Ano 1, n. 2, Jul./Dez. 2010 (ISSN 2178-8162)

Apresentação

Quem disse que religião é algo que não se discute? Em nosso Mestrado de Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco, desenvolvemos uma ciência que se constitui um conjunto de aquisições intelectuais cuja finalidade é propor um exercício racional sobre a realidade.

Qual a realidade que estamos tentando discutir em nossas pesquisas? Partimos de uma realidade que se nos manifesta em diversos modos de religiosidade, assim como nas mais variadas formas de entendimento sobre o mistério do sagrado, guiados por uma epistemologia que se desenvolve a partir da controvérsia[1].

O que nos motiva em nossas pesquisas é a necessidade de “fomentar a nossa capacidade natural de não estar de acordo”[2], através da proposta dascaliana.

Os textos que se encontram nesta revista advêm da lente das Ciências da Religião, no momento em que a Revista Paralellus propõe, de forma crítica, conhecer melhor fenômenos de religiosidade através de uma estrutura científica e interdisciplinar formada por várias ciências, como a Antropologia, a Filosofia, a História, a Psicologia, a Sociologia e outras.

A análise do fenômeno religioso ocorre no momento em que o cientista da religião revela aspectos divergentes em cada uma das manifestações do sagrado, não o examinando do ponto de vista da fé, mas sempre à luz da ciência, sem examinar a verdade do discurso, mas a validade científica dos argumentos, o que desperta uma curiosidade que rompe os muros da dogmatização.

Hoje, já não cabem mais determinadas discussões acerca de quem possui a verdade, mas sim de quem é verdadeiro. Hodiernamente, vidas são esvaídas pela fome e pela miséria em todo o mundo. A humanidade clama por socorro e, mais precisamente, por um compromisso social que envolve direta e indiretamente os diversos grupos religiosos, sem qualquer forma de proselitismo. O extremismo religioso não tem mais espaço numa sociedade globalizada e informatizada, em que o fanatismo e o dogmatismo religioso não podem mais impedir que outras vozes se pronunciem.

Por isso, percebe-se a necessidade de dizer que estamos abertos para um aprendizado diário, que se baseia em conhecimentos iluminados por diversos líderes religiosos, assim como, por grandes mestres envolvidos com importantes pesquisas no campo científico. “É necessário que a ciência desça do pedestal e que a religião promova a percepção da coletividade e a busca da humana-unidade”[3].

Em suma, destacamos a heterogeneidade disciplinar das propostas e reflexões apresentadas, assim como um diálogo intertextual, que reflete o caráter transdisciplinar e socialmente transversal do fenômeno religioso.

É com prazer que apresentamos os artigos aprovados pelo conselho científico da Revista Paralellus e que muito podem colaborar para um debate salutar em nossa sociedade, permeada por uma multiplicidade de “verdades”.

São eles: “O Momento do Transe como “verificação teológica” e transfestação da existência: liberdade da alma e do corpo”, de Celeide Agapito Valadares Nogueira; “A construção de poder no matriarcado na base sacerdotal afro-brasileira: mormatização das Casas de Culto de Matriz Iorubá, no Recife e em Salvador, a partir de estudos em Abeokuta, na Nigéria”, de Claudia Lima. “A mulher na Igreja da América Latina depois do Concílio Vaticano II”, de Janice Marie Smrekar Albuquerque; “Convergências e divergências entre as experiências de quase-morte e a visão judaico-cristã”, de Julio Cezar Lazzari Junior; “Conhecendo a Wicca: princípios básicos e gerais”, de Karina Oliveira Bezerra; “A dimensão mágica da vida religiosa contemporânea: conceitos e contextos”, de Lucas Farias de Vasconcelos Leite; “Renovação Carismática Católica e os pecados da luxúria”, de Luciane Cristina de Oliveira; “Iniciação cristã na Igreja Antiga”, de Luis Carlos de Lima Pacheco; “Igreja Messiânica Mundial do Brasil: uma promessa de paraíso na terra”, de Francisca Niédja; “Novos desafios do fazer teológico para um novo contexto social”, de Ronaldo Robson Luiz; “A ação evangelizadora na sociedade contemporânea em uma escola em Pastoral”, de Sandro Roberto de Santana Gomes; “Jesus Cristo: imagem arquetípica do si-mesmo?”, de Soraya Cristina Dias Ferreira.

