Concepção de Deus e os valores religiosos entre os Jovens da Católica

RESUMO: Este artigo é resultante dos dados de Pesquisa de Campo, aplicada aleatoriamente a 300 universitários. Ele visa elencar e refletir sobre a concepção juvenil de Deus, na UNICAP. Faz-se uma análise quantitativa e qualitativa dos dados obtidos, com um enfoque psico-religioso e cognitivo. Percebe-se que as representações de Deus obedecem a um modelo tradicional (Deus criador, Deus punidor) e sincrético (Nova Era, Panteísmo). Como resultados principais, percebe-se que os atributos divinos transmitidos (nos Valores Religiosos) foram os menos mudados pela Mídia comparados com os valores familiares e escolares. Os valores religiosos mudaram mais no campo da afetividade, sexualidade, freqüência às igrejas e vida de oração. Conclui-se que a concepção de Deus entre os jovens universitários da classe média não foge muito dos parâmetros oficiais pregados pelas Igrejas, embora com vestígios do sincretismo religioso brasileiro e latino-americano.

Palavras-chave:Ética e práticas sócio-religiosas, Cristianismo e Modernidade, Face de Deus, Valores religiosos, Mídia.

Introdução

Esse artigo tem como título “Concepções de Deus e os valores religiosos entre os jovens universitários da Católica” e visa identificar as matizes (concepções e representações) da face e do agir de Deus entre os jovens entrevistados e elencar os valores religiosos mudados ou não pela mídia e saber até que ponto e como a mídia influencia na mudança dos valores religiosos transmitidos aos jovens universitários da Católica pelas famílias e pelas Igrejas.

A expectativa inicial é de que as concepções e representações de Deus sejam as mais variadas possíveis já que se vive num mundo religiosamente pluralista e globalizado.

Também se espera que a mídia mude e muito os valores religiosos transmitidos pela família e pelas Igrejas aos jovens da Católica. O embasamento teórico é composto, principalmente, pela Fenomenologia (Husserl) e pela Psicologia Cognitiva (Piaget) entre outros teóricos.

A justificativa do estudo dessa problemática é a constatação de que vivemos num mundo tornado uma pequena aldeia (Mc Luhan), pós-moderno, eivado de uma cultura da subjetividade, com inversão profunda de valores (individualismo, materialismo, hedonismo, domínio do efêmero, consumismo), exigindo respostas firmes e bem estabelecidas no que concerne à concepção de Deus e à percepção e vivência dos valores religiosos, principalmente, por parte da juventude, promessa de um futuro melhor para as famílias, Igrejas e Nação brasileira.

O nosso relacionamento sadio com Deus depende do tipo de percepção e concepção que temos d’Ele, sendo os valores religiosos, de fato, eixos para a existência humana a nortearem os jovens rumo à felicidade e realização mais plenas que almejam.

A Metodologia consta de leituras atinentes aos temas e de uma pesquisa de campo  com 300 jovens da Unicap, aleatoriamente escolhidos,  nos três turnos e em mais de vinte cursos. Após o fichamento das leituras, a elaboração do Questionário Misto com 50 questões (abertas e fechadas), o Pré-teste e aplicação do Questionário Misto, faz-se a análise quantitativa e qualitativa dos resultados obtidos com a Pesquisa de Campo.

As questões sobre os valores religiosos, embasadoras desse artigo, foram as dos números 36-50, onde se pode perceber a concepção que os jovens têm de Deus, o seu relacionamento com Ele e como eles concebem o agir de Deus no mundo (questões: 36-39), configurando a face divina no dizer dos jovens entrevistados e os valores religiosos mudados ou não pela mídia (questões: 40-50).

No total da Pesquisa de Campo, os valores religiosos foram os menos mudados (mudaram mais no campo da afetividade, sexualidade, da freqüência às igrejas e da vida de oração), seguidos pelos valores familiares e por último pelos valores escolares.

As concepções de Deus aparecem de modo tradicional (Símbolo Apostólico: Credo) e sincrético (Nova Era, panteísmo). O como da mudança dos valores religiosos pela mídia é visto mais como negativo do que positivo.

De um modo geral, comparando os dados dessa Pesquisa de Campo com os dados da grande Pesquisa Nacional do Instituto Cidadania e da Editora Fundação PERSEU ABRAMO eles confirmam as tendências daquela Pesquisa Nacional sobre a juventude e seus valores.

Esse artigo consta essencialmente de duas partes:
1) Concepções e representações juvenis de Deus;
2) Mídia e mudança dos valores religiosos juvenis.

1. CONCEPÇÕES E REPRESENTAÇÕES JUVENIS DE DEUS

Essa parte tem dois tópicos:
1) Concepções juvenis da face de Deus;
2) Representações juvenis de Deus e de Seu agir (questões: 36-39).

1.1 CONCEPÇÕES JUVENIS DA FACE DE DEUS

A concepção tipológica da face de Deus segundo os jovens universitários da Unicap assume, resumidamente, as seguintes características antropológico-teológicas:

