ALÉM DO CAPITALISMO
A BUSCA DE UM PROPÓSITO E UM SENTIDO DE VIDA NO MUNDO MODERNO
CHARLES HANDY
MAKRON BOOKS, São Paulo, 1999
(Livro com 236 páginas, compilado em 21)
Disponibilizado na Leitura Recomendada em: 20/dez/1999
O capitalismo como sistema econômico tem proporcionado inegáveis benefícios materiais, porém tem provocado uma separação cada vez maior entre ricos e pobres. Temos, hoje, nações ricas e pobres, povos ricos e pobres. E isso tem se agravado gradativamente. Por outro lado, indicadores mundiais sinalizam para um dado alarmante: um terço da população está desempregada. Outro dado significativo é que 70% do comércio mundial estão nas mãos de apenas 500 empresas. O capitalismo provoca expectativas de crescimento constante. No entanto, isto não vai acontecer indefinidamente. E isto pode agravar as condições de vida das pessoas. A valorização do dinheiro é excessiva. Charles Handy argumenta que os valores de sustentação devem ser modificados em favor da qualidade de vida para todos. Os valores de mercado devem ser modificados. ALÉM DO CAPITALISMO é uma mensagem pessoa, provocante, apaixonada e intensa que provocará debates e controvérsias em todo o mundo.
UM PREFÁCIO PESSOAL
Acredito que muitos estejam confusos com o mundo que criamos para nós no Ocidente. Estamos confusos com as conseqüências do capitalismo, cuja contribuição para nosso bem-estar não pode ser questionada, mas que separa os ricos dos pobres, consome grande parte da energia dos que nele trabalham e nem sempre, ao que parece, leva a um mundo mais satisfeito. Não conheço melhor sistema econômico. Não obstante, a nova moda de transformar tudo em um negócio, mesmo nossas próprias vidas, não parece ser a resposta. Um hospital, assim como minha vida, é mais do que apenas um negócio.
Qual a vantagem de se acumular riqueza para a qual nem se pode imaginar o uso. Qual o propósito da eficiência empregada na criação dessa riqueza se um terço dos trabalhadores mundiais estão desempregados ou subempregados? E onde vai acabar isso tudo, essa paixão pelo crescimento? Se continuarmos a crescer no ritmo atual, daqui a cem anos estaremos comprando de tudo dezesseis vezes mais. Mesmo que o meio ambiente possa suportar o ônus, que vamos fazer com tudo isso? Setenta empresas hoje possuem dimensões maiores do que muitas nações. Crescerão ainda mais? Será que isso importa?
A evidente falta de preocupação com esses problemas por parte dos que detêm o poder abala nossa complascência. Estou desapontado com o pressuposto de que essas preocupações são acompanhamentos inevitáveis da mudança e que o tempo, a tecnologia e o crescimento econômico resolverão a maioria delas. Fico zangado com o desperdício da vida de muitas pessoas, arrastadas para a pobreza em meio à riqueza. Preocupa-me a ausência de uma visão de vida mais transcendente com relação a seus propósitos, e pela prevalência do mito econômico que colore tudo o que fazemos. O dinheiro é o meio de vida e não seu objetivo principal. Deve haver algo que possamos fazer para restaurar o equilíbrio.
A culpa, sem dúvida, é nossa. Permitimo-nos distrair pelos falsos chamarizes das certezas oferecidas pelas tradições competitivas da ciência, da economia e da religião. A razão dita que qualquer dessas tradições pode ser correta, mas nosso coração se revolta ante a idéia de que nossos propósitos devem ser tão preestabelecidos de uma forma ou de outra.
Não é de admirar que estejamos confusos e famintos por alguma outra coisa. Minha esperança provém de um pressentimento de que muitas pessoas compartilham essas dúvidas e preocupações e sabem que a vida não é apenas um negócio. Essas pessoas pressentem que talvez sejam o amor e a amizade e, ou uma responsabilidade pelos outros ou uma crença qualquer, e não o dinheiro, que façam a diferença na vida e que, no final de contas, é importante acreditar que a vida tenha um propósito, mesmo que seja difícil decifrá-lo. A maioria de nós tem ambições modestas. Queremos levar uma vida decente e, se tivermos a mínima chance que seja, isto é o que poderia acontecer, porque somos todos uma mistura de impulsos benignos e malignos, de coração e cabeça no mesmo corpo. Se confiássemos um pouco mais em nós mesmos e em nossos corações, e menos nos dogmas da disciplina, poderíamos recuperar o controle sobre as coisas que realmente importam.
Minhas dúvidas e confusões não são exclusivas. Ao final de sua história do século XX, The Age of Extremes, Eric Hobsbawm conclui: "Nosso mundo corre os riscos de explosão e implosão. Precisa mudar... Se a humanidade vai ter um futuro reconhecível, isto não pode acontecer como prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, fracassaremos. E o preço do fracasso, isto é, a alternativa a uma sociedade modificada, é as trevas".
O argumento deste livro é o de que, em nossos corações, todos nós gostaríamos de encontrar um propósito maior do que nós mesmos porque isso nos levaria a alturas com as quais nunca sonhamos. Se o individualismo que está no bojo do capitalismo fosse redefinido como essa espécie de Egoísmo Adequado, a sociedade poderia se tornar um lugar melhor em vez do mundo "meu-vizinho-mendigo" que parece ser. Este novo individualismo enxerga além do materialismo, no sentido de visualizar algo mais grandioso. A liberdade e as opções que o capitalismo e a democracia liberal tornam possíveis não precisam ser esbanjadas em mais coisas; ao contrário, podem ser usadas para liberar mais pessoas para que estejam bem e que tenham alguma posse. Nenhuma lei pode tornar isso possível. Somente uma libertação do espírito humano, que suspeito já estar faminto por ela, esperando apenas que um Egoísmo Adequado entre em moda e seja admirado.
O Egoísmo Adequado é uma filosofia otimista porque defende que, no fundo, somos pessoas decentes. Há bondade e maldade em todos nós, e apenas é sensato que a sociedade tente controlar a maldade. Todavia, grande parte da vida é uma profecia que cumpre a si mesma. Se você espera o pior das pessoas e demonstra esse sentimento, elas muitas vezes provarão que você tem razão. Se os sistemas que engendramos estiverem baseados no princípio de que se pode confiar nas pessoas, elas não se darão ao trabalho de ser confiáveis. Por outro lado, se você acredita que as pessoas são capazes e podem ser confiáveis, elas muitas vezes farão jus às suas expectativas. Os otimistas são sempre vítimas da decepção, mas a vida sem esperança é deprimente.
PARTE A UM CAPITALISMO QUE RANGE
É óbvio que o dinheiro importa, mas com exceção de uma minoria e dos que nada têm não é o mais importante. Minha suposição é que a maioria de nós sabe que há coisas mais importantes que o dinheiro, conforme salientou Aristóteles há muito tempo: "A riqueza, obviamente, não é o bem que procuramos, pois o único propósito a que se presta é o de proporcionar os meios para se obter algo mais. No mais, os sentimentos que já citamos (prazer, virtude e honra) teriam título melhor se considerados para o bem, pois devem ser desejados por si só".
Podemos estar de acordo com Aristóteles, mas na maior parte do mundo em que vivemos fala-se apenas a linguagem do dinheiro. Sem dinheiro, sentimo-nos impotentes. Ficamos imaginando o que fazer com mais dinheiro gastá-lo, poupá-lo ou dá-lo aos outros. O dinheiro tornou-se o denominador comum em nossas sociedades, e o primeiro objetivo declarado de todo governo, em todos os esforços de persuasão, é o aumento da riqueza.
O dinheiro, também, é o que mais importa no ranking das nações, medido pelo PIB (Produto Interno Bruto). O produto ou a atividade não é levado em conta se não tiver um preço. Por omissão, os meios se tornaram fins. O dinheiro acabou tendo importância maior.
