Apresentação
Quem disse que religião é algo que não se discute? Em nosso Mestrado de Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco, desenvolvemos uma ciência que se constitui um conjunto de aquisições intelectuais cuja finalidade é propor um exercício racional sobre a realidade.
Qual a realidade que estamos tentando discutir em nossas pesquisas? Partimos de uma realidade que se nos manifesta em diversos modos de religiosidade, assim como nas mais variadas formas de entendimento sobre o mistério do sagrado, guiados por uma epistemologia que se desenvolve a partir da controvérsia[1].
O que nos motiva em nossas pesquisas é a necessidade de “fomentar a nossa capacidade natural de não estar de acordo”[2], através da proposta dascaliana.
Os textos que se encontram nesta revista advêm da lente das Ciências da Religião, no momento em que a Revista Paralellus propõe, de forma crítica, conhecer melhor fenômenos de religiosidade através de uma estrutura científica e interdisciplinar formada por várias ciências, como a Antropologia, a Filosofia, a História, a Psicologia, a Sociologia e outras.
A análise do fenômeno religioso ocorre no momento em que o cientista da religião revela aspectos divergentes em cada uma das manifestações do sagrado, não o examinando do ponto de vista da fé, mas sempre à luz da ciência, sem examinar a verdade do discurso, mas a validade científica dos argumentos, o que desperta uma curiosidade que rompe os muros da dogmatização.
Hoje, já não cabem mais determinadas discussões acerca de quem possui a verdade, mas sim de quem é verdadeiro. Hodiernamente, vidas são esvaídas pela fome e pela miséria em todo o mundo. A humanidade clama por socorro e, mais precisamente, por um compromisso social que envolve direta e indiretamente os diversos grupos religiosos, sem qualquer forma de proselitismo. O extremismo religioso não tem mais espaço numa sociedade globalizada e informatizada, em que o fanatismo e o dogmatismo religioso não podem mais impedir que outras vozes se pronunciem.
Por isso, percebe-se a necessidade de dizer que estamos abertos para um aprendizado diário, que se baseia em conhecimentos iluminados por diversos líderes religiosos, assim como, por grandes mestres envolvidos com importantes pesquisas no campo científico. “É necessário que a ciência desça do pedestal e que a religião promova a percepção da coletividade e a busca da humana-unidade”[3].
Em suma, destacamos a heterogeneidade disciplinar das propostas e reflexões apresentadas, assim como um diálogo intertextual, que reflete o caráter transdisciplinar e socialmente transversal do fenômeno religioso.
É com prazer que apresentamos os artigos aprovados pelo conselho científico da Revista Paralellus e que muito podem colaborar para um debate salutar em nossa sociedade, permeada por uma multiplicidade de “verdades”.
São eles: “O Momento do Transe como “verificação teológica” e transfestação da existência: liberdade da alma e do corpo”, de Celeide Agapito Valadares Nogueira; “A construção de poder no matriarcado na base sacerdotal afro-brasileira: mormatização das Casas de Culto de Matriz Iorubá, no Recife e em Salvador, a partir de estudos em Abeokuta, na Nigéria”, de Claudia Lima. “A mulher na Igreja da América Latina depois do Concílio Vaticano II”, de Janice Marie Smrekar Albuquerque; “Convergências e divergências entre as experiências de quase-morte e a visão judaico-cristã”, de Julio Cezar Lazzari Junior; “Conhecendo a Wicca: princípios básicos e gerais”, de Karina Oliveira Bezerra; “A dimensão mágica da vida religiosa contemporânea: conceitos e contextos”, de Lucas Farias de Vasconcelos Leite; “Renovação Carismática Católica e os pecados da luxúria”, de Luciane Cristina de Oliveira; “Iniciação cristã na Igreja Antiga”, de Luis Carlos de Lima Pacheco; “Igreja Messiânica Mundial do Brasil: uma promessa de paraíso na terra”, de Francisca Niédja; “Novos desafios do fazer teológico para um novo contexto social”, de Ronaldo Robson Luiz; “A ação evangelizadora na sociedade contemporânea em uma escola em Pastoral”, de Sandro Roberto de Santana Gomes; “Jesus Cristo: imagem arquetípica do si-mesmo?”, de Soraya Cristina Dias Ferreira.
Esta revista se lança em nossa sociedade com uma proposta aberta ao diálogo, constituída através das diferenças que permeiam as relações humanas e que se baseiam numa vertente crítica, prevalecendo o respeito ao próximo, à sua cultura e à sua religiosidade.
Carlos Alberto Pinheiro Vieira
Mestrando em Ciências da Religião – UNICAP
Coordenador editorial da Revista Paralellus
[1] Segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, “Um campo específico em epistemologia contemporânea desdobrado a partir das investigações Kuhnianas é o estudo conceitual e empírico-histórico das controvérsias, tal como vem sendo desenvolvido por Marcelo Dascal e seu grupo de pesquisa em controvérsias científicas, teológicas e filosóficas no período compreendido entre os anos de 1600 e 1800 na Europa ocidental. Focalizando o que chamaria de crises como sendo o eixo central do modo como se dá a construção das teorias em ciência, e a resolução (ou não) destas via apreciação da dialética dos argumentos (a controvérsia em si, no caso de um estudo empírico em particular), penso que seria consistente descrever o seguinte cenário específico: o campo científico de estudos do fenômeno religioso é um caso clínico típico de controvérsia, e se tratado como tal poder-se-á, talvez, esclarecer (no sentido de torná-las mais iluminadas) algumas das mais importantes questões epistemológicas (e metodológicas) em questão na nossa prática” (Pondé, Luiz F. Em busca de uma cultura epistemológica. In: Teixeira, F. As ciências da religião no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2001, pg. 17).
[2] DASCAL, Marcelo. A autonomia é uma ilusão. Revista IHU on-line, São Leopoldo, RS, Ed. 274, p. 24-26, set., 2008.
[3] Texto extraído do site <http://www.cienciaereligiao.org.br/2007/07/ciencia-religiao-e-desenvolvimento-perspectivas-para-o-brasil/> em 24/05/2011
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