  • Eles visibilizam a face de Deus agindo no mundo em tudo e em todos, o que reflete uma certa concepção de um Deus interagindo com a criação humana e a natureza, retratando uma teologia da criação. Vêem um Deus monoteísta que harmoniza a história humana dando segurança às suas criaturas. Também aparece uma visão um tanto panteísta (Nova Era) além do panenteísmo (Deus em tudo).
  • Também aparece visível a ação de Deus interagindo com as criaturas numa mútua colaboração como um Deus criador diante de sua criatura co-criadora mostrando-se uma abertura para a compreensão da concepção antropológico-teológica.
  • A visão e percepção de um Deus castigador, que se inserem com evidência numa concepção bíblica vétero-testamentária onde a relação de alteridade entre o divino e o humano mostra-se na disparidade de correspondência entre fidelidade da aliança e infidelidade dos eleitos dando margem para a purificação via provação e castigo.
  • Deus é visto e acolhido na sua alteridade como o eternamente mistério que produz temor a exemplo do encontro de Moisés com a sarça ardente.
  • Deus é visto também como bom para o bom e ruim para ruim, numa concepção taliônica, aparecendo também uma fragmentação da concepção de um Deus eternamente misericordioso própria do Novo Testamento.
  • O contato relacional com Deus como fonte de fé e felicidade das pessoas acentua com propriedade a face da compaixão divina.
  • A face de Deus para os jovens da Unicap, portanto, se mostra fundamentalmente encarnada na história humana, plasmada e mesclada por uma apreensão onde o divino e o humano se encontram em tensão na realidade vulnerável humana que requer a necessidade de justificação pela fé e graça entre castigo e bondade, típicos da práxis religiosa da teologia da justificação.

Essas concepções entre um Deus criador, fonte de felicidade, bondade, mistério e castigo, podem abrir-se à interpretação de uma visão antropológica mesclada de simbologia mítica e situada numa compreensão teológica, mas referendada pela teologia tradicional tridentina, onde o dualismo entre mal e bem é apreendido como uma visão doutrinal dogmática agostiniana também presente no Símbolo Apostólico (Credo).

A concepção tipológica da face de Deus segundo os jovens universitários da Unicap assume os seguintes matizes:

- Deus é o criador de tudo (40%), Deus é amor (11,3%), Deus o Ser Supremo (10,0%), Deus é tudo (9,0), Deus é energia dentro de nós (10 ), Deus é o Modo ( 9 ),Deus é generosidade ( 6 ), Deus é o sem igual ( 3 ), Deus é o pai (6 ), inteligência(9 ), poder e justiça ( 8 ), clemência e fé ( 3 ), Deus é o um Ser iluminado que nos dá liberdade ( 5 ).

Os jovens concebem Deus como criador do homem e do mundo, embora haja uma crise, quando chegam ao Ensino Médio , no que concerne ao criacionismo fixista e mágico, como é relatado no Gênesis. Eles estão mais tendentes.

  • Eles visibilizam a face de Deus agindo no mundo em tudo e em todos, o que reflete uma certa concepção de um Deus interagindo com a criação humana e a natureza, retratando uma teologia da criação, reproduzindo assim um modelo criacionista ou transcendente. De um modo direto (catequese) ou indireto vêem um Deus monoteísta que harmoniza a história humana dando segurança às suas criaturas. Também aparece uma visão um tanto panteísta (Nova Era) além do panteísmo (Tudo é Deus ) ou panenteísmo (Deus está em tudo).

È importante notar que os jovens fazem referência a uma concepção de Deus no seu imaginário simbólico, contudo não fazem referência como o vivenciam desde a dimensão de suas experiências pessoais com a proximidade do rosto pessoal do mistério de Deus.

Interpretando isso, podemos concluir que entre a concepção mental imaginária de Deus e sua relação interpessoal com Ele, evoca-se a necessidade de prática religiosa de fé que proporcione a esses jovens uma experiência de comunhão pelo diálogo de intimidade orante. O que talvez falte muito para isso acontecer realmente entre os nossos jovens, salvas algumas exceções.

Do resultado da Pesquisa, pode-se concluir também o seguinte:

  • Também aparece visível a concepção de Deus atuante interagindo com as criaturas numa mútua colaboração. Um Deus criador diante de sua criatura co-criadora mostrando-se uma abertura para a compreensão da concepção antropológico-teológica pela encarnação Jesus Cristo.
  • A visão e percepção de um Deus castigador, que se insere com evidência numa concepção bíblica vétero-testamentária onde a relação de alteridade entre o divino e o humano mostra-se na disparidade de correspondência entre fidelidade da aliança e infidelidade dos eleitos dando margem para a purificação via provação e castigo. Nasce daqui a noção bíblica do pecado original como fenômeno universal que se caracteriza por uma transgressão da aliança, numa solidariedade de todos no pecado que afeta não só Israel, mas toda a humanidade (Cf. Gen 12,3).  Aliás, esta questão da universalidade e origem do mal se mostra bem desenvolvida nos textos neotestamentários quando afirma o princípio de responsabilidade individual no pecado (cf. Mt 16, 27; Rm 2,6) e reconhece a responsabilidade coletiva na solidariedade no mal (cf. Mt 12,1-12); em Romanos 7 insiste na relação pecada-morte como forças que dominam a situação existencial do homem que ainda não recebeu a justificação em Cristo. Em Romanos 5,12-21 se reconhece com propriedade a fundamentação neotestamentária do pecado original quando Paulo quer especificar o modo como o pecado e a morte são transmitidos; mostrando assim a relação entre o pecado originante e o pecado originado. Por isso, como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rom 5,12). A força do mal se manifestou porque todos pecaram.
  • Deus é visto e acolhido na sua alteridade como o eternamente mistério que produz temor a exemplo do encontro com Moisés com a sarça ardente.
  • Deus é visto também como bom para o bom e ruim para o ruim, numa concepção taliônica, aparecendo também uma fragmentação da concepção de um Deus eternamente misericordioso própria do Novo Testamento A nomeação de Deus se dá na Escritura e na Tradição, e esta palavra se torna pregação da palavra viva e práxis conseqüente. Deus é dito em muitas formas de linguagem. Falar de Deus é falar de sua atuação na história e na profecia que fala em seu nome.
  • O contato relacional com Deus como fonte de fé e felicidade das pessoas acentua com propriedade a face da compaixão divina que se mostra eficaz na pessoa de Jesus Cristo. Na pessoa de Jesus Cristo encontramos um homem que, ao mesmo tempo, se sabe e se revela como Filho de Deus. Cristo é todo Deus e, contudo, chama Deus de Pai. É alguém diverso do Pai. Por outro lado, ele mesmo é a concreta proximidade de Deus que nos vem ao encontro: mediação de Deus para nós. Ele é Deus feito homem e o Deus conosco; isto significa que Deus vem ao nosso encontro como Filho e como irmão. Esta experiência relacional com Deus é inédita e segue finalmente o acontecimento do Espírito Santo, da presença de Deus em nós. E fica claro que este Espírito não é idêntico nem ao Pai, nem ao Filho, nem representa um terceiro entre nós e Deus, mas é a maneira como o mesmo Deus se nos doa. Em Cristo podemos falar de Deus assim como ele se revelou. Isto é possível em Jesus Cristo, pela força e luz do Espírito Santo. Este falar de Deus segundo Deus como pretensão relacional na vivência de fé das pessoas, aparece aqui como o especificamente teológico-cristológico que se mostra no nível antropológico e eclesial quando é acentuado da bondade divina na dimensão humana de Jesus tal como evoca a vivência relacional com Deus no dizer dos jovens.
  • A face de Deus para os jovens da Unicap, portanto, se mostra fundamentalmente encarnada na história humana, plasmada e mesclada por uma apreensão onde o divino e o humano se entram em tensão na realidade vulnerável humana que requer a necessidade de justificação pela fé e graça entre castigo e bondade, típicos da práxis religiosa da teologia da justificação.
  • Essas concepções entre um Deus criador, fonte de felicidade, bondade, mistério e castigo, podem abrir-se à interpretação de uma visão antropológica mesclada de simbologia mítica e situada numa compreensão teológica, mas referendada pela teologia tradicional tridentina, onde o dualismo entre mal e bem é apreendido como uma visão doutrinal dogmática agostiniana também presente no símbolo dos apóstolos (Credo).

