A Experiência Religiosa Juvenil

RESUMO: Neste artigo, queremos refletir sobre a experiência religiosa juvenil, contextualizando o terreno sóciocultural onde se encontram os desafios para o educador cristão de hoje, na tentativa de educar o jovem para uma experiência religiosa discernida e madura, tendo presente a real identidade cultural do perfil deste jovem, moldado pela mentalidade secularizada. Insistimos em que não adianta “pôr remendo novo em tecido velho”, porque, como diz o Evangelho, se romperá. Urge a necessidade de uma educação da fé que tenha como ponto de partida as grandes angústias pós-modernas dos jovens de hoje. Esses jovens, buscam avidamente, um sentido imediato pra viver, não se conformando com os sentimentos provisórios de auto-satisfação prazerosa; eles adiam  sempre a necessidade de um encontro com uma autêntica experiência de Deus, que os ponham no compromisso de protagonistas da história humana. Procuram uma expressão de humanismo marcado por projetos de vida que proporcionem a força de uma verdadeira experiência religiosa cristã.

Palavras- chave: identidade e pluralismo religioso, Éticas e práticas sócio-religiosas, Religião e práticas políticas e sociais, Experiência religiosa juvenil.

Introdução

Vivemos cruciais mudanças comportamentais em nível cultural-religioso que se refletem, de modo pertinente, nas atitudes educativas religiosas dos jovens de hoje. Buscam-se, desesperadamente, modelos inacabados para dar conta da necessidade de uma pedagogia educativa com o fim de educar os jovens nos valores religiosos com os parâmetros de outrora.

No entanto, a realidade secularizada nos desafia a mergulhar na própria crise de modelos educativos que já não respondem mais às necessidades presentes dos jovens de hoje, no que diz respeito aos referenciais educativos para uma boa educação religiosa cristã.

Faz-se necessário percorrer os meandros desafiadores da realidade pós-moderna e refletir a situação de crise de sentido atual que experimenta o jovem na cultura do individualismo e subjetivismo dos valores “religiosos”, para, desde aqui, construir um horizonte de ações pedagógicas educativas com o fim de identificar a exigente busca de uma forte experiência religiosa juvenil pela a qual anseiam os jovens na atualidade.

1. Desafios da realidade pós-moderna e a crise de sentido atual no jovem

O jovem vive, atualmente, num mundo complexo e em rápida mudança nas esferas sócioculutral e econômico-religiosa, além da política, num contexto de crise da modernidade e pós-modernidade, numa época de grandes paradoxos e contradições. Em todo o mundo globalizado, há um acelerado processo de individualização, ao mesmo tempo que existe a busca de segurança na coletividade. O indivíduo valoriza a máxima liberdade, às vezes, priorizando-a acima de qualquer ordenamento ou organização sóciocultural. As tendências da globalização versus individualização são simultâneas e o processo de libertação individual depende da incorporação de valores de uma sociedade global. Essa sociedade é configurada pela estrutura econômica capitalista, que é, também, uma estrutura valorativa e normativa, que desafia as referências históricas teórico-ideológicas do indivíduo. Há no ar uma negação dos pilares das ciências sociais, da cultura e da história, que edificaram o sujeito e o mundo moderno. Essa incômoda posição do homem ocidental afeta todas as dimensões e sua vida.

Este novo tempo, o tempo da indefinição, quando tudo é “pós” algo, existem poucos com voz e vez, e muitos sem voz e vez, numa contradição da democracia e liberdade propagadas pela globalização e pós-modernidade. Esses nunca chegaram à modernidade, quanto mais a sua pós-modernidade ou segunda modernidade.

O processo de assimilação do jovem na sociedade se encontra cada vez mais difícil, contribuindo para dificuldades de independência financeira, de organização do seu casamento, família e lar, da consolidação de valores e identidades, e de autonomia pessoal.

