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Calendários

“A América é um mundo às avessas (…). O vento norte gélido da Europa é aqui bem morno. Tudo às avessas. Enquanto estou escrevendo, pela passagem da festa de São João, estamos no meio do inverno (…). Em dezembro e janeiro, quando na Europa tudo gela, comemos figos e colhemos lírios. Numa palavra, tudo aqui é diferente (…). A diferença está em nós mesmos, que precisamos modificar nosso conceito” (Antonio Sepp, jesuíta da Redução do Japeju, em carta de 1692).

 

Estamos lançando esta seção do Observatório, Calendários, como forma de desafiar os estudiosos do fenômeno religioso para um serviço complexo em vista da aprendizagem transreligiosa, sobretudo nas escolas: a construção de um calendário inter-religioso, feito existe noutros cantos, mas inculturado em nosso contexto nordestino-brasileiro. Ainda outro dia perguntamos a uma professora do Ensino Religioso de Escola Pública porque ela não falava, além da festa de Nossa Senhora, em maio, também do padre Henrique, mártir da justiça no Recife, e do aniversário de Buda e das celebrações de outros santos das demais tradições de fé. O fato é que, apesar de termos até um templo budista na cidade, a colega desconhecia que há festas religiosas além das suas, da maioria católica do país – e que há memórias importantes a resgatar mesmo dentro do cristianismo local.

Os humanos dividem o tempo em períodos com base em constatações astronômicas, na observação dos ciclos da lua e do sol, cuja complexidade e exatidão dependem do grau de civilização de cada cultura. Mas os (re)começos dessas contagens do tempo dependem das crenças do povo. Pois o homem religioso organiza o mundo a partir de um ponto, a hierofania (o sagrado emerge em meio ao profano, aponta pro divino e permite conexão com ele), que lhe dá poder para fundar a “realidade”. Ele cosmogoniza o espaço e o tempo, então, a partir de pontos de ruptura através dos quais o “mais-que-natural” tenha se manifestado.

Assim, por exemplo, a cronologia budista começa com a morte de Buda, cerca de 480 a.E.C. (antes da Era Comum), a islâmica com a hégira (622 E.C.), e a era do mundo judia com o dia da criação em 7 de outubro de 3761 a.E.C. A cronologia cristã, que começou com o presumível nascimento de Jesus, foi introduzida por Dionísio (cerca de 470-550 E.C.) e se impôs, desde o século VIII, em toda a Europa e depois, como calendário “civil” comum pelo mundo inteiro – devido ao processo civilizatório/colonialista do Velho Mundo.

Então, para começar o mutirão em vista do nosso calendário inter-religioso autóctone, que favoreça o conhecimento das histórias e celebrações das tradições regionais e das outras tradições de fé entre nós, compartilhamos abaixo um primeiro esboço brasileiro que está sendo desenvolvido pelo Instituto Humanitas e envolve as datas principais das religiões judaica, cristã, islâmica e budista. Depois, adaptamos informações dos calendários religiosos trazidas pela publicação Celebração do Tempo 2014, das Paulinas de Portugal. Por fim, transcrevemos as anotações das festas das principais crenças, do livro As grandes religiões, traduzido pela Vozes.

Mas fica o desafio: e as festas dos indígenas americanos de ontem e de hoje? E as celebrações das diversas religiões afro-brasileiras? E as datas da religiosidade popular e do martirológio regional? E os calendários dos novos movimentos religiosos e dos espíritas? Quem quer colaborar, pode acrescentar uma dica de pesquisa nos comentários, embaixo desta página…

Histórias dos Calendários

 

Calendário judaico. O ano judaico tem 354 dias, nos anos comuns (de 12 meses), ou 385 dias, nos anos embolísmicos (de 13 meses). O ano de 5775 começou em 1 de Tishrei/5 de setembro de 2014, terminando no dia 29 de Elul/24 de setembro de 2015. Em 1 de Tishrei/25 de setembro começa o ano de 5776 (da criação do Homem e do cômputo dos anos temporais, dos anos da remissão e dos anos de jubileu). Embora Tishrei seja considerado como primeiro mês do ano, na tradição hebraica existem ainda outros meses tidos como início de calendário, consoante a finalidade da consulta.

Calendários cristãos gregoriano e julianos (antigo e reformado). O calendário gregoriano (está em 2015 desde 1 de janeiro) é um calendário de origem europeia, utilizado hoje pela maioria dos países. Foi promulgado pelo papa Gregório XIII em 24 de fevereiro de 1582 pela bula Inter gravíssimas, em substituição ao calendário juliano implantado por Júlio César em 46 a.E.C. Essa reforma foi determinada pela divergência que existia, então, entre o tempo indicado pelo Calendário Juliano e o tempo astronômico real, acumulada ao longo de centenas de anos. A correção foi efetivada à custa do encurtamento do mês de outubro do ano da sua aprovação, em 10 dias (do dia 5 passou para dia 14). A Igreja Ortodoxa do Oriente (Jerusalém, Rússia, Geórgia e Sérvia) continua a usar o Calendário Juliano antigo (velhocalendaristas); e a Igreja Ortodoxa da zona mediterrânica (Alexandria, Antioquia, Roménia, Bulgária, Chipre, Grécia, Albânia, República Checa e Eslováquia) e nórdicos (Finlândia e Estónia), em 1923, passaram a regular-se pelo Calendário Juliano reformado (neocalendaristas), que difere 13 dias. Assim, os velhocalendaristas celebram as suas festas fixas treze dias mais tarde que os neocalendaristas. No entanto, todos os Ortodoxos seguem o Juliano Antigo para fixação da Páscoa.