Esta revista se lança em nossa sociedade com uma proposta aberta ao diálogo, constituída através das diferenças que permeiam as relações humanas e que se baseiam numa vertente crítica, prevalecendo o respeito ao próximo, à sua cultura e à sua religiosidade.

 

Carlos Alberto Pinheiro Vieira
Mestrando em Ciências da Religião – UNICAP
Coordenador editorial da Revista Paralellus


 

[1] Segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, “Um campo específico em epistemologia contemporânea desdobrado a partir das investigações Kuhnianas é o estudo conceitual e empírico-histórico das controvérsias, tal como vem sendo desenvolvido por Marcelo Dascal e seu grupo de pesquisa em controvérsias científicas, teológicas e filosóficas no período compreendido entre os anos de 1600 e 1800 na Europa ocidental. Focalizando o que chamaria de crises como sendo o eixo central do modo como se dá a construção das teorias em ciência, e a resolução (ou não) destas via apreciação da dialética dos argumentos (a controvérsia em si, no caso de um estudo empírico em particular), penso que seria consistente descrever o seguinte cenário específico: o campo científico de estudos do fenômeno religioso é um caso clínico típico de controvérsia, e se tratado como tal poder-se-á, talvez, esclarecer (no sentido de torná-las mais iluminadas) algumas das mais importantes questões epistemológicas (e metodológicas) em questão na nossa prática” (Pondé, Luiz F. Em busca de uma cultura epistemológica. In: Teixeira, F. As ciências da religião no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2001, pg. 17).

[2] DASCAL, Marcelo.  A autonomia é uma ilusão. Revista IHU on-line, São Leopoldo, RS, Ed. 274,  p. 24-26, set., 2008.

[3] Texto extraído do site <http://www.cienciaereligiao.org.br/2007/07/ciencia-religiao-e-desenvolvimento-perspectivas-para-o-brasil/> em 24/05/2011

 

Baixe a edição atual da Revista [aqui]

Publicado em Edição Atual | Deixar um comentário

Ano 1, n. 1, jan./jun. 2010 (ISSN 2178-8162)

Apresentação

O conceito de Ciências da Religião, cunhado por Max Müller (1823-1900), deu origem a uma área acadêmica que busca esclarecer a experiência humana do sagrado. Sobre a base da história geral das religiões, ergue-se o estudo comparativo das religiões, que aborda as religiões e seus fenômenos com questionamentos sistemáticos. Ele forma categorias genéricas e se esforça para apreender o mundo dos fenômenos religiosos de tal modo que transpareçam linhas fundamentais, sobretudo fazendo uso da fenomenologia. Enquanto a história das religiões constitui a base das Ciências da Religião, a pesquisa sistemática das religiões deve mostrar semelhanças e diferenças de fenômenos análogos (sobre o sagrado) em diversas religiões e apresentar a hermenêutica dos “textos” sacros em seus contextos. As relações entre religião e suas condições contextuais são então aclaradas por distintas disciplinas.

O campo de conhecimento das Ciências da Religião é, assim, interdisciplinar e recebe colaborações teóricas (e estudantes) das áreas de História e de Hermenêutica, das disciplinas Sociologia, Antropologia e Psicologia, bem como a Filosofia, Linguística e Teologia – exigindo, contudo, que tais aportes metodológicos sejam redimensionados epistemologicamente com base na comparação empírica dos fatos e na busca hermenêutica de significados, através de uma lógica dialogal (as Ciências da Religião se articulam em torno da cultura epistemológica das controvérsias). De modo que pesquisadores daquelas diversas áreas são bem-vindos às pós-graduações em Ciências da Religião e podem produzir trabalhos com enfoques desde as suas graduações, bastando que se coloquem questões atingíveis fenomenologicamente e trabalháveis hermeneuticamente.

O nosso Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP, pioneiro no Nordeste brasileiro, promove pesquisas sobre as religiões nos seus contextos histórico, social e cultural. Recorre ao instrumental teórico fornecido pelas ciências, sobretudo humanas, para, de forma interdisciplinar, analisar as diferentes manifestações de religiosidade, na sua relação com a cultura e a sociedade. Os estudos transcorrem em dois anos, ao longo dos quais o estudante cursa disciplinas e seminários, além de preparar e defender uma dissertação. O edital para seleção de nova turma é lançado no final do ano, mas o Programa acolhe estudantes para atividades isoladas em qualquer tempo (maiores informações estão disponíveis no blog http://crunicap.blogspot.com).