Diante dos desmoronamentos das ideologias modernos - fica o modelo do socialismo real e a desconfiança nas forças auto-reguladoras da economia de mercado - e a perda de afetividade nas agências tradicionais socializadoras dos jovens - família, escola, igreja - hoje nos perguntamos se existe um consumo básico nos setores jovens que os vincule a orientações, valores, normas, atitudes e conteúdos vitais.

Faz-se necessário compreender a forma nos quais os jovens vão inserir-se nesse contexto heterogêneo e contraditório, afetado pela crise da pós-modernidade. Essa crise se manifesta na diminuição da qualidade de vida e nas decepções sofridas pelos jovens sobre suas expectativas do futuro. O jovem não é postulante e gerador de propostas.

Convém esclarecer a diferença entre valores, motivos e normas de conduta, que estão inter-relacionadas. Por valor se entende o conjunto de princípios que, por corporificarem um ideal cultural, ideológico ou institucional, de plenitude moral, deve ser buscado. Norma é o padrão representativo do desempenho ou procedimento usual tradicional de um dado grupo. Ao entender o conceito de motivo, inclui-se a explicação das ações, sua intenção ou incentivo, o que dá força psíquica para fundamentar seu agir.

A orientação valorativa na realidade se articula com normas e motivos para estruturar uma visão de mundo e, consequentemente, o projeto de vida, para avaliar e tomar decisões, para oferecer motivação e contribuir na integração social e na formação da identidade individual.

Diante das questões da pós-modernidade, é frequente a reflexão sobre a relação modernidade, pluralismo e crise de sentido ou identidade, que afligem tanto os jovens quanto os adultos mais maduros.

Como se compreende a palavra? Dúvida existencial? Impotência diante do contexto religioso atual? Indecisão sobre idéias, objetivos,  futuro? Confronto entre o que queria na vida e o que encontrou? Dependência versus autodeterminação na vida? Confusão sobre valores, moral, ética? Ser pobre mas honesto ou mais abastado e comprometer seus ideais de justiça?

A crise de subjetividade é uma crise de identidade, uma crise de sentido, uma crise de consciência. E essa é sempre consciência de algo, ela existe somente em relação a um objeto intencional que é constituído pelas diversas realizações de síntese da consciência. Essa síntese envolve percepções no campo temático do objeto intencional, cercado por um horizonte aberto em que a consciência da corporalidade é dada e vivenciada.

É evidente que a crise de subjetividade é uma crise de sentido. O sentido se constitui na consciência humana, na consciência do indivíduo, que se individualizou num corpo se tornou pessoa através de processos sociais. A identidade, a subjetividade, a subjetividade da pessoa, envolve: consciência, individualidade, corporalidade específica, sociabilidade e formação histórico-social da identidade. É uma forma complexa de consciência, não existe em si, mas na relação entre outras experiências.

Os autores Berger e Luckmann (2004) afirmam que as questões sobre sentido fazem parte dos desafios da modernidade e que o individualismo e o pluralismo influenciam o estabelecimento de padrões de vida cheia de opções. Levantam três complexos de questões que serão relacionados com as questões implícitas no artigo sobre modernidade e subjetividade: como realizar “sentido” diante de opções pluralistas? Como conservar uma identidade estável? Que sistema de valores orienta as idéias? Que tipo de sociedade constituem as pessoas que têm padrões semelhantes do sentido e dos valores?

Para Berger e Luckmann (2004), o sentido, na sua complexidade consciente, percebe a relação entre experiências e age no social através, prioritariamente, das formas comunicativas de linguagem e dos seus símbolos. “A vida social cotidiana está repleta de múltiplas sucessões de agir social, e é somente neste agir que se forma a identidade pessoal do indivíduo” (Berger e Luckmann, 2004, p.17).