O problema com o mercado Os negócios nascem e morrem em função do mercado. O mercado é um estimulo à invenção e à melhoria. Porém, muitos morrem durante o processo. Até mesmo grandes empresas raramente vivem ou merecem viver por mais de 40 anos. Não se pode negar o papel crítico do mercado em qualquer sociedade desenvolvida. Porém não devemos ser idólatras. O mercado tem seus limites e suas conseqüências não intencionais. É somente um mecanismo, não uma filosofia. É claro que as disciplinas do mercado não funcionam em todo lugar. Em particular, não funcionam quando os resultados não são medidos em dinheiro, nem onde o suprimento é limitado ou restrito. A dificuldade reside em decidir onde o mercado pode operar e onde sua atuação seria nociva. É necessário respeito, não idolatria. Devemos ter em mente que: (1) os mercados artificiais não funcionam; (2) mercados podem baixar os padrões; (3) os mercados agora são globais; (4) os mercados podem aprofundar as diferenças; e (5) os mercados ignoram o que é gratuito.
O problema com a concorrência A concorrência é um aspecto essencial de qualquer sistema, embora não precise ser medida monetariamente para poder funcionar. Ela estabelece seus próprios padrões. A concorrência gera energia, premia os vencedores e pune os perdedores. Por esse motivo, é o combustível da economia. Uma economia competitiva - prometeu Bill Clinton em 1992 - proporcionaria "bons empregos com bons salários". Desde então, a economia norte-americana tem melhorado dramaticamente em competitividade. A concorrência significa que os EUA estão ficando mais ricos, mas alguns norte-americanos estão enriquecendo mais e outros estão ficando mais pobres. A produtividade nem sempre é boa para todos.
Por que então fazemos o que fazemos? Não pode ser para aumentar nossa competitividade, ou os britânicos teriam um desempenho 10% superior ao dos alemães, porque trabalham 10% mais. Pode ser que algumas pessoas realmente prefiram seu trabalho a qualquer outro aspecto de sua vida. Em outras palavras, será que trocamos a almofada superconfortável da carreira vitalícia por uma filosofia do mercado empresarial segundo a qual você é tão bom quanto seu último projeto ou relatório, sendo que os melhores irão para frente e os não tão bons são rejeitados? Será que nós, inconscientemente, decidimos que a destruição criativa, o princípio no cerne do capitalismo de mercado, é apropriada para as pessoas, e que, para que os melhores cresçam, o resto precisa ser rejeitado? A concorrência vai ao fundo da instituição e exige um tipo de darwinismo empresarial, a lei dos mais fortes e a morte dos demais, tanto na empresa quanto na sociedade como um todo.
Se isso é o que estiver acontecendo, as conseqüências preocupam. Deixando de lado o estresse que inevitavelmente se segue, mas que, pode-se argumentar, muitas vezes revela o melhor das pessoas contanto que não as mate -, uma filosófica competitividade dentro da empresa encorajará as pessoas a procurar primeiramente seus próprios interesses e, em segundo lugar, os da empresa para a qual trabalham. O curto prazo, então, dominará seu pensamento enquanto a competição por reconhecimento pessoal afetará a lealdade entre os membros dos grupos e tornará a cooperação ainda mais difícil do que já é, ao largo das funções, dos países e dos idiomas. Mais insidiosamente, as pessoas perderão sua objetividade ao longo do tempo à medida que enfatizarem mais profundamente a tarefa imediata, perdendo contato com o mundo exterior os mercados além de seus enfoques e a maneira pela qual os mortais mais comuns pensam e sentem.
Estranhamente, tudo lembra a advertência de Adam Smith sobre sua idéia revolucionária no que diz respeito a divisão do trabalho e a especialização, que tanto fez para aumentar a prosperidade e a riqueza. A divisão do trabalho, disse Smith, impulsionou a prosperidade econômica, mas tornou muitos indivíduos "não só incapazes de saborear ou participar de qualquer conversa racional, mas também de conceber qualquer sentimento generoso, nobre ou ameno e, portanto, de formar qualquer julgamento justo relativo a muitos dos deveres da vida privada. São totalmente incapazes de julgar os grandes e extensos interesses do país".
No entanto, desde então e provavelmente ainda hoje -, é a tais pessoas que confiamos o futuro de nosso país, porque são freqüentemente as mais bem-sucedidas. Esses dilemas pessoais são o resultado direto da concorrência. Se o capitalismo pretende reter sua credibilidade numa sociedade democrática, precisaremos encontrar alguma maneira de contornar esses problemas. Nós todos precisamos do nosso pão e uma cota adequada dele -, mas só pão não é suficiente, queremos também algo mais.
Keynes, o economista prudente, alertou-nos sobre o problema há mais de 70 anos. "O capitalismo moderno é absolutamente irreligioso, sem união interna, sem muito espírito público e muitas vezes, embora nem sempre, um agregado de possuidores e perseguidores. Tal sistema precisa ser imensamente bem sucedido se pretende vencer. Hoje [1923] é apenas moderadamente bem-sucedido".
Eu sugeriria que "moderadamente bem-sucedido" poderia ser, hoje, uma descrição correta do capitalismo, e digo isso a despeito dos enormes aumentos materiais e de bem-estar que esse sistema proporcionou nos 70 anos desde que Keynes fez a citada declaração. O motivo é que o sistema, como qualquer outro, tem seus defeitos. Podemos repará-lo aqui e ali, mas a solução verdadeira é mantê-lo em perspectiva. O capitalismo é apenas uma ferramenta, e ferramentas não devem ser idolatradas.
A sociedade inclinada A suposição de John Kennedy de que a maré alta levanta todos os barcos acabou se provando falsa. Mesmo que todos os barcos se desloquem um pouco, alguns sobem dramaticamente mais que outros. A busca da eficiência inclina a sociedade para perto de poucos e para longe de muitos. Em uma era da informação, pode-se ficar rico sem crescer, o que significa que maior riqueza no país não gera automaticamente mais empregos. Com efeito, para crescer a um ritmo de, digamos, 3% ao ano, a sociedade precisa melhorar sua eficiência em talvez 5% a fim de manter-se competitiva na concorrência global. A diferença entre esses dois números é o desaparecimento de empregos. De fato, para crescer mais, um país precisa na realidade ver suas empresas diminuírem de tamanho. O downsizing não é um fenômeno de "ir e vir" e de "liga e desliga". Porém, essa impetuosidade pela eficiência pode erodir a própria civilização que pretende promover, porque seus beneficios não se encaixam por igual, tampouco seus custos. A fórmula 20/80 é familiar na área dos negócios, significando que 20% de seus produtos, na maioria das vezes, geram 80% de seus lucros. É uma fórmula que parece estar se aplicando à sociedade de mercado: 20% das pessoas parecem estar gerando, e obtendo, 80% da riqueza adicional.
Um negócio competitivo descarta logo 80% dos produtos ou dos clientes menos lucrativos, para se concentrar nos 20% melhores. Por mais que algumas pessoas queiram, a sociedade não pode rejeitar as pessoas menos produtivas da mesma maneira, mas não sabe bem o que fazer com elas, a não ser mantê-las em banho-maria, oferecendo-lhes uma espécie de escada educacional na esperança de que queiram galgá-la.