Concluindo e voltando aos dados da Pesquisa, comparando as três Instituições sondadas pela Pesquisa: Família, Escola e Igrejas, na transmissão dos valores juvenis também religiosos, a Família é a mais forte (94,0%), vindo depois a Escola (61,0%) e por fim Igreja (51,7%), sendo, portanto a família mais forte que a Escola e a Igreja na transmissão dos valores (religiosos) aos jovens que têm suas próprias representações de Deus e do Seu agir no mundo como já se viu um pouco acima.

1.2 REPRESENTAÇÕES JUVENIS DE DEUS E DO SEU AGIR (Prof. Dr. Pe. Luiz Alencar Libório MSF)

Os valores religiosos pesquisados deixam transparecer as representações que os jovens fazem de Deus e de seu agir no mundo.

De fato, no que diz respeito aos valores religiosos, terceira parte da Pesquisa de campo (além dos valores familiares e escolares), boa porcentagem dos jovens tem uma representação de Deus como Criador (40,7%), Amor (11,3%), Ser Supremo (10,0%), Deus como Tudo (9,0%), Deus como Energia (3,3%), entre outras representações.

Com razão Freud critica essas imagens e representações de Deus quando afirma que as pessoas ainda estão muito pouco conscientes quanto ao modo como elas foram formadas.
Segundo ele:

  • Essas imagens e representações tradicionais de Deus que os nossos jovens têm são pré-fabricadas a partir da imagem de um pai castigador ou bonzinho, em lugar de surgir de uma visão própria e original e de uma decisão livre.
  • Muitas vezes, as experiências da primeira infância com os adultos, que aparecem como “deuses”, são positiva ou negativamente transferidas para Deus (antropomorfismo), de modo que, por trás da imagem e representação de Deus que as crianças e os jovens têm, está a imagem do próprio pai apesar de já ter sido reprimida ou esquecida, ocorrendo o mesmo com a  imagem da mãe na Mãe de Deus ou na Mãe-Igreja).
  • O Deus pai castigador é conscientemente usado como instrumento pedagógico para disciplinar os filhos, com efeitos negativos a curto e longo prazo sobre a religiosidade dos adolescentes e jovens.
  • Religião e sexualidade (esta freqüentemente reprimida pela religião) se encontram desde o início de tal sorte misturados que os conflitos religiosos parecem não ser outra coisa senão fixações em experiências do cenário familiar.

Os nossos jovens entrevistados representam Deus, sem dúvida, de um modo tradicional, e com certeza, muitas das afirmações de Freud, resumidas por Hans Küng, são verdadeiras em suas existências, tendo sido transmitidas essas representações principalmente pela família, Igrejas e muito pouco pelas escolas.

Numa pesquisa realizada com jovens por Mario Pollo, na Itália, sobre as representações juvenis de Deus, aparecem 7 (sete) categorias de representação de Deus, a saber:
1. Entidade abstrata e impessoal que se manifesta em a natureza ou na luz;
2. Amigo compreensivo que escuta e oferece conforto;
3. Pai que protege e ama o homem a ponto de sacrificar seu próprio filho para nossa salvação;
4. Pessoa boa, caridosa e que ajuda o homem;
5. É alguém que se manifesta na beleza da natureza e da arte;
6. Deus que é amor;
7. Deus concebido como homem (imagem antropomórfica).

Como se pode perceber no acima colocado, as representações de Deus não são mais produzidas só pelas Igrejas, mas por outras fontes, especialmente a mídia com seu grande poder de transformar os esquemas mentais do homem.