Problemas surgidos no agir social interativo são solucionados em comum: as ações são transformadas em instituições sociais. Essas instituições formam o reservatório histórico de sentido (configurações supra-ordenadas de valores) ao qual a pessoa pode recorrer para, subjetivamente, mas objetivado intersubjetivamente, com a interferência determinante de relações sociais dominantes institucionais de produção de sentido. Há tendências ao controle, à monopolização, em que elementos são ignorados por não serem considerados significativos, ou são descartados como perigosos. “Os sistemas hierárquicos de valor e de saber ordenados, assim criados, podem estar intimamente ligados [...] cortados na medida exata para transmissões futuras, [...] as funções como censura, canonização, sistematização e pedagogização, foram assumidos por peritos especializados” (BERGER E LUCKMANN, 2004, p. 20). O resultado é a estrutura histórica do reservatório social do sentido a partir de conhecimento específico, que pretende regular o comportamento do indivíduo com a sociedade. No caso do jovem cristão, o reservatório de sentido é a Igreja, que se coloca como certeza moral e religiosa doutrinária, acirrando conflitos entre o indivíduo e o macrossistema moderno.

O esquema institucional de valores informa toda a vida objetiva e objetiva o “reprocessamento social do sentido e [...] o controle da produção e transmissão de sentido e [...] o controle da produção e transmissão de sentido” (BERGER E LUCKMANN, 2004, P.22). A orientação doutrinária objetiva que o indivíduo só pensa e faça o que corresponde às normas. O controle e censura impedem opiniões divergentes e competição interna e externa onde “o sentido do agir e da vida pe imposto como regra” (p. 23).

As condições gerais para o surgimento da crise de sentido são relacionadas com as “reservas de sentido” objetivadas e processadas pela sociedade e “conservadas em reservatórios históricos de sentido e administradas por instituições” (BERGER E LUCKMANN, 2004, p.25). As reservas de sentido, quando se referem à Igreja Cristã, apontam para suas doutrinas, cartas pastorais, princípios, diretrizes, ideais e ideologias político-ético-religiosas. O sentido objetivado da Igreja está em constante interação como o sentido subjetivamente constituído no projeto individual do jovem e com a estrutura intersubjetiva das relações sociais. Influência, de forma marcante e duradoura, o desenvolvimento da sua identidade pessoal.

O jovem tem questionamentos e dúvidas sobre sua identidade, não apenas das suas crenças religiosas, mas angústias existenciais e ético-sociais. A amplitude e abrangência da crise envolvem desde a sua visão do mundo, sua inserção e cooperação no sistema que abomina, sua sexualidade expressa em termos diferenciados do magistério da Igreja, sua espiritualidade e sua felicidade e liberdade.

A crise de subjetividade tem características específicas envolvendo corporeidade, ética, realização e religião, enquanto a Igreja, como reservatório de sentido, percebe o seu papel como produtor e transmissor monopolista de sentido, não admitindo  contestação. Tem pouca abertura para processos de revisão do sentido objetivado pelos jovens, agravando a crise de identidade e sua própria crise institucional.

O processo de consolidação de identidade do jovem na cultura pós-moderna ou segunda modernidade envolve a sua emancipação nos planos cognitivo (sistema de idéias e crenças), afetivo (referências plurais em confrontação) e social (independência econômica e integração num contexto mais abrangente mediada pela família). Esse processo de emancipação frente à pós-modernidade se realiza numa sociedade mundial em grande transformação nas dimensões político-econômico, socialcultural e ambiental; na transformação e diversificação de modos de vida; no pluralismo ideológico-político; na revolução sexual e consumo desenfreado “com um mínimo de autoridade e o máximo de desejo” (MOTA, 2005, p. 10).

Hoje vivemos sob a égide de experiências: de fragmentos de parcialidade, de relatividades... de colapso dos paradigmas que estruturam nossas vidas.

Antes de apresentar a análise sobre a religiosidade juvenil, é oportuno dar uma rápida olhada para as transformações da experiência que foram produzidas pela segunda modernidade.

De fato, essas transformações constituem o ambiente no qual se está formando a experiência religiosa juvenil.

Essas transformações foram reagrupadas em quatro classes: o individualismo, a centralidade do corpo, a negação das distinções entre o homem e Deus e o tradicionalismo.