Esqueça a sociedade 20/80 poderia ser pior. Os dados a seguir foram compilados por David Korten para seu livro When Corporations Rule the World: (1) em 1989, 1% da nata dos EUA ganhou uma média de 559.795 dólares, recebendo, como grupo, mais do que todos os 40% menos favorecidos; (2) em 1992, os mil presidentes de empresas dos EUA receberam, em média, 157 vezes mais de salário do que o trabalhador médio; (3) as 400 pessoas mais ricas tiveram em 1993 renda líquida de 328 bilhões de dólares, igual à soma do PIB da Índia, de Bangladesh, do Nepal e do Sri Lanka; (4) 70% do comércio mundial é administrado por 500 empresas. Uma sociedade na qual 1% da população ganha mais, coletivamente, do que os 40% menos favorecidos não vai ser tolerada por muito tempo em um estado democrático. Os 40%, mais cedo ou mais tarde, se revoltarão, e uma ditadura, espera-se, não é uma opção para nossa sociedade ainda.
Impulsionado pela eficiência, o crescimento econômico talvez não seja ilimitado, por mais estranho que isso pareça hoje em dia. Por outro lado, a ineficiência também não é opção se desejamos uma sociedade que funcione. A eficiência, mister se faz concluir, pode ser essencial para a continuada existência de uma sociedade, mas, em última análise, ela e o modelo econômico a que pertence não podem representar uma resposta para a grande ânsia, o motivo para se viver. Precisaremos, talvez, criar mais atividades fora da esfera puramente econômica, onde a motivação seja desligada da eficiência e tenha mais a ver com a satisfação intrínseca e com os valores. Neste caso, o dinheiro e o mercado seriam considerações marginais no esquema pessoal das coisas.
Não há nada de novo ou surpreendente aqui. Muitas pessoas talvez a maioria sempre encontraram o significado e a satisfação de suas vidas em atividades que estão bem fora do mercado e longe de qualquer preocupação com a eficiência. Infelizmente, porém, o que fazemos na vida privada não conta pontos em público. Precisamos encontrar meios de fazer com que conte, porque assim começaríamos a escapar do mito que sempre nos acompanhou, isto é, o mito de que somente vala a pena fazer ou ter algo que tenha preço. Sabemos que isso não é verdade. Deveríamos celebrar esse fato.
O lugar certo para o capitalismo O capitalismo, portanto, reverteria para seu papel correto, como uma filosofia destinada a prover os meios, mas não necessariamente a razão de ser da vida. Uma redefinição como essa permitiria que se evitasse a freqüente crítica de que o comunismo tinha uma causa para todos ou seja, a libertação da pobreza, a certeza de trabalho e habitação para todos -, mas nenhum mecanismo para colocá-lo em prática, enquanto, por outro lado, o capitalismo tinha um mecanismo, mas uma causa que funcionava apenas para alguns. A redefinição tornaria claro que o capitalismo é apenas um mecanismo que deixa a causa a cargo dos indivíduos. Trata-se de um credo que libera, não que define, que tem no dinheiro um meio, não um fim.
Keynes, passando da economia para a filosofia em seu ensaio de 1930, Economic Possibilities for our Grandchildren, previu tudo isso: "Estamos sendo afligidos por uma nova doença da qual alguns leitores talvez não tenham ouvido falar, mas da qual ouvirão muito nos anos vindouros, ou seja, desemprego tecnológico. Significa desemprego devido à nossa descoberta de meios para economizar mão-de-obra excedendo a velocidade de encontrar novos usos para a mão-de-obra (...). Isto significa que o problema econômico não é, se olharmos para o futuro, o problema permanente da raça humana".
Keynes acrescenta que, assim que o problema econômico for resolvido, a humanidade será privada de seu propósito tradicional e enfrentará o problema real que a economia terá de resolver: como viver bem, com prudência e agradavelmente. Keynes não acha que isso será bem recebido por todos. "Não há país ou povo, penso eu, que possa antever uma era de abundância sem temor". Mas, em última análise, "quando o acúmulo de riqueza não for mais de alta importância social, haverá grandes mudanças no código moral... estaremos em condições de avaliar o valor monetário em seu valor real".
Nada muda. O capitalismo, não importa quão bem-sucedido, nunca dará por si só uma reposta completa para a questão "por quê?". Poderemos procurar soluções nas melhores teorias de administração, aquelas que realmente levam em conta os limites da humanidade bem como seu potencial, ou, ainda, em uma nova economia que leve em conta o valor real de algo além de seu custo. Todavia, essas duas reformas somente poderão ser acionadas, se é que vão acontecer, por uma compreensão melhor do que desejamos da vida, tanto para nós mesmos como para os outros. Em última análise, precisamos de uma nova compreensão da vida, uma que d6e ao dinheiro seu devido valor nem mais nem menos.
O capitalismo é forte demais para os governos. Se quisermos controlá-lo, precisamos fazê-lo por conta própria. Será necessário o esforço coletivo dos indivíduos para fazer do mercado nosso servo em vez de nosso mestre. Para que isso aconteça, esses indivíduos precisam estar cientes de quem são, porque acham que existem e o que desejam da vida. Isso, infelizmente, é mais fácil de falar do que de fazer, mas é decisivo se quisermos ter controle sobre nossas próprias vidas e sobre nossa sociedade. Adam Smith acreditava que homens ou mulheres virtuosos, por si só, não mudavam coisa alguma, a menos que o sistema também mudasse. Smith é, no entanto, a prova final de que boas idéias, no tempo certo, podem mudar sistemas se as pessoas virtuosas ajudarem. As boas idéias geralmente não são idéias novas, mas idéias velhas ressuscitadas na hora certa. Talvez a hora seja propícia para a ressurreição de algumas antigas filosofias de vida e de sociedade. Vaclav Havel, dramaturgo, dissidente, prisioneiro e presidente da República Tcheca, deu a conhecer o desafio: "A salvação deste mundo não reside em nenhum outro lugar a não ser no coração humano, no poder humano de refletir, na humildade humana e na responsabilidade humana. Sem um resolução global da conscientização humana, nada mudará para melhor e a catástrofe para a qual o mundo está se dirigindo será inevitável".
PARTE B UMA VIDA PRÓPRIA
A era da soberania pessoal
Mais da metade da força de trabalho disponível na Grã-Bretanha não tem emprego em tempo integral dentro da organização. Esse é o sinal externo e visível da nova flexibilidade, que muitos acreditam ser essencial pra que permaneçamos ágeis o suficiente par nos manter atualizados com o mundo em mutação. Os defensores do status quo, entretanto, mostram que a grande parcela da força de trabalho ainda se mantém em emprego permanente, embora "permanente" seja um termo difícil de entender no caso dos trabalhadores de meio período.
Também é verdade que o tempo médio de um emprego não tem mudado quase nada nos últimos dez anos na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, permanecendo constante em torno de seis anos. Uma carreira full-time, portanto, é uma sucessão de empregos de seis anos. Isto, por seu turno, é uma interpretação modesta do termo "permanente", e ninguém até agora estabeleceu quantos desses períodos de seis anos constituem uma carreira. Fica claro que hoje mais pessoas abandonam o trabalho "oficial" mais cedo do que anteriormente, o que ocorria quando tinham entre 50 e 60 anos de idade, e os que permanecem nos empregos de seis anos são apenas uma minoria.
A Grã-Bretanha parece estar liderando essa nova flexibilidade, se é que liderar é a palavra certa para o que muitos rotulariam de tendência perturbadora. Sejam quais forem os números corretos, está claro que o contrato psicológico entre patrões e empregados tem mudado. O jargão "inteligente" agora se refere a garantir "empregabilidade", e não "emprego", o que, quando interpretado, significa "não conte conosco, conte com você mesmo, mas nós vamos tentar ajudá-lo, se pudermos". Não é mais possível esperar que alguém entregue sua vida a uma empresa por mais do que seis anos. Depois disso, você fica de novo por conta própria, por sua iniciativa ou pela deles, esperando ser "empregável" conforme foi prometido. Na realidade, tornamo-nos agora mercenários, à disposição de quem der o maior lance, e úteis enquanto somente enquanto podemos produzir.