Os nossos jovens entrevistados afirmam que essas concepções e representações de Deus foram transmitidas pela família (37,7%), pela Igreja (33,3%), pela escola (13,7%) e através de outras pessoas (16,0%), confirmando esse pluralismo de fontes que geram representações interessantes.

Percebe-se, em nossa pesquisa,  como a Família e a Igreja são importantes na transmissão e educação dos valores religiosos (Família: 37,7%; Igreja: 33,3% → ambos: 71,0%), manifestando-se a Escola como ainda frágil nesse aspecto (13,7%).

Os jovens têm um relacionamento com Deus mais sentimental (39,0%) e afetuoso (34,0%). Ambos os relacionamentos são: 73,0%. Só 24,0% deles dizem que têm uma relação racional com Deus. Assim é confirmado que a religião mais popular é essencialmente “sentimento” que razão, mais entre as jovens que entre os jovens.
Muito bem afirma Libânio em relação ao modo juvenil de se relacionar com Deus:
No concreto da vida, acontece com a geração jovem pós-moderna uma privatização e individualização da religião a modo de kit religioso preparado com as práticas religiosas oferecidas no gigantesco supermercado de religiões da pós-modernidade. Presencia-se um pot-pourri religioso com ingredientes cristãos, orientais, africanos, indígenas, esotéricos, evangélicos, etc.

A ação de Deus no mundo acontece através das pessoas, das coisas e da natureza.

Na Pesquisa do CERIS (2002), também os valores religiosos de “sentir Deus diante da beleza da natureza” e de “sentir Deus em todos os momentos da vida” estão em consonância com a percepção de Deus dos jovens de nossa amostra que sentem Deus em tudo e em todos, especialmente em a natureza.

Na Itália, em Pesquisa feita entre os adolescentes e jovens, em 2003, constatou-se de modo menos acentuado essa representação de Deus como Criador dos céus e da Terra, mais entre as jovens que entre os jovens, talvez devida a toda uma visão científica que para muitos ainda contrasta com a visão religiosa antiga (criacionismo fixista e mágico).

A percepção de Deus como castigador é de 7,3% desta amostra que demonstra os resquícios de uma educação neurotizante por parte das famílias e das Igrejas, como tão bem criticou Freud.

As Igrejas são vistas, nessa Pesquisa, como a principal fonte da transmissão dos valores religiosos (51,7%) o que confirma o poder que a família ainda tem nesse campo aqui no Brasil, e talvez, na América Latina.

Os sete valores religiosos mais transmitidos pela Igreja e importantes são: Amor para com Deus (258), Amor ao próximo (250), Solidariedade (233), Orações (232), Ajuda aos pobres (223), Respeito aos outros (216) e os 10 mandamentos da Lei de Deus (195) entre outros.

Os valores religiosos percebidos como menos transmitidos pelas Igrejas são os seguintes: Coerência doutrinal (94), Contemplação (95), Amor às Escrituras Sagradas (97), Participação comunitária (102), Diálogo ecumênico (103) Partilha dos bens (112) e Política comunitária (126) e outros.

É interessante notar que só 4,3% afirmam que as Igrejas transmitiram valores espirituais (contemplação, meditação, místicos!) e 1,7% os valores da justiça e paz.

A fé verdadeira, nesta pesquisa, é concebida como sendo vivida individual e socialmente porque essas duas dimensões são complementares (98,0%). Isso é uma percepção muito boa por parte dos sujeitos da amostra.

O uso da mídia (0-10 horas) pelas Igrejas é de 82,6%. É bem parecido com o uso da mídia por parte das famílias (81,6%) e pela Escola (92,7%). 

Comparando com os valores familiares, é interessante observar que 79,0% disseram que a mídia não mudou os valores transmitidos pela Família por causa da formação sólida (coerência) e transmissão desses valores pela Família.

Para a grande maioria dessa amostra (240: 80,0%), a mídia não mudou os valores religiosos transmitidos pelas Igrejas. Portanto, a mídia não é tão poderosa para mudar os valores familiares, escolares e religiosos.

Só aproximadamente 13,3% afirmam a mudança dos valores religiosos pela mídia. Esta mudança aconteceu nos campos: sexualidade (virgindade, relacionamentos pré-matrimoniais, celibato), sentido da vida, mudança de religião, sincretismo religioso, solidariedade e outros.

A mídia mudou os valores religiosos negativamente (15,7%), positivamente (6,3%) e ambos (17,7%). A mídia tem o poder para mudar os valores positivamente e negativamente por muitas razões: base sólida ou não na formação religiosa, solidez ou não dos valores religiosos, consciência crítica, a fé é mais importante e outras.

Por exemplo, a Igreja é vista como tendo mais poder para mudar os valores religiosos (53,3%) que a mídia (39,7%).

Os canais de TV, vistos como mais positivos e importantes na transmissão e manutenção dos valores religiosos, são: Rede Vida, Canção Nova e TV Cultura.

Os programas percebidos como menos positivos nesse campo são: Programas de fofocas, Programas de auditório (Gugu, Faustão, Super Pop, João Kléber, Ratinho, Malhação, etc.), Novelas, Programas das Igrejas evangélicas e outros.

Os valores negativos que prejudicam as religiões no Brasil de hoje são: intolerância religiosa (84), falta de solidariedade (77), falta de participação de comunitária (68), falta de fé em Deus (63) e falta de amor (47) e outros.

Em relação à conservação dos valores transmitidos (a mídia não mudou os valores), as Igrejas ainda aparecem como a Instituição que tem os valores religiosos menos mudados pela mídia (13,3%), sendo seguida pela Família (19,3%) e finalmente pela Escola (32,3%).

Portanto, a mídia muda mais os valores escolares, depois os familiares e por fim os religiosos.