2. O individualismo na cultura juvenil

2.1 - Características do individualismo

O individualismo que caracteriza a segunda modernidade está na base de algumas características típicas da atual experiência religiosa.

A primeira é constituída pela fluidez e pela mobilidade da pertença religiosa. As pessoas tendem a empenhar-se de modo limitado ou pelos resultados que pensam obter pela pertença religiosa.

Quando se vive uma desilusão religiosa, tende-se a buscar uma nova adesão em outro lugar.

A segunda característica é dada pelo liame entre empenho, e crescimento e auto-realização pessoal. Não vale a pena empenhar-se em alguma coisa que não produz felicidade e que seja desenvolvido sem alegria. A desafeição nos confrontos da prática religiosa é uma manifestação concreta dessa característica e pode ser sintetizada pela frase:
“a missa dominical me dá tédio e não tiro proveito de nada”.

A terceira característica é o desaparecimento do espírito de sacrifício. Para a maioria das pessoas e dos cristãos perder a própria vida em nome da fé e da vida futura é absolutamente impensável.

A quarta característica é constituída pelo emergir de um indivíduo holístico, que  tomou o posto da sociedade holística.

Isso significa que a pessoa percebe, de modo completo e integrado, o que, desde pouco  tempo, foi considerado de modo separado e setorial. Aqui está, portanto, a necessidade, na sua experiência religiosa, de tomar em consideração todas as dimensões das quais se sente formada: racional, emotiva, espiritual e material, psíquica e corpórea.

O conjunto dessas quatro características explica o aparecimento de uma religião de estilo subjetivo: “escolho de ir lá porque...” ou também aqui se constrói com o próprio grupo uma experiência religiosa sob medida.

Uma escolha subjetiva que vale também para as prescrições morais, no sentido de que se aceitam aquelas agradáveis e se rejeitam as outras. Um exemplo típico se refere à moral sexual.

Também no que diz respeito aos artigos de fé, assiste-se a uma escolha subjetiva. Por exemplo: na fase histórica atual, os católicos privilegiam a humanidade de Jesus, o Deus amor e não o Deus Juiz, ao Cristo majestoso e distante, assim como, freqüentemente, excluem a existência do inferno e do Diabo.

Na experiência religiosa da maioria das pessoas, não se vê mais a distinção entre o bem e o mal, mas entre o agradável ou entre o que pode ser objeto de fé ou não mais.

Uma variante extrema da religião de estilo subjetivo é constituída pela religião feita pela própria pessoa, que, quase sempre, é uma colagem sincrética.

Um exemplo desse tipo de experiência religiosa pode-se  constatar nos comportamentos das pessoas que adotam o budismo tibetano ou se dirigem  em peregrinação a Campostela, ou também, aqueles católicos que, visitando Benares (Índia), não se limitam a fazer turismo, mas procuram viver a experiência religiosa que os indianos fazem naquele lugar.

A globalização e a comunicação de massa tornam disponível, no mercado da imaginação, um número amplo de sujeitos e de materiais com os quais constrói a própria tintura religiosa.

2.2 - A centralidade do corpo

A experiência religiosa nesta segunda modernidade é caracterizada pelo papel absolutamente dominante que nesta adquire a dimensão emocional. De fato, nela se apresenta o primado das relações interpessoais e aquela do sentimento sobre a razão.

Isso comporta uma acentuação do valor da experiência pessoal subjetiva, da autenticidade afetiva, da dependência do líder carismático e da procura pelo envolvimento do corpo e dos sentidos na experiência religiosa.

Uma experiência religiosa é experimentada como autêntica e verdadeira somente se deixa um  sinal  qualquer no corpo da pessoa que a vive.

A verdade da experiência religiosa, de fato, não pode ser dita por discursos racionais ou dogmáticos, mas somente pela intensidade e pela autenticidade dos sentimentos experimentados.

Aqui está o sucesso daqueles ritos, daquelas posturas, daqueles gestos e expressões corpóreas capazes de suscitar emoções ao interno dos contextos de oração ou de reunião.