Cada vez mais estamos pertencendo a, ou nos comprometendo com, nada ou ninguém mais do que nós mesmos. Até mesmo a família pode muitas vezes revelar-se um relacionamento de conveniência, a ser interrompido se não tiver serventia. No trabalho, nossas lealdade e responsabilidade visam, em primeiro lugar, a nós mesmos e ao nosso futuro, em segundo lugar, ao nosso grupo ou projeto atual e só por último e bem último vem a empresa.
No entanto, sem comprometimento com alguém ou com algo não existe senso de responsabilidade para com os outros e, sem responsabilidade, não há motivo para a moralidade vale tudo, ou pelo menos qualquer coisa que seja legal, se é isso que se quer.
Tudo isso pode ser uma reação racional ao mundo caótico em que vivemos, um mundo onde o futuro está lá para ser inventado, não pressagiado, e certamente não para ser controlado. Porém, essa atitude contribui para um mundo solitário, onde a vizinhança é uma selva, o estranho é um bicho do qual devemos nos esconder e nossa casa uma prisão privilegiada. Bauman cita Max Frisch: "Podemos fazer o que quisermos, mas a pergunta é: o que queremos?". Aí é que reside a dificuldade. Na minha ótica, fomos novamente incumbidos de cuidar de nossa vida. Podemos fazer com ela o que quisermos. Considerando-se que o know-how ou o know-what, juntos com a energia e a iniciativa, é a nova fonte de riqueza, todos, em tese, podem ganhar a vida. A questão é esta: "que tipo de vida queremos?". A expressão "em tese" é muito importante. Existem enormes impedimentos estruturais à criação de riqueza individual. Muitos não têm o know-how, a iniciativa ou a determinação. Precisam de algum tipo de ajuda para adquirir tais características. Do contrário, a idéia de soberania pessoal não passará de piada obscena perpetrada contra uma subclasse permanente. Essa será nossa prioridade mais urgente no século XXI. Mas não será acatada se não lidarmos com a questão fundamental: "o que queremos?".
Soberania empresarial
O mesmo tipo de argumento se aplica às empresas. A retórica informa que os negócios são responsabilidade de seus donos, e que são sua propriedade e seus instrumentos. A lei inglesa, entretanto, sempre considerou as empresas como indivíduos que podem ser processados e responsabilizados e não como peças inanimadas, cujos donos é que devem sofrer essas sanções. Penso que a lei está certa. A empresa é uma pessoa. Tenho para mim que o conceito de propriedade está profundamente desvirtuado nesta nova era. Em primeiro lugar, o que possuem os proprietários? O valor da maioria dos negócios hoje em dia reside em seus ativos invisíveis, suas habilidades acumuladas e experiências, suas marcas, pesquisa e habilidades administrativas. É difícil imaginar como alguém pode ser "dono" dessas coisas, que estão em grande parte ligadas a determinados seres humanos, cada qual com liberdade para se afastar quando quiser.
Em segundo lugar, na realidade grande parte dos proprietários de qualquer empresa aberta nunca investiu no negócio. A bolsa de valores é um mercado secundário no qual as ações mudam de mãos sem que o dinheiro sequer se aproxime do negócio. "Acionistas" é uma descrição precisa dos proprietários imaginários, mas eles devem, na verdade, ser vistos mais como investidores do que como proprietários.
No entanto, para todos os efeitos, as empresas já são responsáveis apenas por si próprias. Enquanto mantiverem seus investidores felizes, elas continuam com a liberdade de fazer o que bem entenderem. Na prática, portanto, os negócios são responsáveis apenas por si mesmo, pelo que fazem e como o fazem. Negócios bem administrados ganham muito dinheiro porque fazem certo a coisa certa. Mas não é só isso. A questão real é: para que serão usados o dinheiro e os lucros, e como serão usados? Para tanto, precisamos confiar nas pessoas que dirigem o negócio os novos profissionais. Esses indivíduos, supostamente, estão encarregados da soberania empresarial e é neles, cada vez mais, que precisamos confiar.
Esse é particularmente o caso das empresas transnacionais, mais corretamente chamadas de supranacionais, porque "flutuam" sobre as nações e não ao longo delas, nada devendo a esses governos em termos de lealdade ou, pela sua ótica, a qualquer país em que operam. Essas empresas gigantes são, em tese, responsáveis perante seus acionistas, mas estes tenho argumentado - estão interessados apenas nos dividendos e não na maneira pela qual as empresas geram suas riquezas em locais distantes, sobre os quais nada sabem. Recentemente, 70 desses gigantes obtiveram receitas maiores que o PIB de Cuba. Assim como Cuba, são economias centrais eficientemente arraigadas, sem qualquer vestígio de democracia. Tais semi-estados são forças poderosas no mundo, para o bem e para o mal. Transferem tecnologia e know-how além das fronteiras. Movimentam dinheiro mais rápido e em quantidades bem maiores do que qualquer governo democraticamente estabelecido. Podem criar e dissolver alianças, tomar decisões e fazer com que as coisas aconteçam com facilidade e rapidez de dar inveja a qualquer país normal. E podem fazer quase tudo sem consultar ninguém além dos participantes diretamente envolvidos. Ao contrário de outros Estados, não fazem parte das Nações Unidas nem estão sujeitos a seus regulamentos. Não devem satisfação a ninguém a não ser a seus investidores.
Um dia, as nações talvez tentem se fazer ouvir na cúpula desses Estados alternativos perambulantes. Até lá, precisaremos confiar no senso de propósito dessas empresas, que, além da necessidade de serem lucrativas, precisarão responder à pergunta "por quê?". Grandes empresas não se acanham em afirmar, publicamente, por que existem. Na suposição de que essas empresas são sinceras no que afirmam, pode-se entender por que as pessoas talvez queiram trabalhar para essas organizações, mesmo que por apenas seis anos. Essas empresas têm personalidade e o que alguns chamam de alma.
Sustento que as empresas não são nada diferentes dos indivíduos, ou vice-versa. Ambos são responsáveis pelo seu destino e pelo seu próprio comportamento. Ambos precisam trabalhar pelo objetivo básico, o que lhes dá sua singularidade. Não podem "passar o abacaxi" e existem relativamente poucas restrições sobre o que podem optar por fazer, desde que legalmente. Isso constitui tanto a oportunidade como o risco. Para alguns, entretanto, a idéia de que somos donos de nosso próprio destino está errada cientificamente, ou é religião desvirtuada. Se essas pessoas tiverem razão, então este livro é subversivo. O que pensamos sobre essas coisas é de grande importância.
Egoísmo Adequado
O que chamo de "Egoísmo Adequado" parte do fato de que estamos inevitavelmente interligados uns com os outros, mesmo que às vezes desejássemos não estar, mas o termo propõe que seja correto preocuparmo-nos com nós mesmos e buscar o que realmente somos, porque essa procura nos levará a perceber que o auto-respeito, no final das contas, surge apenas com a responsabilidade responsabilidade para com outras pessoas e outras coisas. O Egoísmo Adequado não é uma fuga. Paradoxalmente, como sugeri, só conseguimos nos encontrar quando nos perdemos em algo além de nós mesmos, seja o amor por alguém, nossa busca por uma causa ou vocação ou nosso comprometimento com um grupo ou instituição. Forçados ao egoísmo pelas mudanças no mundo ao nosso redor, temos a chance de torná-lo adequado. Se mais pessoas fizerem isso, poderemos fazer com que os sistemas funcionem para nós, e não contra.
A vida é uma oportunidade de tirar o melhor proveito de nós mesmos. Devemos isso a todos, para lhes dar essa chance. Dentro de todos nós, existe uma tendência para o bem e outra para o mal. O "eu" correto ou decente é aquele que o bem é revelado e o mal, limitado. A maioria de nós anseia por um "eu" do qual nos possamos orgulhar. Porém, a jornada no caminho do auto-conhecimento é longa e difícil. Precisa de um tranco para começar, o tipo de solavanco que vem de uma mudança como a que traz a morte, o divórcio ou a demissão.
