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O Padre Guerreiro

Um padre. Quem poderia imaginar que a figura de um membro da Igreja Cristã fugiria do perfil calmo, pacificador e semeador da palavra de Deus? Nascido no Norte de Portugal, Vinhais, em 1929, o “padre guerreiro”, como gosta de ser chamado, Alípio de Freitas, trilhou um caminho bem diferente dos demais sacerdotes com suas cerimonias religiosas. Com apenas 13 anos, em Trás-os-Montes, sob o regime do Estado Novo de Salazar, Alípio teve contato com o Comunismo, por meio de um amigo de seu pai que o contava histórias e o apresentou ao Avante!, jornal criado pelo Partido Comunista Português. Estava plantado o anseio revolucionário.

Ordenado padre em 1950, o filho de imigrantes viu na igreja a possibilidade de aventura, de lutar pelos seus ideais. Em São Luís, Maranhão, Alípio construiu uma vida nos moldes requisitados pelo sacerdócio, indo trabalhar na Ação Católica Popular Intelectual. Impressionado com a fome desoladora, abdicou das regalias, vivendo em cabanas de palha, assim como o povo pobre, ajudou a levantar, com as próprias mãos, uma escola, um posto médico e uma paróquia na cidade. Ainda no estado nordestino, o padre apoiou os operários desempregados e os trabalhadores rurais na luta pela Reforma Agrária.

Com a frase “Tenho o poder da organização”, Alípio, além de ajudar a fundar as Ligas Camponesas, é tido, também, por ser o mentor do crime organizado nas prisões, isso devido ao fato de ensinar os detidos e promover discussões políticas enquanto esteve preso em Ilha Grande, Rio de Janeiro. Condenado a 150 anos de prisão, estando enclausurado há 15 anos, foi sequestrado, detido e torturado diversas vezes. Uma delas no Forte das Cinco Pontas, no Recife. Choques, pauladas, socos e pontapés não se comparavam ao abuso moral que sofreu.

Com o decretar do Golpe Militar, em 1964, Alípio de Freitas resolve pedir exílio na embaixada mexicana. Em seguida, parte para Cuba, onde passa por treinamento armado. Em 1966, o padre retorna para o Brasil, onde, já integrante da Ação Popular, é suspeito de arquitetar, treinar e orientar integrantes da esquerda armada, Zenóbio Vasconcelos, Raimundo de Figueiredo, Felícia Frazão e Haroldo Lima, para implantar e explodir a bomba no Aeroporto dos Guararapes.

Em 1980, volta ao Sul de Portugal, em Alvito, na região de Alentejo, onde até hoje vive com sua terceira esposa, Guadalupe de Freitas, e sua única filha, Luanda Cozetti.

Debilitado, atualmente com 85 anos, o “padre guerreiro” está bem distante do atuante militante de outrora. Porém, ainda firme em suas ideologias, Alípio de Freitas concedeu esta entrevista para o Estilhaços da Verdade, depois de 20 anos sem falar sobre o Atentado à bomba e 15 dias após uma cirurgia no coração.

Como foi a vida do senhor após o dia 25 de julho de 1966?

Não posso precisar, mas não tenho memória de se ter passado nada de especial. Seguramente que continuei a fazer o que sempre fiz depois do meu retorno clandestino ao Brasil​, ou seja, organizar politicamente os camponeses, como vinha fazendo desde há vários anos.

Gostaria de dizer algo para as pessoas que o consideram mandante do Atentado?

​Não. Já disse que não tive nada a ver com o Atentado. ​ Você acha que se enquanto estive preso sujeito às piores torturas, se os militares sonhassem que eu tive a ver com o Atentado não se esforçariam por saber? Questionaram-me apenas uma vez, não sob tortura, e a minha resposta foi que sabia  aquilo que a Imprensa já tinha dito e o que eles mesmos sabiam. Nunca mais me questionaram. Quem tiver outra versão que a demonstre, mas não tente envolver-me, pois não estará a fazer um bom serviço para a escrita da História desses anos de chumbo.

Se fosse para escolher um sentimento que traduz o que o senhor sentiu na época qual seria?

​O que lhe posso dizer é que estando numa guerra contra a Ditadura, lamentei que a ação não tivesse atingido os seus objetivos. Claro que lamentei e ainda lamento as vítimas inocentes, mas são os acidentes das guerras. ​

E qual seria o sentimento hoje em dia?

​No contexto da guerra que estávamos travando​, profundamente injusta, com uma Ditadura cruel que perseguia, matava, torturava, fazia desaparecer quem não lhe obedecesse, todas as armas que pudessem ser utilizadas contra o estado em que se vivia eram legitimas. Neste momento, o que me interessa é que finalmente estamos começando a fazer justiça, embora muito devagar e sem atingir verdadeiramente os responsáveis, sem os desmascarar e punir como aconteceu e ainda acontece na Argentina. Não desejo vingança, apenas que se faça justiça.

 O senhor se arrepende de algo?

​Não, não me arrependo. Eu entrei nessa luta voluntária e conscientemente e entraria de novo se fosse necessário. Essa luta fez e faz parte da minha vida, da minha história, da minha ideologia e do sentimento de utopia que eu tenho para a humanidade. A minha motivação foi lutar pela dignidade do povo brasileiro, por uma sociedade livre, democrática, com justiça social, que só agora começa a vislumbrar-se. Felizmente já começa a vislumbrar-se e ainda bem que estou vivo para ver esse caminho a começar se fazendo. Por isso, acho que a minha luta e a  dos meus companheiros não foi uma guerra perdida, não foi em vão, apesar de todos os sacrificados.​ Está a ser ganha passo a passo.

Como o senhor analisa o papel da imprensa na época do Atentado?

​Como não existia liberdade de imprensa, esta referiu-se sumariamente ao caso, até porque não podendo investigar, só poderia supor, o que não é uma boa forma de fazer informação. ​É do que me lembro.

E dos órgãos governamentais, como o senhor os analisa?

Procederam de acordo com a sua ideologia e seus propósitos. Foram coerentes consigo mesmos. Nem outra coisa seria de esperar. ​

Deseja dizer algo que ainda não disse nesses anos?

​Não, porque não há nada a acrescentar. ​

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