, buscava sempre viver a vida, se não pôde aproveitar mais foi por causa do fardo que carregava. “Nunca foi uma pessoa amarga, não trazia isso para o ambiente familiar”, lembra com saudosismo da presença do marido que se foi antes de conseguir se ver livre de uma culpa que nunca teve.

Assista ao depoimento de Lucila Bezerra

Resposta

Durante a produção deste projeto, o Estilhaços da Verdade entrou em contato com o Departamento Jurídico do Diario de Pernambuco, que informou que não havia tempo hábil para transmitir o posicionamento do jornal sobre o caso.

 

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