Temos hoje, a oportunidade, que também é uma opção, de moldar a nós mesmos, até mesmo de nos reinventar. Nossa vida não é preordenada, quer pela ciência, quer pelas nossas almas. Se desejarmos, podemos transformar nossa vida em uma obra-prima. É uma oportunidade que deve estar disponível a todos os seres humanos. Poderia ser assim. É a feliz combinação da democracia liberal e capitalismo de livre mercado que nos dá essa oportunidade, contanto que façamos desses dois fatores nossos servos, não nossos mestres. "Conhece-te a ti mesmo" deve ser, logicamente, o primeiro passo no caminho da pedra branca.
O Egoísmo Adequado requer que tomemos nossa identidade em nossas mãos, contanto que façamos uma checagem realista com as pessoas que nos conhecem. Definimos, para nós mesmos, quem somos e o que endossamos. Algumas pessoas fazem isso com arrogância irreverente, que muitas vezes oculta um sentimento mais profundo de dúvida. Outras pessoas, como que, estão mais do que prontas para aceitar a caracterização que os outros nos dão outro sinal de dúvida. Sentir-se bem com sua própria pele significa o início da força.
A pedra branca Ninguém descobre a pedra branca cedo ou de repente. Parece que existe uma seqüência necessária a ser seguida. Em um livro pouco notado na época, chamado Millenium,Towards Tomorrows Society, escrito ao final da materialista década de 80, Francis Kinsman usou três tipos psicológicos desenvolvidos pelo Stanford Research Institute para descrever a sua visão de mundo. São eles: (1) Movido pelo Sustento; (2) Direcionado para Fora; e (3) Direcionado para Dentro. Palavras feias para verdades importantes. Tão feias, por sinal, que a princípio eu as interpretei mal. Presumi que "Direcionado para Fora" queria dizer preocupado com outras pessoas. Com efeito, conforme veremos adiante, significa estar preocupado com o que as pessoas fazem ou pensam, seus valores e seus problemas. "Direcionado para Dentro" é o que Jung chamaria de Individualismo e o que eu chamo de Egoísmo Adequado, uma habilidade de resolver seus próprios valores e propósitos. Os termos técnicos são bons, todavia, desde que você os entenda, porque são isentos de emoção. Para minha própria compreensão e para meu uso diário rotulei as categorias de Stanford como Sobrevivência, Realização e Auto-expressão, mas estes termos não têm a mesma precisão que as do instituto. Eis as definições de Stanford:
Kinsman usa essas três categorias para fazer um desenho da sociedade da maneira como se desenvolveria no novo milênio. Baseado em dados de pesquisas internacionais, o autor prevê um deslocamento gradual do Movido pelo Sustento para Direcionado para Fora e deste para o Direcionado para Dentro, embora haja uma diferença marcante entre países.
Reconheço, entretanto, que isto é pedir demais para as pessoas que nunca experimentaram a liberdade que vem com esse estado de espírito, tampouco é fácil gozar a vida direcionada para dentro sem primeiro abraçar grandes parcelas das duas primeiras dimensões. No entanto, ouso dizer, como fazem alguns, que o Direcionamento para Dentro, ou a auto-expressão e o controle da vida somente são possíveis para a classe média e para os indivíduos de meia-idade, é condescendência ridícula. Os jovens e os pobres talvez achem difícil, mas alocá-los automaticamente às fileiras dos Movidos pelo Sustento é presumir que essas pessoas não querem ser responsáveis pelo seu próprio futuro, não importa quão difícil possa ser.
Nesse caso, quem são todos esses Direcionados para Dentro? Se mais de um terço dos britânicos se enquadra nessa categoria, parece estranho não ouvirmos mais deles. O desafio então é este - levar o Egoísmo Adequado para o domínio público. Esta é uma questão discutida na terceira parte deste livro.
A Busca do Significado A busca pelo que há de melhor em nós é apenas o começo. Precisamos de um propósito para esses "nós". Em primeiro lugar, existe a questão evasiva quanto ao nosso destino e o que o sucesso pode significar. Nietzche disse que aqueles que têm um "Por quê" podem suportar qualquer "Como", mas o difícil é o "Por quê". Precisamos todos de um objetivo final, um sonho do que poderia ser e que nos dê energia para a jornada. Em segundo lugar, existe a paradoxal doutrina do "Bastante" ou "Suficiente". Não é possível passar para outra fase a menos que você perceba que já andou o suficiente na atual. Se não sabe o que significa "basta", em termos materiais ou de realização, está preso a uma rotina que você mesmo idealizou, sem nunca saber o que é estar fora dela. Em terceiro lugar, todos nós precisamos ter o gosto do sublime, para elevar nossos corações, para dar uma idéia de algo maior do que nós mesmos e das infinitas possibilidades da vida. Finalmente, em quarto lugar, há o desafio da imortalidade. Não, não podemos viver para sempre, pelo menos neste mundo, e não podemos levar nada conosco, mas podemos deixar algo de nós para trás como prova de que fizemos diferença para alguém. Isso somente acontece, acredito, se nos concentramos nos outros, o último paradoxo do Egoísmo Adequado.
Junte os quatro elementos e você terá um motivo para viver, mesmo que não termine como uma busca perpétua, com fim incerto. A jornada é a questão, não a chegada. Concordar com menos é aceitar o fato de que se está contente em ser um repolho feliz.
A Necessidade dos Outros O Egoísmo Adequado requer que sejamos nós mesmos, mas requer, ao mesmo tempo, que permaneçamos conscientes dos outros, que também têm o direito de ser Adequadamente Egoístas. As concessões que esse dilema requer só serão possíveis se compreendermos que nosso potencial pleno é conseguido somente pelo trabalho em comum e pela convivência. Santo Agostinho colocou bem o problema: "Unidade no que é essencial. Liberdade no que não for essencial. Caridade em todas as coisas".
O maior obstáculo ao Egoísmo Adequado na sociedade pode ser a falta de um amor apropriado e da responsabilidade que o acompanha. É claro que a responsabilidade não advém só do amor. O trabalho quase sempre traz uma responsabilidade pelos outros, seja pela criança que você ensina, pelo paciente que recebe seus cuidados, pelo seu grupo de trabalho ou cliente, pela tarefa a ser cumprida ou pela organização de um projeto.
Deve ser horrível, portanto, não ter nem amor e nem trabalho. É vergonhoso para nossas sociedades modernas que este deva ser o caso de tantos. O Egoísmo Adequado requer que tentemos fazer algo contra isso, a menos que estejamos contentes em viver no meio de uma sociedade de descartados. Esta é a questão chave deste livro.
Conectados aos Outros Francis Fukuyama, em seu importante livro sobre a confiança, leva o assunto para além das fronteiras da organização. A prosperidade das sociedades, diz ele, depende dos relacionamentos de confiança que vão além da família e da organização. Sociedades familiares, como na Itália e na China de hoje, acham difícil depositar sua confiança em alguém fora dos laços de família. Não podem, portanto, construir grandes organizações, porque estas inevitavelmente envolveriam estranhos. Fukuyama acredita que isso impedirá que esses países criem organizações realmente globais. Talvez não queiram nem precisem disso.
Por outro lado, países individualistas como as sociedades anglo-saxônicas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, podem se tornar locais bastante legalistas, sem o desejo de acreditar que o hospital fez o que pôde ou que o outro motorista não tinha culpa. Essa falta de confiança nos outros pode se tornar muito dispendiosa, porque nem a lei nem as seguradoras saem barato.
Os Estados Unidos enriqueceram porque seu individualismo foi forjado por um desejo de confiar em estranhos (ou depender deles) detentores dos mesmos valores ou crenças. Assim, instalou-se no país esse paradoxo, formado por uma ética muito individualista combinada com uma sociedade conformista. Um bom paradoxo, se pode dizer, mas confuso quando a pessoa se confronta com ele pela primeira vez todos esses indivíduos proclamando seu individualismo, mas usando exatamente as mesmas roupas e comendo a mesma coisa. A América foi, e ainda é, uma sociedade que prefere aplicar sua confiança nas associações civis a aplicá-la no governo, uma sociedade que definiu direitos, mas que aceita algumas responsabilidades cívicas como norma. Mais do que em qualquer outro país, aí as autoridades são eleitas localmente, e a religião exerce, com seus códigos de comportamento, um papel mais amplo na vida norte-americana do que na maioria dos países do Ocidente. A confiança, enquanto fé na comunidade, já esteve em alta e provavelmente ainda está, embora haja indícios de que tanto ricos quanto pobres estejam se retirando para seus guetos, acompanhados de seus respectivos e diferentes sistemas de valores.
Amigos, vizinhos e parentes à parte, logo estabelecemos outros tipos de famílias: redes e associações profissionais, ou "colméias", para os trabalhadores instruídos, assim como comitês e campanhas para os que estão inclinados às causas cívicas. Essas "comunidades de interesse" são agora os novos tipos de vizinhança, mais importantes na vida de muitas pessoas do que os locais físicos onde moram. As pessoas precisam de outras e, na maioria das vezes, as encontram. São essas comunidades que dão expressão real à nossa necessidade de pertencer a algo maior que nosso pequeno ninho. Em todas elas, a confiança é contrabalançada com o comprometimento. Onde não houver comprometimento, não poderá haver confiança.
PARTE C A CAMINHO DE UMA SOCIEDADE DECENTE
As idéias da segunda parte deste livro aplicam-se às instituições da sociedade tanto quanto aos indivíduos. O capitalismo precisa ser reinterpretado para tornar-se decente, e as empresas, que são as instituições-chave do capitalismo, precisam ser repensadas. A educação precisa ser reformulada para nos preparar para uma maior responsabilidade pessoal. O governo precisa retribuir responsabilidade ao seu povo. Somente assim poderemos sentir que a vida e a sociedade podem ser moldadas por nós. Se isso acontecesse, nossos valores poderiam ditar a maneira pela qual as coisas funcionam, e não o inverso.
A pedra branca empresarial Os norte-americanos falam cada vez mais em "alma" e personalidade de uma organização. Por alma querem dizer o espírito e o ambiente que permeiam o local de trabalho, algo mais do que a estrutura ou os sistemas ou até mesmo as recompensas financeiras. O argumento deste capítulo é este: a menos que as organizações tenham alma como consciência, não merecerão seu lugar na sociedade moderna e não sobreviverão. Em outras palavras, as organizações também precisam encontrar sua pedra branca para saber qual é seu propósito, ou telos (do grego, substantivo que significa fim, propósito ou objetivo final), pois também são espíritos famintos de coração, procurando o significado de sua luta.
A empresa bem-sucedida tentará assegurar que sua alma, personalidade ou essência durem mais que as carreiras efêmeras de seu pessoal. A empresa precisa visar a imortalidade, mesmo que nunca a atinja.
Os novos ativos Essas questões se tornam mais urgentes com o crescimento da propriedade intangível, os itens que não são lançados no balanço patrimonial marcas, pesquisa, redes, reputação, know-how e as "competências essenciais" do local. Os executivos principais sempre falaram da importância de seu pessoal, mas isso agora é para valer, porque a questão então é financeira. Em organizações como bancos de investimentos, agências de propaganda ou consultorias, não há nada lá a não ser valores intangíveis. O prédio é alugado juntamente com os computadores; os automóveis são contratados por leasing e os carpetes estão gastos. Se alguém comprar o negócio, estará comprando uma lista de clientes, algumas marcas de produtos e talvez alguma pesquisa, mas principalmente estará comprando a esperança de que os melhores empregados permaneçam com os novos proprietários. Pode-se colocar uma etiqueta de preços nessas coisas, é claro, mas não se pode ser proprietário de nenhuma delas (exceto, talvez, as marcas e a pesquisa) no sentido exato da palavra. Você não pode ser dono da esperança. Os ativos de pessoas que você comprou e pensou que fossem de sua propriedade podem desaparecer da noite para o dia. O próprio conceito de propriedade se torna nada realista neste cenário.
A empresa como cidadã As empresas não apenas têm cidadãos, elas são cidadãs. Têm direitos nas sociedades onde operam, mas também têm responsabilidades que as leis e os costumes lhes impõem. Esperamos sempre que nossas cidadãs empresariais ajam com decência. No mínimo, precisam de uma licença informal para poder operar.
A cidadania gira em torno da autonomia, a liberdade para levar a vida como bem entendemos. Em troca dessa liberdade, o Estado empresarial pode exigir pouco, mas pretender muito. Em uma democracia, os cidadãos têm a liberdade de emigrar. Você não pode impedi-los e tampouco exigir comprometimento pode apenas ter uma esperança nesse sentido. Juntar essa liberdade e esses direitos com os objetivos da organização é o verdadeiro desafio da empresa cidadã. Muitos gerentes prefeririam não aceitar o desafio, porque organizar pessoas talentosas é como arrebanhar gatos é difícil por definição. Precisamos de pessoas que não podemos controlar totalmente. Em vez disso, precisamos confiar nelas e elas em nós. O princípio é simples, mas a prática indica que isso raramente acontece.
Para começar, as organizações, assim como os indivíduos, precisam conquistar o direito de serem confiáveis. Porém, em um ambiente de eliminação de níveis e de terceirização, a lealdade para com a organização é uma commodity rara. O que é estranho, porque a lealdade vale dinheiro. Frederick Reichfield classificou o Efeito Lealdade, sugerindo que a deslealdade dos empregados, investidores e clientes pode impedir o desempenho e a produtividade em até 50%.
Uma vez estabelecida, entretanto, uma organização provida de confiança mútua em seu núcleo pode ser tanto criativa como eficiente. É óbvio que as pessoas trabalham melhor se não estiverem sempre à procura de outro cargo. Trabalham mais criativamente se respeitarem as pessoas ao seu redor e se acreditarem no que estão fazendo. Quando confiam na organização, quando estão comprometidas com suas metas e participam de alguma forma dos resultados do negócio, essas pessoas tendem a aceitar remanejamentos, novas funções e até cortes de salário generalizados.
As vantagens para uma empresa cidadã devem ser comprometimento e confiança mútuos. Mas a confiança precisa estar no sangue, não importa quão bem tenham sido projetados os sistemas ósseo e nervoso. Em um mundo onde o trabalho está onde você estiver, você ainda precisará trabalhar cada vez mais com pessoas que você não vê. Mais do que nunca precisamos confiar naqueles com quem trabalhamos. A gestão baseada na confiança depende de algumas regras e de princípios claros que têm se tornado o roteiro da empresa cidadã. Existem sete princípios cardeais de confiança: (1) a confiança não é cega, pois é imprudente confiar nas pessoas que você não conhece bem, pessoas que você não tenha visto em ação ao longo do tempo e que não estejam comprometidas com o mesmo objetivo; (2) a confiança precisa de limites, porque a confiança ilimitada não é realista na prática; (3) a confiança requer aprendizado constante; (4) a confiança é árdua, pois quando não se pode confiar é preciso checar novamente todos os sistemas de controle envolvidos; (5) a confiança precisa de vínculo; (6) a confiança precisa de toque, haja vista que o comprometimento compartilhado requer contato pessoal para que seja real; e (7) a confiança precisa ser conquistada.
