Pentecostes

O ESPÍRITO É FOGO

 

O vocábulo “Espírito” é a tradução do termo hebraico “Ruah”, o qual, originariamente, significa “sopro, hálito, vento que sopra onde e quando quer” (Jo 3,8). Na experiência de Pentecostes (At 2,1-13), o Espírito Santo se revela como a plenitude da história da revelação na história dos homens e das mulheres de todos os tempos e lugares. E mais: indica a permanência de Deus em nós, conosco, para sempre.

No AT, a promessa do Espírito é um tempo recorrente. Aparece, por exemplo,  maravilhosamente, na profecia de Ezequiel: “Infundirei em vós o meu Espírito e vos farei caminhar segundo as minhas leis, guardar e praticar os meus costumes” (Ez 36,27), e ”Porei o meu sopro em vós para que vivais” (Ez 37,14). Jesus, o Espírito Encarnado no seio de Maria, no evangelho de João, instrui os discípulos, prometendo: “Quando vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá à verdade plena” (Jo 16,13).

Efetivamente, Deus realiza o que promete porque é fiel (1Cor 1,9). No dia de Pentecostes, os discípulos, que fizeram a extraordinária experiência, não receberam simplesmente o Espírito para que habitasse neles. Antes, “todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,4). Acolher o dom do Espírito se torna, então, a condição de possibilidade para o anúncio do Reino e qualifica a missão das testemunhas da Ressurreição de Jesus, o Filho de Deus.

A presença do Espírito Santo em nós (Rom 8,11) é a força de Deus que dá sentido e sabor a nossa vida e projeta luz que transcende os domínios da história. Com Pentecostes, chegou o tempo do homem novo, guiado pelo Espírito. O Espírito, ensina a Bíblia, faz novas todas as coisas (Is 43,19; Ap 21,5). Com Pentecostes, o vento de Deus oxigena e renova todas as coisas: a criação, a vida, a religião, a nossa subjetividade, nossos sonhos... O exemplo de Estêvão, como o de tantos mártires ao longo da história, é paradigmático para compreendermos o que o Espírito pode operar em nós, quando lhe somos dóceis. Estêvão é o ser humano “cheio de fé e do Espírito Santo”, “cheio de graça e poder” (At 6,5.8.10). O testemunho profético de Estevão, literalmente, queimava o ódio, a inveja e a insensatez daqueles que lhe resistiam. Por isso, incapazes e impotentes diante da irresistível sabedoria que promanava do Espírito que inflamava o coração de Estêvão, os pérfidos adversários usaram a violência para silenciá-lo. Como sempre, a violência é o expediente mais cômodo dos covardes e dos lobos vorazes!

O incansável apóstolo Paulo, de forma imperativa, ensina: “Andai no Espírito” (Gl 5,16). O verbo andar, aqui, pretende assinalar a totalidade do nosso “estar no mundo”: pensamentos, palavras e ações, intenções. Tudo deve ser plasmado pela força do Espírito. Concretamente, andamos “segundo o Espírito” quando nos ocupamos com as coisas do Reino de Deus e com as exigências éticas que brotam do Evangelho. Quando nos deixamos conduzir pelo Espírito, passamos a viver de forma coerente as verdades que professamos com a boca; graças ao Espírito podemos testemunhar, com a vida, os dons do Espírito que, age em nós e através de nós; graças ao Espírito encontramos energia para perdoar, para acolher o diferente e para ver além das aparências; graças ao Espírito Santo os pobres de Javé lutam pela libertação e suspiram justiça e vida em plenitude.  

Pode alguém, em sã consciência, recusar o dom do Espírito? Todo ser humano é templo do Espírito Santo (1Cor 6,19). Não somos mercadorias que se prestam ao comércio, nem nos reduzimos a números estatísticos e nem a produtos para mercenários traficarem. A violência e o desrespeito à vida constituem atentados contra Deus. Nesse sentido, o aspecto mais horroroso e sintomático do pecado é a tristeza: “Não entristeçais o Espírito de Deus” (Ef 4,30). Entristecer o outro é entristecer a Deus e vice-versa. A corrupção, os vícios, a mentira, a injustiça e tantas outras manifestações do mal que se pratica, não só ferem e entristecem o outro mas atingem de modo aviltante o coração do Outro.

O Espírito é também a “alma” da vida cristã; promove comunhão entre os fiéis (Fil 2,1), cria o amor, princípio de fundamento de todo bem (2Tm 1,7), abre a nossa inteligência para que possamos compreender o Novo acontecendo e nos engaja no serviço transformador das nossas múltiplas relações. O Espírito de Deus é fogo que não se extingue; Deus é fogo abrasador (Hb 12,29); arde mas não consome (Ex 3,2). Então, sejamos tochas vivas de Deus no mundo, as quais ardem na alegria de servir! 

Fiquemos com a singela oração de Sto. Agostinho:

Respirai em mim, ó Espírito Santo,
para que seja santo o meu pensar.
Impeli-me, ó Espírito Santo,
para que seja santo o meu agir.

Atraí-me, ó Espírito Santo,
para que eu ame o que é santo.
Fortalecei-me, ó Espírito Santo,
para que eu proteja o que é santo.
Protegei-me, ó Espírito Santo,
para que jamais eu perca o que é santo.

Amém.

Pe. Roberto Gottardo, sj

 

 
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