A mídia muda mais negativamente os valores familiares (especialmente no campo da sexualidade) e mais positivamente os valores culturais (Programas de Cultura Geral: TV Cultura), permanecendo os valores religiosos muito mais estáveis, mudando um pouco a freqüência às igrejas, vida de oração e observância de alguns mandamentos: não roubar, não matar, não adulterar, entre outros.

Mas como é que os jovens de nossa amostra percebem e vivenciam, do ponto de vista psico-religioso e cognitivo, os valores religiosos?É o que se verá a seguir.

2. MÍDIA E MUDANÇA DOS VALORES RELIGIOSOS JUVENIS
(José Carlos Costa Mourão Barbosa)

Entre parte consta de dois tópicos: 1) Análise psico-religiosa dos dados sócio-demográficos e 2) Fundamentação teórico-cognitiva da mudança dos valores religiosos pela Mídia.

2.1 ANÁLISE PSICO-RELIGIOSA DOS DADOS SÓCIO-DEMOGRÁFICOS

A maioria dos participantes (66,3%) declarou pertencer à religião cristã católica, se fazendo seguir por 14,7% que se afirmaram cristãos protestantes e 9% que se declararam espíritas, confirmando os dados do IBGE (2000) e da CERIS (2002).

As demais denominações religiosas (Budistas, Candomblé, Judaica, etc.) não apareceram com expressividade numérica.

Dois adendos são necessários, a saber: uma diminuição do contingente católico – 73,57% no Censo – e um aumento bastante significativo do contingente de seguidores do Espiritismo – 1,33% no Censo (I.B.G.E. 2000).

Tomando-se os Censos demográficos de dados de religião (2000) realizados na região nordeste e no Estado de Pernambuco temos, praticamente, números equivalentes.

Tais constatações se encontram de acordo com o que coloca o autor católico Mário de França Miranda quando este afirma que, nas hodiernas sociedades latino-americanas, pluralistas e secularizadas, o cristianismo católico tem visto diminuir sua influência juntamente com o seu número de fiéis, ao lado do conseqüente crescimento do número de adeptos de outras religiões e/ou seitas.

Para ele, algumas causas podem ser apontadas para esse fenômeno, destacando-se, dentre elas, a condição de transbordamento de significados e conteúdos simbólicos que as sociedades contemporâneas globalizadas assumem.

Tal condição, ensejando a coexistência de diferentes religiões – fontes de sentido e valores –, levou muitos católicos a deixarem de pensar a sua expressão religiosa como unívoca, passando a vê-la, antes, como apenas mais uma cosmovisão entre muitas outras.

Soma-se a isso o fato de que, muitas vezes, a práxis dos representantes da Instituição católica se mostra dissociada do discurso propalado, o que tem levado muitos fiéis a um sentimento de desilusão e desamparo que, somado à condição ontológica de insegurança e desamparo que o mundo pós-moderno tem gerado os faz procurar refúgio em outras expressões religiosas.  

Diante disso, faz-se oportuna a reflexão de J. B. Libânio, em concordância perfeita com as colocações de Gianni Vattimo, nas quais estes asseveram que o Cristianismo e a Igreja, inserida num mundo globalizado – e, portanto, pluralista –, precisa - para atender aos anseios religiosos de um ser humano, muitas vezes, perplexo e aturdido como o é o sujeito pós-moderno - encetar e manter uma postura ecumênica e de diálogo inter-religioso em relação às demais religiões que crescem em número de fiéis e que representam o modo de aproximação do “Transcendente” escolhido por cada um.

Como coloca muito bem Vattimo, o Cristianismo – pautado, portanto, na Pessoa do Cristo Jesus – fornece ao mundo contemporâneo uma proposta excelente e libertadora, mas não necessariamente porque esteja assentado numa cosmovisão unívoca – portanto excludente de outras cosmovisões -, mas porque se assenta em valores altamente desejáveis e necessários nos dias de hoje, a saber, o amor, a fraternidade e a caridade.    

Considerando-se o fato de que a maioria dos participantes (70,5%) possui entre 18 e 21 anos de idade, e que 59% afirmam pertencer à sua religião (comunidade de fé) há – levando em conta a numericamente menos expressiva das probabilidades –, no mínimo, 16 anos, pode-se inferir que a maioria dos participantes permanece atrelada à religião em que “nasceu”, por assim dizer, querendo com isso indicar uma influência preponderante da experiência familiar.

Tal achado encontra-se em pleno acordo com os dados revelados pela pesquisa “Mídia e valores familiares: abordagem psicossocial”.   Tais dados apontam para uma clara prevalência da instituição familiar enquanto fonte e instância reguladora de conteúdos axiológicos, sobrepondo-se, nesse quesito, à influência dos meios de comunicação de massa.

Some-se a isso o fato de que, para 37,7% dos participantes, a concepção de "Deus” é proveniente, sobretudo da família, tendo ficado a religião com menos porcentagem, ou seja, a de 33,3% nesse quesito.

Tudo isso demonstra, a nosso ver, a importância da experiência familiar, enquanto estruturante do psiquismo do indivíduo, para a vivência religiosa (religiosidade) subjetiva, pelo menos num primeiro momento do processo de maturação psicológico-existencial/espiritual.

Aliás, tal constatação encontra ressonância na obra de Sigmund Freud, quando este afirma que a religião corresponderia, na verdade, à uma forma de neurose transferencial na qual o sujeito transmite à figura de Deus os sentimentos – bem ou mal-elaborados – remanescentes das relações primevas com as figuras parentais, sobretudo a do pai.