Tudo isso acontece também se a experiência é taumatúrgica, de tipo religioso.

Há muitas experiências religiosas contemporâneas à busca de curas que ocupa um lugar central.

Essa é a diferença da tradição cristã, na qual a cura era considerada secundária a respeito da fé, no sentido de que essa não era buscada por si mesma mas como possível dom suplementar.

Isso é explicado com a centralidade do corpo e o seu bem-estar, e o posto que a forma física tem assumido na atual cultura social.

A religião torna-se, para muitas pessoas, uma via da busca do bem-estar psíquicofísico. Não é por acaso que, enquanto há um tempo se buscava a cura por razões de desgraças ou falta  de sorte, hoje, ao invés, pessoas bem sucedidas na vida e insatisfeitas porque sentem que ainda não conseguiram a felicidade e à liberdade a qual aspiram, hoje buscam a religião para alcançar apenas sentimentos de bem-estar psíquicoterapêutico.

Essas pessoas manifestam, freqüentemente, também, um certo ressentimento em confronto com a Igreja, acusada de não valorizar o suficiente as qualidades  emotivas e terapêuticas da religião, e de insistir, demais, sobre aspectos morais e éticos, e de administrar, portanto, o patrimônio espiritual de modo burocrático.

Nisso é legível o efeito dissolvente da modernidade nos confrontos da tradição. Modernidade que, ao invés, perde o sentido das mensagens narrativas religiosas de sentido ético-moral universal, referenciais significativos que dá o sentido da vida nas culturas hodierna.

Para muitas pessoas, a religião é também uma oferta de compensação da desilusão pelas promessas não mantidas pela ciência e pela técnica com o fim de chegar à felicidade, pela perene juventude e pela imortalidade.

2.3 - A negação das distinções entre Deus e o Homem

Um dos efeitos da segunda modernidade sobre a experiência religiosa se manifesta na negação das distinções clássicas que, no fenômeno religioso, existem entre Deus e o homem, Deus e a natureza, entre homem,  natureza e religião, que, ao final, seriam idênticas.

Na raiz desse sincretismo, mostra-se a crença na experiência de uma realidade comum a todas as realidades que, com freqüência, é chamada energia. Essa crença, mais que sobre o panteísmo, parece orientada a um naturalismo animístico.

A essa crença pertence a atual moda nos confrontos do mundo dos anjos que seria um mundo paralelo invisível e real.

O Deus pessoal do cristianismo transfere-se em direção a um Deus impessoal ou até mesmo, das forças e das energias impessoais.

Nesse contexto, desaparece também cada forma de alteridade, não existe mais o diálogo entre o Eu e o Tu, mas somente a busca interior do próprio “si”, único lugar no qual se manifesta a verdade e mesmo Deus.

A esse propósito, um jornal francês intitulava num artigo: “como jogar fora Deus e obter a religião”.

Nessa concepção religiosa, a espiritualidade refere-se exclusivamente à interioridade da pessoa, embora se refira ao superamento do Eu ou, ao contrário, refira-se ao seu aprofundamento.

Todas as religiões se apresentam idênticas porque cada uma dessas, com as suas próprias tradições místicas, garantirá essa via da interioridade.

A conseqüência dessa atitude é a relativização das formas históricas no qual se manifestam as religiões em favor dos seus aspectos esotéricos e místicos. Basta pensar a tentativa de reavaliação do Evangelho apócrifo de Tomé com respeito aos Evangelhos canônicos.

2.4 - O tradicionalismo

Ao lado dessas características da experiência religiosa contemporânea produzidas pela segunda modernidade, está presente uma que parece ir em direção contrária.

Trata-se daquelas experiências religiosas fundadas sobre uma relação fortíssima nos confrontos da modernidade e da secularização, e pela tendência do cristianismo de vir a conformar-se com essas últimas.

Às vezes, essa reação se manifesta somente de modo parcial porque os movimentos que a manifestam possuem também alguns traços identificatórios modernos.