Uma educação adequada
A filosofia do Egoísmo Adequado precisa começar cedo. Precisamos de uma abordagem para a educação que promova responsabilidade para nós e para os outros. "Como aprendemos", portanto, torna-se tão importante quanto "o que aprendemos", conforme descobri na minha própria formação escolar. Deixei a escola e a universidade com a cabeça cheia de conhecimentos o suficiente, de qualquer forma, para passar em todos os exames que estavam no caminho. Era, naturalmente, uma espécie de conhecimento parcial. Quando ingressei na indústria, tive um choque, pois ao encontrar-me pela primeira vez com o mundo exterior percebi que estava calamitosamente mal-equipado, não apenas para a necessidade de ganhar a vida, mas, o que é mais importante, para lidar com as novas decisões que se me apresentavam, tanto na vida particular como no trabalho. Uma mente bem-treinada não deve ser desprezada, mas logo descobri que minha mente tinha sido treinada para resolver problemas restritos, ao passo que a maior parte dos problemas que enfrentava eram amplos em seu escopo.
Classifiquei que minha educação, naquele momento, tinha sido positivamente inapta. Muitas das coisas que aprendi eram irrelevantes, enquanto o processo de aprendê-las tinha formado um conjunto de atitudes e comportamentos que eram diretamente opostos ao que precisa ser necessário na vida real. Seria bom lembrar que esse tipo de experiência não poderia acontecer agora e que nossas escolas, hoje em dia, preparam melhor os jovens para a vida e para o trabalho tão importante para se ter uma vida satisfatória. As matérias podem parecer um pouco mais relevantes, mas ainda aprendemos coisas sobre o trabalho no trabalho e sobre a vida. Isso sempre será verdade, mas poderíamos, acredito, fazer mais para assegurar que os processos da educação tivessem mais elementos em comum com os processos de viver e de trabalhar, como os conhecemos hoje, de modo que o choque da realidade fosse menos cruel. Eu acreditaria mais no Currículo Nacional se ele contemplasse mais o processo do que o conteúdo e se fosse mais voltado para valores e pessoas do que para conhecimento e coisas.
O Us National Center for Clinical Infant Programs relacionou recentemente sete qualidades das quais as crianças precisam para se dar bem na escola e na vida. São elas: confiança, curiosidade, intencionalidade, autocontrole, relacionamento, a capacidade de se comunicar e a capacidade de cooperar. Além disso, verifica-se que a capacidade de controlar o prazer é mais importante para o sucesso do que o QI. Daniel Goleman mistura todos esses ingredientes no que chama de Inteligência Emocional. É lamentável que nenhum currículo relacione essas capacidades como pré-requisitos.
Tenho a impressão de que uma escola voltada para a vida e o trabalho subscreveria as seguintes proposições, se a intenção fosse ajudar os alunos a começar a se responsabilizar por suas vidas, por suas crenças acerca do mundo e por aqueles com os quais trabalham, vivem ou encontram, e se a intenção fosse também tocar sua imaginação e inspirar seus corações. Ei-las: (1) a descoberta de si mesmo é mais importante do que a descoberta do mundo; (2) todo mundo é bom em alguma coisa; (3) a vida é uma maratona, não uma corrida de cavalos, isto é, em uma corrida de cavalos ganham apenas os três primeiros colocados, enquanto em uma maratona todos os que completam o percurso são vencedores; (4) saber "o quê" não é tão importante quanto saber "onde", "como" e "por quê"; (5) a escola deve ser como o trabalho e vice-versa; (6) a vida é uma viagem que começa em casa; e (7) o aprendizado é uma experiência compreendida na tranqüilidade
Uma tarefa para o governo
Não é suficiente promover a responsabilidade e a autonomia no trabalho e na escola. Faz pouco sentido desenvolver a idéia de uma cidadania plena no trabalho se esta não se aplica à sociedade como um todo. O governo exerce muitos papéis, da defesa do reino à provisão e proteção da infra-estrutura do país. Estamos preocupados aqui somente com o papel que ele pode e deve ter na promoção da responsabilidade pessoal, tanto para o indivíduo como para todos os cidadãos.
Precisamos considerar, em primeiro lugar, as implicações do seguinte fato: o capitalismo prospera na desigualdade. Os mercados separam o sucesso e o insucesso de maneira bastante radical. Esse processo competitivo cria riquezas para o país como um todo, mas não as dissemina. O dinheiro é como o esterco, disse Francis Bacon há séculos se não for espalhado não serve para nada. A responsabilidade do governo é usar parte da riqueza criada pelo mercado, não para torná-la mais fácil para todos, mas pelo menos para tornar a vida possível: não compartilhar o dinheiro, mas para investi-lo a fim de construir uma sociedade decente. Não se pode deixar para os que detêm a riqueza a tarefa de disseminá-la, porque muitos não o farão, e, como já dissemos, o dinheiro não corre à solta, nem se espalha rapidamente e de maneira suficiente.
Todos nós queremos uma sociedade decente, e sabemos que custa dinheiro construí-la. Nossos países afluentes são desfigurados pela pobreza das periferias, pela ignorância, ira e violência. Podemos cada qual explicar que seria gratificante, a longo prazo, ter uma melhor educação para todos, que a ajuda dada a famílias em dificuldades nos livra de gastar dinheiro mais tarde para termos mais polícia em nossas cidades e mais prisões. Em certo sentido, é Adequadamente Egoísta desejar uma sociedade decente e estar preparado para pagar seu preço. Por que, então, não votamos a favor de impostos mais altos? A resposta parecer ser a de que não confiamos que nossos governos gastem o dinheiro da maneira como gostaríamos.
A tese da responsabilidade pessoal e do Egoísmo Adequado será um sonho vazio para muitas pessoas, a menos que possamos equipá-las com os recursos adequados para conquistar algum tipo de "suficiente" em termos materiais, para depois ir além, realizar seu objetivo na vida e encontrar sua pedra branca. Tornar esse tipo de responsabilidade uma possibilidade realista para todos é uma das principais obrigações do governo como servo de seu povo. Este capítulo abrange a maneira pela qual os governos podem fazer isso, além de suas demais obrigações.
Um governo subserviente deve proporcionar uma infra-estrutura para a vida, não a sua super-estrutura, porém deve flexibilizar essa infra-estrutura para torná-la mais acessível àqueles que não se deram bem na economia de mercado ou que possam ser assim afetados por ela no futuro. Construir sobre essa infra-estrutura constitui nossa responsabilidade pessoal; cultivar essa responsabilidade é que dá sentido à vida.
A primeira tarefa, portanto, é resolver o que significa infra-estrutura de vida em nossa sociedade moderna, o que fica por conta do indivíduo e como essa infra-estrutura deve ser flexível. Um governo subserviente também precisa estar sob o controle dos cidadãos se pretende ser um servo adequado. A Informação o direito de saber o que está se passando -, o Envolvimento o direito de participar das decisões, ao contrário de deixar tudo para "eles" - e a Individualidade o direito a certas liberdades e proteções desse governo são os três elementos essenciais da Cidadania Apropriada. Os governos que dizem "eleja-nos e deixe que nós cuidaremos de tudo, sempre no seu melhor interesse" estão transformando a democracia em paternalismo eleito ou, menos generosamente, em uma ditadura eleita.
O que vale como infra-estrutura? Quanto vai ficar a nosso cargo e quanto deve os governos gastar em nosso benefício? Os governos ocidentais já perceberam que andaram até a beirada de um precipício e que, se continuarem como estão, cairão em um buraco sem fundo porque suas promessas excedem em muito sua habilidade de pagar. Como resultado desse impasse econômico, todos os governos estão sendo forçados a cobrar mais responsabilidade de seus cidadãos. O primeiro passo para recuar da beira do abismo tem sido livrar-se de todas as atividades que não deveriam estar exercendo, administrando negócios que o setor privado poderia fazer perfeitamente e geralmente melhor. As receitas das privatizações, é claro, ajudaram a encher os cofres públicos, reduzindo o montante que de outra forma teria de ser tomado por empréstimo ou pela elevação dos impostos.
