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Festas JuninasDe novo, FESTAS JUNINAS! Viva São João!
Não só de trabalho se vive! A Bíblia atesta que Deus, depois de criar o mundo e todas as suas criaturas, descansou (Gn 2,2). Isso é emblemático! Todos somos sabedores, por experiência, que a vida, hoje, é marcada pelo frenesi da pressa, da correria e da competição cruel e impiedosa que toma conta de todas as dimensões do humano. Quanto estresse e quanto nervosismo! Tantas conquistas e tantos conhecimentos a troco do que propriamente, se em tantas situações se vive o peso da escravidão e da submissão aos ídolos deste mundo? É, sim, tempo de celebrar, na alegria e na quentura das fogueiras, a presença de Deus que veio para salvar o mundo e não para condená-lo (Jo 3,16). A propósito, parece-me oportuno “fazer memória” de alguns aspectos essenciais das festividades juninas, nem sempre acesos na memória. O ciclo das festas juninas gira em torno de três datas principais: 13 de junho, festa de Santo Antônio; 24 de junho, São João; e 29 de junho, São Pedro. Durante esse período, um fato enche-nos os olhos de maravilha e de encanto: o Brasil fica praticamente tomado pelo ritmo das festas juninas. De norte a sul, comemoram-se os santos juninos com inúmeras manifestações folclóricas e culturais. Na região Nordeste do Brasil, a festança assumiu, nos últimos anos, proporções gigantescas, com programações variadas e irresistíveis. Sem mencionar o uso e o abuso do apelo comercial das festanças. A magia do São João envolve e co-envolve as famílias, rompendo barreiras e limites. Algo contagiante! É nesse contexto que a figura dos grandes santos ganharam extraordinário vulto e tornaram-se, com o tempo, íntimos e incrivelmente familiares às pessoas. São amados e venerados pelas familias com emoção, oração e festa. Atribui-se a eles a extraordinária intervenção divina (intercessão) capaz de aproximar os sexos, resolver situações “existenciais” embaraçosas, proteger a maternidade, etc. Uma beleza! Santo Antônio, por exemplo, é conhecidíssimo como o "santo dos milagres". Pe. Vieira, num de seus memoráveis sermões (1663), realizado no Maranhão, afirma: "Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge um escravo, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio; se perdeis a menor miudeza de vossa casa, Santo Antônio; e, talvez, se quereis os bens alheios, Santo Antônio". Na tradição popular, a relação que os devotos estabelecem entre Santo Antônio e São João pode parecer escandalosa: cheia de intimidades, chega a ser, por vezes, irreverente, debochada e quase obscena. Esse caráter fica bastante evidente quando se entra em contato com as simpatias, sortes, adivinhas e acalantos feitos a esses santos. É importante enfatizar que, no contexto das festas juninas, é São João quem protagoniza o papel de destaque nas festas. É em homenagem a ele que as festividades do mês de junho se chamam "joaninas” (= juninas). O dia 23 de junho, véspera do nascimento de São João e início dos festejos, é esperado com especial ansiedade pelo povo. Superstição? Coisa mágica? Obscurantismo? Fuga da realidade? Questões irrelevantes pra quem gosta de festar. O franciscano, Frei Vicente do Salvador, um dos primeiros brasileiros a escrever a história de sua terra, oferece-nos um dado histórico primoroso: já nos idos de 1603, os índios acudiam a todos os festejos portugueses, em especial os de São João, por causa das fogueiras e capelas. Acendia-se uma fogueira à porta de cada casa para lembrar a fogueira que Santa Isabel acendeu para avisar Nossa Senhora do nascimento do seu filho. São Pedro, o apóstolo e o pescador do lago de Genezaré, cativa seus devotos pela história pessoal. Homem de origem humilde, ele foi apóstolo de Cristo e depois encarregado de apascentar o povo de Deus. Considerado o protetor das viúvas e dos pescadores, São Pedro é festejado no dia 29 de junho com a realização de grandes procissões marítimas em várias cidades do Brasil. Depois de sua morte, São Pedro, segundo a tradição católica, foi nomeado chaveiro do céu. No dia de São Pedro, todos os que receberam seu nome devem acender fogueiras na porta de suas casas. Não deixa de ser curioso, porém, que São Paulo, embora seja homenageado em 29 de junho, junto com São Pedro, não é figura de destaque nas festividades desse mês. Entre as tantas brincadeiras, manifestações culturais, comidas e bebidas típicas em profusão, danças, etc. que caracterizam as festas juninas, a quadrilha ocupa um lugar de excelência. Segundo a pesquisadora, Rita Amaral, “a quadrilha é considerada uma herança do folclore francês acrescida de manifestações típicas da cultura portuguesa. Ela é inspirada na contradança francesa e sua origem, no Brasil, está na chegada da corte real portuguesa, no começo do século