 Há movimentos que manifestam somente a reação de orgulho de exibir e de manifestar a diferença que contradistingue a própria religião de outras sobretudo através de sinais exteriores, como o vestuário, as grandes assembléias unitárias que superam as divisões ideológicas, políticas, sociais e econômicas das pessoas, as procissões no coração da cidade, a publicação das conversões e, enfim, o uso máximo da comunicação midiática.

A reação identificadora pode ser prometida no vértice ou na base da Igreja. O aspecto consolador é que as características da experiência religiosa descritas são, de um lado, estritamente ligadas à segunda modernidade e, de outro, estritamente individuais. Aparecem, portanto, ligadas à fragilidade das pessoas e, portanto, privadas dos requisitos necessários à sua transmissão sobre novas gerações.

Isso significa que o futuro não está comprometido, e é possível prever um retorno em direção à alteridade, para uma Transcendência não imanente. Talvez as reações integralistas, com a sua inaudita violência, mostre o sintoma paradoxal da existência dessa possibilidade. É interessante ver se os sinais desse retorno estão já presentes na atual experiência religiosa juvenil. Para essa exploração,  resultados da pesquisa conduzida com o método das histórias de vida, entre os adolescentes esperam-se os jovens que querem empreender.

Conclusão

Após fazer uma rápida análise dos desafios da realidade pós-moderna e a crise de sentido atual no jovem, constatando isso no presente individualismo na cultural juvenil, chegamos à conclusão o quanto a ética e a religião já não orientam a tradição religiosa nas sociedades moderna e pós-moderna, proporcionando aos jovens referências inspiradoras de construção de projetos de vida humanizadores. Novos movimentos eclesiais fundamentalistas propõem aos jovens ofertas aos seus anseios e buscas de sentido para a vida. A insegurança e o fanatismo os levam ao entrosamento da nova práxis religiosa, que, na maioria das vezes, os aliciam e os tratam com rigor, ou, ao contrário, orientam-nos a uma práxis niilista cujo critério da verdade são suas próprias necessidades subjetivas eivadas de sede de satisfação afetiva provisória, não dando mais lugar à busca de projetos de vida altruísticos e estáveis para um compromisso com a sociedade e os valores éticos morais da vida cristã.

Enfrentar os desafios da modernidade e pós-modernidade tem sido, para os jovens, a grande problemática religiosa. A formação lúcida de trabalhos pastorais é a conscientização cristã que ultrapassa o conservadorismo. Objetivar firmemente a estrutura de grupos ou movimentos bem organizados e de clareza doutrinal é o grande passo do assumir com serenidade as transformações.

Em nível de cristianismo católico, a Pastoral da Juventude tem sido destaque em reunir jovens com objetivos afins modernos e pós-modernos, principalmente, no que diz respeito aos grupos fundamentalistas que “dizem” proteger os jovens. À educação cristã urge clareza e transparência. Oferecer possibilidades humanas artísticas e práticas é a resposta aos desejos e angústias de muitos jovens. Tirar o jovem de si mesmo para uma entrega aos outros é fazer uso de diferentes experiências religiosas que façam no ser humano descobertas fundamentais da vida.

A crise da experiência religiosa juvenil hoje se apresenta como alerta para uma nova postura de Igreja. Não há como continuar o debate e esclarecimento das questões fundamentalistas da Escritura. É inevitável também se continuar com os ensinamentos morais e religiosos de uma tradição refletida e articulada com a vida moderna.

As dificuldades e inseguranças da própria confusão afetiva da fase adolescencial levam-nos ao afastamento das práticas religiosas. Tanto aqueles jovens que são religiosos praticantes, quanto aqueles outros que estão de fora necessitam de cuidados especiais seja na razão ou a partir da fé. A origem de cada crise difere entre eles, seja de natureza intelectual ou afetiva.

Necessário se faz ajudar o jovem no esclarecimento e no apoio para que ele possa vivenciar a capacidade de experiência plural e distinta porque a experiência de Deus tem como lugar afetivo o humano.

Referências Bibliográficas:

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