Como marco do aprofundamento dessa história de pesquisas em Ciências da Religião no Nordeste e na UNICAP, e como fruto de esforços dos estudantes da quinta turma do nosso Mestrado (especialmente dos coordenadores da iniciativa, Carlos Vieira e Mariano Filho), em colaboração com os seus professores, está sendo lançada a Revista Paralellus: uma revista eletrônica dos estudantes e mestres de Ciências da Religião da UNICAP, aberta a mestrandos/doutorandos de outros Programas de Pós-graduação na área. O nome da revista foi escolhido em enquete pública na internet: 65 pessoas participaram e 32% dos votos elegeram “Paralellus”. Paralelo é todo círculo menor perpendicular ao eixo terrestre e, portanto, paralelo ao Equador. Os paralelos ajudam a nos situar geodésica e até astronomicamente. As suas linhas imaginárias ajudam a nos situar no espaço, assim como os conceitos correlatos de sagrado e de profano também nos ajudam a encontrar e interpretar fenômenos religiosos através da história.

Como coordenador do Mestrado e vibrador com os estudos em Ciências da Religião na UNICAP, saúdo a Revista Paralellus e aos seus coordenadores pela estreia; agradeço à comissão editorial nas pessoas de Lílian Oliveira da Costa e do Prof. Fernando Castim, desejando que este número inaugural seja o primeiro de muitos outros, como desaguadouro acadêmico do esforço concertado dos nossos estudantes com os seus orientadores, em nossos diversos grupos de estudo e pesquisa.

O primeiro número da Revista é aberto pelo nosso douto Mestre e grande amigo, Jorge Cândido, que esteve presente em quase todas as defesas de dissertações do nosso Mestrado. Mesmo quando não estava lá no auditório, sentia-se a sua presença na correção dos textos e na assessoria aos mestrandos. Então, outro dia, pedimos-lhe para aproveitar as notas do seu caderno e fazer um balanço da nossa produção acadêmica: como vai o Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP? Quais os frutos do seu festim científico? A resenha que o nosso “observador privilegiado” fez das dissertações ficou tão boa, que os estudantes resolveram publicá-la integralmente como primeiro artigo da sua Revista.

Seguem-se os artigos aprovados pelo conselho científico da Revista. Helenismo versus judaísmo: limites e tensões do corpus paulinus, de Ronaldo Robson Luiz; O amor como fundamento da ordem social em Santo Agostinho, de Carlos Alberto Vieira; Transformações do cristianismo brasileiro e o pentecostalismo católico, de Rogério Fernandes da Silva; Uma pregação pentecostal, de Érica Carvalho da Silva e Júlio César Dias; Entre memória e história: o sítio histórico terreiro de Pai Adão através da perspectiva de Pierre Nora, de Alexandre José Campello; A mulher fazendo teologia, de Maristela Ferreira Velozo; Heidegger e o amor cristão, de José João Vicente e José Reinaldo Filho; A teologia do processo de Whitehead, de Ednaldo Isidoro da Silva; Um novo movimento religioso na sociedade pós-moderna secularizada: o fenômeno das mensagens de conteúdos humanísticos e espirituais que circulam através de e-mail, de Valter Luís de Avellar.

Um simples passeio pelos títulos já indica a riqueza de temas e abordagens dos nossos estudantes da UNICAP e dos seus amigos mestrandos e mestres. Eles se esforçam para dar conta da complexidade do fato religioso, no complexo mundo em que vivemos. A modernidade esperava o fim do sobrenatural e veio a irresistível individualização do religioso, que constrói espaços de fluxos mais-que-naturais para descobrir a dimensão sagrada da vida, acolhe tempos virtuais para se religar com o eterno. Novos lugares de êxtase, tribais ou pentecostais, reconfiguram-se. Mas a religiosidade que emerge é mais de baixo para cima ou, melhor ainda, na direção do mistério que se esconde e manifesta “entre e além”.  A religião até então tinha a ver só com credos e doutrinas, enquanto a religiosidade agora é uma espécie de wiki-teologia, pluralista. Que este número plural – e os próximos – de Paralellus nos ajudem a encontrar linhas para esquadrinhar tudo isso.

Prof. Dr. Gilbraz de Souza Aragão
Coordenador do Mestrado em Ciências da Religião – UNICAP

Clique Aqui e baixe a edição atual da Revista

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário