CAMINHOS DA JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL

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A Província dos Jesuítas do Brasil-BRA acaba de lançar seu primeiro Relatório de Justiça Socioambiental, que pode ser baixado em pdf por aqui. Ao longo de cinquenta páginas e por meio de doze exemplos de ação, o relatório mostra a amplitude da atuação da Companhia de Jesus no país e reflete sobre a rede de articulação que o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA) vem criando com os grupos que trabalham justiça socioambiental junto aos jesuítas.

 

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Padre Clóvis Cabral na Mesa de Abertura do Amalá de Xangô na UNICAP (foto Virgínia Ramos)

 

O Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife está situado na UNICAP, a Católica de Pernambuco, que é uma Universidade dos jesuítas, e por isso colabora na área das Relações Étnico-raciais e Diálogo Inter-religioso do OLMA. Estamos contentes por compartilhar os nossos trabalhos nessa rede e com ela multiplicar forças e aprofundar as ações na linha da justiça socioambiental, vinculando assim as práticas de superação das injustiças presentes em nossa herança histórica e reproduzidas pelo atual modelo de desenvolvimento neoliberal, gerador de desigualdades sociais e agressões ambientais.

Dentro da perspectiva da concepção de ecologia integral que nos foi apresentada pelo Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si, existe uma sinalização implícita do conceito de justiça – e de injustiça envolvendo nosso convívio na casa comum, em todas as esferas de relações -, com o convite para um processo urgente e necessário de reconciliação e construção de relações justas: as relações com Deus, as interpessoais, de geração, de gênero, étnico-raciais, culturais e sociais, assim como as relações políticas, econômicas e com os bens da natureza.

Apesar de todos os avanços da história, a humanidade em geral e nossa sociedade em particular continuam marcadas por injustiças graves e escandalosas, com imensas multidões sendo privadas total ou parcialmente do acesso ao atendimento de suas necessidades básicas, sobrevivendo em situações que impedem ou limitam a garantia e o desenvolvimento de uma vida digna. São crescentes as ameaças à vida, em suas múltiplas expressões. O atual modelo de desenvolvimento neoliberal, além da pesada herança de injustiças legada pela história do Brasil, segue sendo gerador, por um lado, de grandes desigualdades sociais, portadoras de processos perversos em termos econômicos, políticos e culturais e, por outro lado, de agressões devastadoras e selvagens aos bens da natureza, com danos de difícil reparação para nosso presente e futuro.

As conquistas recentes da sociedade, os avanços importantes nas políticas públicas e os notáveis esforços para preservar esses avanços correm riscos sérios se não acontecerem trabalhos consistentes de fortalecimento do próprio tecido interno da sociedade. Faz-se urgente um trabalho de empoderamento pessoal e coletivo dos sujeitos no âmbito da incidência política, das populações que sobrevivem à margem da sociedade, dos afrodescendentes, dos povos originários (indígenas) e das mulheres. As iniciativas no âmbito da educação das relações étnico-raciais e todas as buscas de superação do modelo de sociedade patriarcal, machista, homofóbico e racista que nos marca necessitam ser reforçadas e cultivadas com decisão. A mesma firmeza de decisão nos pede o serviço às juventudes e também aos migrantes e refugiados, bem como a busca de superação de todas as formas de violência e xenofobias. A par de tudo isso, a urgência por um trabalho de redirecionamento das relações do ser humano com os bens da natureza, atentos ao bem comum em suas expressões mais vivas e problemáticas, como a água e a terra, é um apelo todo especial.

Frente a esses desafios, a justiça socioambiental deve ser promovida através de um conjunto de relações que perpassam os diferentes níveis do convívio, dentro da nossa grande casa comum: relações justas que envolvem o reconhecimento profundo da dignidade de todos os seres humanos, acima de raízes étnico-raciais, de crenças religiosas, das diferentes gerações, gênero, visões de mundo e opções, buscando sempre formas de estabelecer o diálogo, o valor da pluralidade e a dinâmica da reconciliação; relações justas que envolvem a efetivação de políticas de superação das desigualdades sociais e o acesso universal aos direitos básicos de trabalho, assistência social, previdência, saúde, moradia, educação e alimentação; relações justas que envolvem a conservação e preservação dos “dons da criação” ou bens naturais, em vista de um ecossistema saudável e de vida para o futuro do planeta terra e seus habitantes.

Em profunda consonância com toda riqueza cultural e religiosa humana, que apontam para o Bem Viver, o Papa Francisco chama nossa atenção para a vivência verdadeira da espiritualidade cristã. Seu caráter essencialmente transformador pode ser alcançado por diversos caminhos, mas é impossível consegui-lo sem o cuidado dos outros e da vida. A boa prática da espiritualidade é um estilo de vida pessoal e comunitário sóbrio e, quanto possível, existencialmente próximo do cotidiano das pessoas empobrecidas e necessitadas a quem queremos servir, de modo a visibilizar, antes mesmo das palavras que pronunciamos e das atividades por nós empreendidas, uma atitude de solidariedade efetiva.

E, juntos, precisamos discernir estratégias de ação, visando contribuir para a superação do abismo das desigualdades sociais e suas graves implicações econômicas, políticas, culturais e ambientais. Isso, no nosso contexto brasileiro atual, implica em Participação na agenda da Assistência Social; Valorização da economia solidária e diferentes buscas de desenvolvimento alternativo; Contribuição no processo de educação das relações étnico-raciais; Contribuição no movimento de afirmação das mulheres em seu protagonismo na sociedade e Contribuição no serviço aos refugiados e às vítimas de deslocamentos forçados.

Em meio às várias frentes de ação, faz-se necessário um conjunto de processos pedagógicos que favoreçam a formação de pessoas conscientes de sua condição social e histórica; que saibam identificar o Mestre Jesus em meio às situações de morte e sejam capazes de se indignar; que sejam capazes de se abrir aos outros e de lutar em favor da justiça e da defesa dos direitos humanos fundamentais dos mais empobrecidos da sociedade; e que, sobretudo, busquem analisar as causas profundas da exclusão, da destruição dos bens da natureza, dispondo-se a enfrentar, de forma criativa e inovadora, as forças que subjugam a vida. Estamos juntos nessa frente comum de engajamento cristão em favor de mais justiça e paz.

 

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