Encontrar-se-ia nessas considerações freudianas a explicação para o relacionamento imaturo que muitos indivíduos mantêm com a religião, vivendo-a de maneira pouco consciente, exatamente porque condicionada por conteúdos inconscientes.

Tais conteúdos - encontrados, entre outros, naquilo que Carl Gustav Jung  designou como “sombra psicológica” do indivíduo - o impedem, enquanto permanecem inconscientes, de estabelecer uma relação de maior lucidez com a religião, com Deus, consigo mesmo – fruto direto do desconhecimento de si mesmo –, com os outros e com o mundo natural, decorrências inevitáveis dos fatores anteriores.      

Tal condição de imaturidade religiosa, a nosso ver, pode ser pensada como estando no cerne da “insegurança ontológica” característica do sujeito pós-moderno conforme descrito não apenas pelo sociólogo Bauman, mas também por muitos outros autores provenientes de âmbitos diversos, tais como os teólogos Mário de França Miranda (S.J.) e Leonardo Boff e os psicanalistas Gilberto Safra, Mario Eduardo Costa Pereira, Joel Birman e Luis Cláudio Figueiredo, apenas para citar alguns dentre aqueles cujas contribuições assumem maior relevo no pensamento da atualidade.

Em contraposição a tal condição, ao mesmo tempo fomentada e fomentadora do materialismo, da descrença, do individualismo e, conseqüentemente, de sofrimentos psíquicos de larga monta: transtornos neuróticos, fóbicos, ansiedade generalizada, anorexia, bulimia, depressão, etc., bem como das misérias sociais: desemprego, fome, desigualdade social, altos índices de violência, etc., e das ameaças ecológicas ao nosso lar terrestre que por agora ocupam o centro das atenções dos governos ao nível global.

Podemos encontrar, enquanto propostas libertadoras, o convite à reflexão e ao amadurecimento psicológico-existencial/espiritual que se encontram expressos em diversas fontes, religiosas e não-religiosas, tal como é o caso do conceito de “individuação” de Jung, da estrutura conceitual de “amizade” desenvolvida por Hanna Arendt enquanto abertura para a alteridade ou as concepções de “caridade” e de “respeito à alteridade” proposta por Gianni Vattimo, um dos mais aclamados hermeneutas da atualidade.

2.2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-COGNITIVA DA MUDANÇA DOS VALORES RELIGIOSOS PELA MÍDIA

No âmbito das religiões, as proposições dessa espécie são inúmeras, desde a proposta cristã (mais conhecida no Ocidente) - que conclama os fiéis a atingirem a maturidade psico-espiritual, através de afirmações como as encontradas em Mateus 10, 37-38 e Lucas 14, 26-27 , nas quais se assevera a importância de se “desapegar” de “pai e mãe” (figuras parentais) para se tornar seguidor do Cristo, - até as proposições budistas orientais que enfatizam o desapego e o amor à toda a criação como princípios fundamentais da espiritualidade.

Contudo, importa explicar que, tanto nos postulados religiosos ocidentais como nos orientais, o “desapego” referendado não corresponde – como muitos erroneamente o compreendem – a uma insensibilidade em relação às coisas ou aos entes queridos.

Ao contrário, esse “desapego” significa apenas amá-los a partir de uma plataforma psicológico-existencial/espiritual amadurecida e lúcida.

Em outras palavras, significa amar em plenitude, a partir de si mesmo, sem as projeções neuróticas que moldam os relacionamentos de grande contingente de pessoas, trazendo-lhes atropelos e dissabores os mais diversos e reclamando o concurso valioso e eficaz de terapeutas de denominações diversas: psicanalistas, terapeutas familiares, psicólogos existenciais, psiquiatras entre outros.

Conquanto a família tenha aparecido, na Pesquisa entre os universitários da Unicap, como mais importante na transmissão da concepção de “Deus” do que a instituição religiosa, mais da metade deles afirmou que esta – a religião – foi a principal fonte de seus valores existenciais e espirituais.

Assim, parece-nos pertinente indagar qual seria a relação entre a concepção de “Deus” e esses valores, posto que enquanto aquela provém principalmente da família, estes provêm principalmente da instituição religiosa.

Além disso, sabe-se que a concepção de “Deus” (“Divino”, “Transcendente”), enquanto Causa primeira de todas as coisas - nas grandes tradições teológicas ocidentais e orientais - é o eixo central sobre o qual se apóiam todos os seus preceitos e postulados. 

Outro ponto importante de análise decorre da questão acima apresentada, a saber, o fato de que, pressupondo-se que os participantes, ao afirmarem que a Igreja/religião, considerada enquanto Instituição propriamente dita – sem levar em consideração a utilização de mecanismos midiáticos – foi a principal responsável pela aquisição de seus valores espirituais e existenciais, fica descaracterizada a colocação de Sá Martino que afirma que, para uma instituição religiosa subsistir e se perpetuar nas sociedades hodiernas, faz-se indispensável que essa lance mão dos expedientes midiáticos.

Tal se depreende naturalmente, posto que, conforme já dissemos, para mais de metade dos respondentes, a instituição religiosa em si mesma parece ter sido a principal fonte de valores religiosos e existenciais.

Essa evidência põe igualmente em questão a afirmativa de J. B. Libânio na qual este assevera que a linguagem utilizada pela Igreja contemporânea encontra-se envelhecida – e enfraquecida –, entre outras razões, pelo fato de esta (Igreja) não saber manejar a cultura da imagem no contexto sociocultural da atualidade, cuja característica tem sido a assunção de uma condição que John B. Thompson denominou como “cultura mediada”.