Calendário islâmico (Al Hijra). O Calendário islâmico começou no Ano 0 da Hégira (Hijra), 622 E.C. data da saída do Profeta Muhammad de Meca para Medina. Com menos 10-11 dias do que o Calendário Gregoriano, tem 12 meses lunares. Em cada ciclo de 30 anos, há 11 anos com 355 dias e os restantes com 354 dias. Os anos que têm 355 dias são chamados «anos intercalares». O ano atual para os islâmicos é o de 1436 (em 25 de outubro ocorrerá o Eid Ras-Al-Sana, Ano Novo Islâmico).

Calendário da fé baha’i. O Calendário Bahá ‘i foi instituido por Báb, em 1844, e confirmado, posteriormente, por Bahá’ u’lláh (Glória de Deus). É um calendário solar com 365 dias. Os anos são compostos por 19 meses (com nomes de atributos de Deus) de 19 dias cada, adicionados de 4 «dias intercalares» (5 dias, quando é ano bissexto), entre o 18º e o 19º mês (26 de fevereiro a 1 de março). No dia 21 de março de 2015 começa o ano 171 baha’i.

Calendário hindu Vikram. O calendário luni-solar da Era de Vikram (Gujarat), foi instituido em 58 a.E.C., por Chandragupta II, cognominado Vikramaditya (Sol da Coragem). Tem 365 dias, agrupados em 12 meses, com 2 quinzenas (Paksha: Fase Crescente [Sudi]; Fase Minguante [Vadi]), que correspondem aos nomes do deus Vlshnu, a que este rei era muito devotado. Aproximadamente de 30 em 30 meses, faz-se o acerto com a posição do Sol, acrescentando um mês suplementar (Adhik-Maas). O mês suplementar é sempre tido como um período de grande santidade, durante o qual os Vratas (votos, jejuns, penitências e visitas aos templos) se multiplicam, bem como a leitura e recitação dos textos sagrados. O ano de 2071 começou em 1 de Karttika/14 de novembro de 2014 e termina no dia 30 de Ashvina/23 de outubro de 2015.

Calendário budista tibetano kalachakra. O nome Kalachakra advém do Tantra, e significa Roda do Tempo. Segundo a tradição, Buda terá transmitido este ensinamento tântrico (harmonização da mente e das energias do corpo com o Universo), em dia de Lua Cheia e daí o seu pendor significativamente lunar. A contagem dos meses inicia-se no dia imediato ao da Lua Nova e os meses são mencionados pela sua ordem sequencial. O ano tem 354 dias aproximadamente, pelo que, ao longo do ano, duplicam-se ou omitem-se alguns dias, a fim de se fazer o acerto do ciclo lunar com o ciclo solar. Em 2015 estamos no ano 2557 do calendário budista, principiado com a celebração da iluminação de Buda.

Calendário chinês. Este Calendário começou no reinado do Imperador Amarelo, Huang Di (2698-2599 a.E.C.), considerado o mais antigo ancestral da etnia Han, a que pertencem 92 por cento dos chineses. É lunissolar, dividindo-se em 12 meses lunares (de 29/30 dias), mas a contagem dos anos faz-se pelo registo solar, com acréscimo de 90 dias, a cada oito anos, como forma de acerto, entre a contagem das lunações (354) e a totalidade dos dias solares do ano (365,25). O ano 4713 chinês do Cavalo decorre até 1 de janeiro de 2016, no 32º ano do 79º ciclo (de 60 anos) que se iniciou no ano de 1984 e que terminará em 2044. Este ciclo (maior) de 60 anos é subdividido em ciclos (menores) de 12 anos que recebem o nome de 12 animais, que, conforme a lenda, assistiram ao banquete do mitológico Imperador de Jade.

 

Festas das Religiões

 

Judaísmo. O lugas das celebrações e da oração é a sinagoga e a casa. O shabbat, o dia de repouso semanal, é antes de tudo uma festa familiar, e também o dia festivo mais importante. Com uma exceção: mais sagrado ainda é o Jom Kippur, o dia da reconciliação, que se segue à festa do ano novo com que se inicia o calendário judaico no começo do outono. As celebrações são antecedidas por um tempo de reflexão e de conversão para Deus. Segue-se a Festa dos tabernáculos, celebrada em cabanas leves e construídas com rapidez, que lembram a saída do Egito. Na primavera segue-se a Pessach, a “festa de nossa liberdade”, que é celebrada sobretudo junto a mesa do lar. As leituras lembram a saída do Egito e o estabelecimento da Aliança. Sete vezes sete dias mais tarde celebra-se a “festa da semana”, que lembra o “dom da Torá” no Sinai, a “festa da liberdade espiritual”. A isto se acrescentam os dias semifestivos e os dias de recordação mais recente, como o jom hashoa, a recordação das vítimas do Terceiro Reich. Outro dia de alegria em muitas comunidades é o dia da independência do estado de Israel.

Cristianismo. No ano eclesiástico cristão, as três grandes festas são o Natal, a Páscoa e o Pentecostes. Na igreja católica romana e na igreja ortodoxa, também são celebradas festas dos santos e festas locais. Na festa de Natal a cristandade lembra o nascimento de Jesus e a vinda de Deus ao mundo. A festa da Páscoa é celebrada para lembrar a morte de Jesus na cruz no Monte Calvário, na Sexta-feira Santa, e sua ressurreição dos mortos no terceiro dia após a crucificação. Na festa de Pentecostes a comunidade cristã relembra a efusão do Espírito Santo sobre os fiéis a fundação da igreja, que de acordo com as narrativas do Novo Testamento ocorreu 50 dias depois que Jesus ressuscitou dos mortos em Jerusalém. Em memoria da vitória sobre a morte, que aconteceu na vida de Jesus, e que teve seu ponto culminante no domingo da Páscoa, no cristianismo o domingo, como primeiro dia da semana que se inicia, foi declarado dia santificado, e com base na história da criação também o dia de repouso semanal.

Islamismo. O culto divino mais importante da semana se dá na sexta-feira. Corresponde ao sexto dia da criação, quando o homem foi criado. Neste dia (yaum al-jumu-ah) as pessoas reúnem-se para se apresentarem perante o Criador. Uma das duas festas principais é a festa da quebra do jejum (‘id al-fitr) no 1º de shawwal (após o ramadã). Depois de um desjejum com doces e de um donativo para os pobres, participa-se da oração festiva e passa-se o dia inteiro em mútua convivência. As crianças ganham presentes. A segunda festa principal é a festa do scrifício (‘id al-adha) no dia 10 de dhul-hijjah. Neste dia, recordando a provação de Abraão, é morto um carneiro, que é dividido em três partes, para os pobres, para os vizinhos e para os parentes. O aniversário do Profeta, no dia 12 de rabi’al-awwal, é festejado de diferentes maneira, conforme a região, com poesias e cânticos sobre sua vida e atuação. As festas das estações (por exemplo a festa da primavera, nawruz), assim como os dias de recordação de mestres e místicos célebres, são festas de importância local.

Hinduísmo. Em muitos templos, a terça-feira e o sábado são os dias gerais de sacrifícios. No decorrer do ano existem inúmeras festas (vrata) grandes e pequenas. Dizem que na Índia todo dia há uma festa! São características desses dias as imagens de deuses (murti) sendo carregadas em procissão pela cidade ou levadas em carros pelas ruas. Por exemplo, o Deus Ganesha, com cabeça de elefante, filho de Shiva, e no estado indiano de Maharashtra venerado com um gigantesco corteja (ganesha caturthi) no quarto dia do mês bhadrapada (=agosto/setembro). O Deus Ganesha é particularmente querido, porque resolve toda espécie de dificuldades. Uma festa da colheita (navaratri) de dez dias, em setembro/outubro, é dedicada às deusas Sarasvati (cultura), Lakshmi (saúde) e Durga (energia feminina e destruição). A mais conhecida talvez seja a festa indiana das luzes, divali (outubro/novembro): por mais de cinco dias reza-se por um futuro feliz, ofertando luzes e ensurdecedores fogos de artifício.

Budismo. Os/as budistas não têm um dia santificado da semana, nem se reúnem para um ritual semanal. É certo que em determinados tempos a comunidade do convento medita a palavra de Buda; também comunidades de leigos encontram-se regularmente. O ciclo lunar desempenha um papel importante para a s festas. Na lua cheia a na lua nova, as regras do convento são confirmadas em uma celebração de confissão (pratimaksha). O Buda nasceu, chegou à iluminação e entrou no “nirvana definitivo” (=morreu) na primeira lua cheia da primavera. Todos os anos isto é lembrado com procissões na festa do Vesakh. No zen também são relembrados com uma celebração os grandes mestres desta escola, Bodhidharma e Dogen. No budismo tibetano, quase todo dia lunar é dedicado a um aspecto da iluminação. Como festa mais importante é considerada a festa tibetana do ano-novo losar (-fevereiro/março); nessa época celebra-se também durante três semanas a Grande Festa da Oração do Desejo (monlam), pela chegada de Maitreya, o Buda do futuro.

 

Para continuar a pesquisa:

Calendário Yoruba

Calendário Xambá

Calendário Tupi-Guarani

Martirológio latinoamericano

Festas de São João

O fim do mundo vem aí?!

Festas e feriados religiosos BBC

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Calendário 2014

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Calendário 2015

Calendário 2015   Janeiro     Fevereiro     Março     Abril . . Maio . . Junho . . Julho . . Agosto . . Setembro . . Outubro . . Novembro . . Dezembro  

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Calendário Permanente

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