passado. Com D. João VI, que fugia do avanço das tropas de Napoleão Bonaparte, além de artistas franceses, como Debret e Rugendas, vieram também os modismos da vida européia, dos quais um dos favoritos era a quadrilha, dirigida por mestres franceses da contradança”. Depois, oportunamente, esclarece termos “estranhos” que ouvimos desde tenra idade, mas que, na maioria das vezes, não conseguimos decodificar o significado: “Muitas das ordens desta dança transformaram-se em comandos típicos da quadrilha “caipira”, como os termos "anarriê" (en arrière, que significa "para trás”) ou "anavã" (en avant, que significa "em frente”), "changedidame" (changer de dame, ou seja, "trocar de dama"), "chemandidame" (chemin de dame, “caminho de damas”) ou "otrefuá" (autre fois), ”outra vez”. Prática, historicamente, repetida, recriada e imortalizada em todos os cantos e rincões do nosso vasto e amado Brasil. A pesquisadora Cida Almeida, em entrevista pontua com reconhecida fineza, que “As festas religiosas são expressão do protagonismo de atores que não apenas encenam uma peça já escrita, mas antes, a cada cena, manifestam-se co-autores de uma obra inacabada”. Mais. “Reinventam a religiosidade e a história, simplesmente ‘fazendo festa’. Toda festa, no sentido antropológico, tem o sentido de celebração, de compartilhar e transmitir determinados valores”. Nas festas juninas, a experiência da transmissão de valores, tais como a alegria, a fraternidade e a participação eletrizante dos foliões, fazem-se sentir de forma explicita e intensa. Naturalmente, as festas juninas são emblemáticas na nossa cultura plural e miscigenada. Já foram assimiladas pelo calendário oficial. E poderia ser diferente? A professora Amaral observa que “nas festividades, misturam-se o sagrado e o profano, a crítica e o deboche, a diversão e o devocional, o esbanjamento e a concentração, a fruição e o modo de ação social; ela ainda é o reviver do passado e projeção de utopias, afirmação da identidade particular de um grupo e inserção na sociedade global; expressão de alegria e de indignação. A festa transforma-se também em lugar de catarse coletiva, de purificação, de afirmação da identidade. A música embala relações e corações e quem resiste ao ritmo do forró, por exemplo? E o que dizer das fantásticas coreografias? Quanta criatividade! Na verdade, a festa de reconhecido apelo popular, como é o caso das festas de São João, funciona como uma espécie de laboratório e, ao mesmo tempo, de espelho da multicolorida paisagem humana. A festa não se deixa aprisionar por nenhum conceito e/ou análise superficial de corte intelectualista. Trata-se de uma realidade real e simbólica que “dá a pensar”, diria P. Ricoeur. Entretanto, é importante reconhecer que a fantástica empolgação que toma conta das ruas, das praças, dos salões (fato festejado) nem sempre é acompanhada, com similar intensidade no “espírito”, ou seja, interesse em articular o “festar” com o motivo da festa (fato celebrado). De fato, o povo se alegra e sabe celebrar, tendo como leitmotiv de fundo Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo, santificados pelo mistério de Deus. Sabedora dessas contradições (compreensíveis?), a Igreja promove celebrações especiais para fazer memória da raiz e da fonte última das festas: a Palavra viva de Deus e a Ceia memorial do Senhor, que, pelo seu Espírito, nos salva, nos alegra e nos fortalece em comunhão com seus santos. Saltam aos olhos um desejo e uma esperança: se todos conhecessem e tivessem a consciência das raízes profundas do fato “rememorado”, é provável que tudo seria feito ainda com mais sentido e vibração. Os santos evocados, particularmente nas festanças juninas, foram homens que souberam transformar o Evangelho em vida e em justiça; foram, na verdade, valorosos servos de Deus. Por isso, não seria altamente salutar aproveitar a maravilhosa ocasião das festividades juninas para meditar e refletir sobre a beleza e o sentido da festa? Por que contentar-se apenas com o aspecto fenomênico das tradições, ou seja, com aquilo que enfeitiça e aguça os sentidos? O poeta Saint-Exupery, sábia e poeticamente nos lembra que “só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Infeliz é quem esquece essa verdade essencial! É de esperar que as festas juninas sejam efetivamente tempo de encontro, de confraternização e de profunda comunhão da família, em família. Que a maldição da violência, das extravagâncias e dos excessos seja erradicada na face da terra e que a VIDA possa florir com pujança no fulgor da festa, no nosso querido Brasil, eis a nossa fervente oração. Festar é bom e fica melhor ainda quando tudo é feito e celebrado sob a invocação e os auspícios de santos tão queridos e amados por Deus e pelo povo.
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