Em tal conjuntura macrossocial, na qual se processa com inusitada velocidade  (embora não mais tanto!) uma série de revoluções e desenvolvimentos extraordinários - no âmbito da comunicação (informática, telemática, robótica, microeletrônica, etc.) – que produzem, por sua vez, transformações nos modos de subjetivação e conseqüentemente na mentalidade social.

Contudo, convêm asseverar agora, sob pena de incorrermos em uma apreciação parcial e fragmentária da situação real, que não queremos, com as precedentes colocações, banir totalmente o reconhecimento de uma necessidade - por parte das instituições (religiosas ou não), – de se apropriarem e de se utilizarem os novos modos de transmissão e/ou interações simbólicas a fim de se adequarem às necessidades que os tempos de agora impõem.

Longe disso! A nossa intenção contributiva se centra na chamada de atenção, para além dos postulados pós-modernos que superestimam o poder da mídia – embora estes estejam, no mínimo, parcialmente corretos, – para a importância das interações simbólicas não-midiadas no processo de construção, aquisição e manutenção dos valores (religiosos ou não) que circulam na sociedade.

Noutras palavras, os resultados empíricos obtidos através da aplicação de nossa Pesquisa de Campo - durante o exercício de Iniciação Científica (PIBIC) 2004/2007 - nos permitem deduzir que - embora os meios de comunicação apresentem considerável poder (igualmente ou mais) no que se refere aos processos macrossociais de natureza axiológica, - o têm também as interações sociais diretas – “face a face” –, seja no âmbito familiar, escolar ou no das instituições religiosas.      

Ao discorrerem acerca da influência da mídia na mudança dos valores religiosos, os participantes revelaram a seguinte situação: ao se referirem aos seus próprios valores religiosos, a maioria (80%) afirmou que a mídia não os mudou, mas, ao falarem da influência da mídia na mudança dos valores religiosos, em geral, esse número caiu para 60,3%.

Assim, desses 39,7% que afirmaram que a mídia mudou os valores religiosos de uma maneira geral, uma boa parte (15,7%) apontou para uma influência de caráter mais negativo, predominando as referências ao fomento do individualismo, do consumismo, do desrespeito e da banalização da violência.

Entre aqueles que identificaram uma influência de caráter mais positivo por parte da mídia – 6,3% – fizeram-se menções ao estímulo do desenvolvimento da consciência crítica, à expansão dos “horizontes” a partir da riqueza – qualitativa e quantitativa – das informações e a um estímulo da solidariedade.

Destarte, tomando como referência teórica o trabalho de Meunier podemos pensar os tempos hodiernos como tempos que se caracterizam – entre muitos outros aspectos – por céleres – ou mesmo vertiginosas – mudanças nas estruturas representacionais socialmente circulantes, conteúdos simbólicos de âmbito macrossocial que, por sua vez, provocam mudanças correspondentes nos modos de subjetivação e conseqüentemente nas estruturas cognitivas dos indivíduos.

É evidente a influência do projeto neoliberal e dos valores a ele agregados – individualismo, hedonismo, consumismo, narcisismo, etc. - nessas mudanças, de maneira tal que se têm observado o seguinte panorama:

(...) Uma crise e inversão na vivência dos valores com o domínio do efêmero sobre o duradouro, a ênfase do individualismo sobre a dimensão social e a supremacia do hedonismo sobre um equilíbrio responsável da vida afetivo-sexual.    

Assim, considerando-se que as detecção e análise de tal “inversão de valores” – dada a sua carência de comprovação empírica ao lado de uma vultuosa produção teórica – eram objetivos de grande importância para a presente pesquisa, pôde-se constatar o seguinte fenômeno: a “inversão de valores” assinalada por Presvelou – além de muitos outros autores, nacionais e estrangeiros – se caracterizou apenas nos momentos nos quais os participantes foram chamados a falar de maneira impessoal.

Em outras palavras, ao se referirem aos próprios valores, os participantes revelaram um universo axiológico que, a nosso ver, pode ser concebido como “ideal”, no sentido de “desejável”, quer dizer, um universo composto fundamentalmente por valores positivos.

Contudo, ao se referirem aos quadros axiológicos sociais – portanto, dos outros! – e, sobretudo à influência da mídia na mudança dos valores, revelaram um quadro precisamente ajustado às assertivas exaradas por Presvelou e Rauget, as quais, aliás, correspondem às observações de muitos outros autores de variados âmbitos – cientistas sociais, psicólogos, pedagogos, etc. –, tais como Fritjof Capra, José Roque Junges (SJ) e Charles Melman, para citar apenas alguns.

Também Piaget em seu artigo Commentaire sur les remarques critiques de Vygotsky fala do alto poder de “descentração” que o jovem tem diante da mídia, ao veicular os valores, especialmente, os  afetivos (religiosos).

Também Piaget com Inhelder fala desse período de “descentração” que consiste essencialmente em ser crítico e sair de si mesmo para reformar a sociedade com ideais e valores políticos e religiosos.

Tal fenômeno fica claro quando os participantes, ao arrolarem os seus principais valores existenciais/espirituais, citam com significativa expressividade numérica valores como: “Amor a Deus” (41%), “Solidariedade” (29%), “Amor ao próximo” (25,7%) e “Tolerância” (21,7%).

No entanto, quando convidados a falarem sobre a influência da mídia sobre a mudança dos valores religiosos, bem como sobre a maneira como vivenciam e representam (descrevem) essa mudança, predominaram as referências ao fomento e à prevalência social do individualismo, do consumismo, do hedonismo e do materialismo, além das referências à falta de solidariedade e de fé em Deus.   

CONCLUSÃO

As concepções  e representações de Deus,  por parte dos jovens da Católica que vivem também numa cultura da subjetividade e num mundo secularizado, não poderiam ser outras senão aquelas que lhes foram transmitidas por suas famílias, Igrejas e escolas, embora eivadas também de visões panteístas, panenteístas e sincréticas bem típicas das raças  miscigenadas desse país.