O passo seguinte é vender os monopólios estaduais, tais como água, gás e eletricidade, e vendê-los como monopólios privados, porém regulamentado pelo Estado. O terceiro passo poderia ser mais promissor, embora pouco influa para mudar a contabilidade do governo. Tome assuntos como saúde pública e educação e dê aos cidadãos mecanismos de escolha entre os vários provedores, talvez dando aos primeiros algo como vales, o equivalente a cheques assinados pelo Estado para que possam gastar no estabelecimento de sua escolha. A idéia básica é fazer com que os provedores - sejam hospitais, escolas ou universidades se transformem em uma espécie de negócio e melhorem seus incentivos e sua eficiência.
A verdadeira revolução, entretanto, surge com a privatização da assistência social e dos sistemas de pensões, que são os responsáveis por quase a metade de todos os gastos do governo e que somente tendem a aumentar à medida que a população envelhece. Se nada for mudado, por exemplo, e se os impostos forem mantidos nos valores atuais, o déficit público dos Estados Unidos em 2030 equivalerá a 250% do PIB, duas vezes o nível que alcançou ao final da Segunda Guerra Mundial. Isso não vai acontecer, porque custaria muito dinheiro, em juros, para tomar emprestado esse valor, mesmo que houvesse alguém disposto a emprestá-lo. A situação não é diferente na Europa e no Japão. Alguma coisa precisa mudar. O que precisa mudar é nossa responsabilidade pelo nosso próprio futuro financeiro.
Restaurando o trabalho A riqueza a ser distribuída, entretanto, é criada pelo trabalho. O trabalho também é a chave para um sentido de responsabilidade pessoal e constitui o problema mais sério de todo país. Os baixos índices de desemprego são ilusórios nos países desenvolvidos. O número reduzido daqueles que reivindicam benefícios muitas vezes significa que as pessoas resolveram deixar a força de trabalho mais cedo. Essa não é uma boa notícia. As pessoas precisam permanecer na economia de salário o maior tempo possível, tanto para que possam se manter como para que diminuam o ônus sobre a geração seguinte. O trabalho, portanto, precisa ser bom, para garantir um salário para se viver bem e proporcionando algum sentido de valor pessoal. Se não fizer nenhuma dessas coisas, a sociedade continuará a ficar mais desigual, e um número maior de pessoas será desenganado.
Reinventando a democracia Até agora sugeri apenas o remanejamento da estrutura tributária, de modo que uma parte menor de nossos pagamentos passe pelas mãos do governo, deixando-nos com um sentido maior de responsabilidade pelas nossas vidas, mesmo desembolsando o mesmo dinheiro. Sugiro que devemos levar a sério o desejo expresso da maioria em pagar mais impostos se isso formasse uma sociedade mais civilizada, e se houvesse mais confiança nos resultados de seu dispêndio. Pagar mais impostos seria uma idéia até aceitável se isso fosse votado e gasto localmente. Se pudermos observar a melhoria do meio ambiente, se pudermos novamente nos orgulhar das escolas e dos hospitais da região, só então sentiremos que nossos impostos foram empregados como queríamos. E, se as coisas não melhorarem, sabemos quem são os responsáveis e podemos impedi-los de exercer um novo mandato. A democracia ainda pode funcionar, se for local.
Sou também defensor da idéia dos impostos hipotecados ou alocados. Nenhum governo gosta desses impostos, porque suas mãos ficam atadas, exigindo que os impostos sejam empregados naquilo para que foram coletados, além de mostrar como o dinheiro foi empregado. A relutância é compreensível, porém a eficiência precisa ser temperada com a eficácia. Se pagássemos um imposto separado para a saúde, sentiríamos tratar-se mais de um seguro do que um imposto, e compreenderíamos melhor o quanto custa a saúde. O mesmo se dá com a educação.
Esses impostos alocados precisariam ser graduados como o imposto de renda é agora, mas, ao se retirar a saúde, a educação e as pensões do orçamento geral, os governos poderiam eliminar o imposto de renda para os cidadãos, exceto usando-se os mais ricos. O imposto de renda, visto como um imposto sobre o trabalho, sempre foi recebido com ressentimento, e sempre foi agregado ao custo desse trabalho. Eliminar a maior parte desse imposto e depender dos impostos de consumo de vários tipos para obtenção dessa arrecadação geral encorajaria as pessoas a trabalharem mais, mesmo por salários modestos, e assim economizarem mais porque somente o consumo seria taxado.
Para finalizar, um governo voltado ao povo precisa ser visto como trabalhando para seus cidadãos, com seu consentimento e aprovação, e não os manipulando à sua conveniência. Se vamos sentir que nosso governo está nos servindo, precisamos estar informados, encorajados a participar quando for o caso e ter a certeza de que nós, como indivíduos, teremos a garantia de nossas liberdades básicas. Conquanto muitas vezes seja necessário lembrar às pessoas que seus direitos envolvem obrigações, é também pertinente lembrar a nossos governantes - que devem ser nossos servos que as obrigações precisam ser balanceadas por direitos, porque são os direitos que amparam a dignidade.
No meu ponto de vista, estas são boas notícias, porque permitem aos indivíduos que se envolvam mais com as coisas que mais lhes interessam. Estarão mais no controle das decisões de sus vidas e mais capacitados a ter voz ativa nos assuntos de sua região. A responsabilidade, tanto para esses indivíduos como para as pessoas que os cercam, será realçada. O auto-respeito crescerá como resultado do aumento dessa responsabilidade, e com o auto-respeito haverá uma tolerância maior para com o direito e o modo de ser dos outros. A sociedade deverá se tornar, gradualmente, menos enfurecida. Terá prevalecido Egoísmo Adequado.
O ponto final da jornada poderá ser desejável, porém chegar lá não vai ser fácil. Os governos se contorcerão em seus esforços para manter o controle. Profissionais de todas as áreas farão resistência à mudança de seu status como guardiães do conhecimento para se tornarem conselheiros e intérpretes. Haverá a tentação de tornar as coisas mais complicadas do que o necessário, a fim de reter a necessidade do perito. Levaremos algum tempo para perceber que podemos fazer mais por nós mesmos do que imaginávamos. Mas, assim como o faça-você-mesmo decolou na área dos melhoramentos domésticos logo que a tecnologia facilitou as coisas, assim provavelmente será na área da informação.
Entretanto, vamos nos sentir nus às vezes, confusos com o excesso de informações e com a complexidade de muitas coisas em nossas vidas. A liberdade para experimentarmos essa responsabilidade expandida requer que há um limite para a segurança pessoal. É por esse motivo que a Grã-Bretanha precisa de uma Carta de Direitos. Os Estados Unidos têm sua Constituição e uma Suprema Corte para proteger os direitos individuais nela inseridos. A Grã-Bretanha tem apenas um acúmulo de precedentes. Não é a mesma coisa, em parte porque não é tão transparente e em parte porque os precedentes podem ser invalidados pelos políticos. No mínimo, os artigos da Convenção Européia deveriam fazer parte da legislação britânica, com o apoio da Comissão de Direitos Humanos, para assegurar que a legislação e os métodos de ação não infrinjam nossos direitos como cidadãos. Tomar decisões gradativamente, com pequenas leis individuais, é perder uma oportunidade simbólica. A maioria das pessoas não percebe os pequenos detalhes e a letrinha miúda da legislação. Precisamos ter direitos impressos em tipos grandes e claros para que possamos mais ousadamente exercitar nossa responsabilidade. A responsabilidade nasceu dos direitos, e não o inverso, e continua sendo a chave para o verdadeiro Egoísmo Adequado.