A face de Deus apresenta-se, pois, com variados matizes desde a de criador até a de punidor passando pela concepção de energia, luz, bondade, etc.

As representações de Deus são de cunho antropomórfico, mas também concebido como a natureza, tudo, a coisas, etc., demonstrando a fraqueza da catequese (se a tiveram!) e a falta de um conhecimento profundo de Deus a partir da Bíblia sagrada e das Tradições cristãs.

Um não conhecimento mais profundo da identidade de Deus só pode levar esses jovens a um relacionamento não realizador com esse Pai, muitas vezes projeção do pai da terra como afirmou Freud (Feuerbach).

A Pesquisa de campo nos revela, pois, uma riqueza de dados sobre os quais devemos nos debruçar para preparar um futuro melhor para a humanidade a partir da juventude, futuro de um pais pela vivência da solidariedade e de valores duradouros.

De um lado, no entanto, vemo-nos obrigados a reconhecer que a riqueza fornecida pelos dados desta pesquisa permanece ainda não explorada totalmente.

De outro lado, podemos dizer que, numa cultura na qual se têm assistido a predominância de valores inadequados à promoção de saúde, bem-estar e auto-realização humanos, o fomento de valores mais adequados a esses desideratos – tais como fraternidade, priorização do duradouro ao invés do efêmero, amor e a não-violência, entre outros - faz-se urgentemente premente.

E a mídia, enquanto poderoso instrumento – embora sem a “onipotência” que às vezes se lhe atribui – no processo de formação, transformação, transmissão e manutenção de valores - pode e deve, ao nosso ver, ser compreendida como portadora de valiosas possibilidades iluminadoras do espírito humano hoje e no futuro.

Em suma, como se pode observar, os jovens, nesta fase formal, têm uma percepção crítica da realidade e do fenômeno estudado: o poder da Família e das Igrejas versus Mídia.

As percepções, vivências e representações nas mentes (fenomenologia) dos jovens parecem ser muito verdadeiras, em nível cognitivo, especialmente como estudantes da classe econômica média e alta da sociedade recifense.

Os jovens, diante de um mundo pluralista, também no campo religioso, e da inversão de valores (hedonismo, domínio do efêmero, individualismo, etc.) ainda conservam bastante fidelidade aos valores religiosos transmitidos pelas famílias e Igrejas e uma boa adesão à sua Igreja, cujos valores foram muito pouco mudados entre os sujeitos dessa amostra universitária.

Na formação de sua personalidade, na fase das abstrações, um grande poder de “descentração”, no que diz respeito ao fenômeno religioso, tem acontecido com os jovens entrevistados não se deixando levar tanto pelas ondas midiáticas nem sempre favoráveis à dimensão religiosa do homem e dos jovens.

Esses resultados concretizam os Objetivos Geral e Específicos que visavam identificar e elencar os valores religiosos, mudados ou não pela mídia, bem como o poder de mudança desses valores pela mídia e o como dessa mudança ou conservação dos valores.

A expectativa inicial era a de que a mídia mudasse muito mais esses valores.

Sinteticamente, a Família é a grande Instituição da sociedade a transmitir (1º lugar) e conservar (2º lugar) os valores transmitidos, tendo os seus valores familiares mudados mais no campo da sexualidade e religiosidade.

A Escola, apesar de ser a segunda Instituição da sociedade a transmitir valores educacionais e culturais, é a que teve seus valores mais mudados negativamente pela mídia, sendo positiva a dimensão cultural que a mídia veicula.

A Igreja é a terceira Instituição da sociedade a transmitir valores e é a que menos teve seus valores religiosos mudados, sendo seguida pela Família e pela Escola.

A Igreja e a Família aparecem como as grandes Instituições que sustentam, em nível axiológico, a nossa sociedade recifense, nordestina e brasileira.

De um modo geral, o poder da mídia é visto como mais destruidor que construtor dos valores da Família, das Igrejas e da Escola.

É gratificante saber que, fenomenologicamente, às mentes dos jovens entrevistados, a Família, as Igrejas e a Escola ainda são muito importantes na transmissão e conservação dos valores que norteiam os nossos jovens da UNICAP e certamente do Brasil de hoje.

Do ponto de vista psicológico-cognitivo, os jovens da amostra têm um alto poder de crítica (décentration), evidenciando a vivência o mais plena possível da fase formal piagetiana, em excelente nível de maturação biopsíquica.

Possa esta pesquisa incentivar as Igrejas a elaborarem estratégias mais realistas no trato com seus clientes, contribuindo para a construção de uma nova sociedade psicossocial e eticamente mais realizadora e libertadora!

REFERÊNCIAS:

Livros:
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Chodron, T. O que é Budismo. Rio de Janeiro: Nova era. 2004. 225p.
Guareschi, Pedrinho A. Os construtores da informação: meios de comunicação, ideologia e ética. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
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Libânio, J.B. Jovens em tempo de pós-modernidade: considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Loyola, 2004. 242p.
Martino, Luís Mauro Sá. Mídia e poder simbólico: um ensaio sobre comunicação e campo religioso.  São Paulo: Paulus, 2003. – (Comunicação).
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Revista:
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Internet:
Velloso, M. P. “Razão e sensibilidade: o tema da amizade na escrita modernista”.  Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Número 6 - 2006, mis en ligne le 16 mars 2006, référence du 3 décembre 2006. Disponible sur: <http://nuevomundo.revues.org/document1919.html>.
Acesso em: 20 jan. 2007, 20:30:45.

 

 
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