As ondas do amor

Marcelo Barros [*]

Na maior parte dos países, o dia 14 de fevereiro foi celebrado como dia dos namorados. No Brasil, comemora-se essa data em junho. No 14 de fevereiro, se comemora o dia da amizade. Há quem pense que a amizade seria um amor menor ou menos intenso. No entanto, o poço do amor é um só e engloba formas e expressões diversas. Amor é amor, seja amor de mãe, de namorados, de irmãos e de amigos/as.

Os antigos gregos distinguiam o amor instintivo (eros), do amor mais gratuito e leve (philia). O Novo Testamento grego reservou para o amor divino o nome de agapé, amor generoso e solidário que cria amor onde não há. O risco dessas distinções é fazer uma filosofia teórica do amor, mas na realidade diluir a sua força. Na Bíblia, o Cântico dos Cânticos exclama: “O amor é forte como a morte. Nada pode deter as ondas da paixão”. Os gregos esculpiram o desejo (Cupido) com uma flecha. Quando alguém era atraído pelo desejo amoroso, se dizia que foi ferido pela flecha de Cupido. De fato, o amor vem como um golpe que, no primeiro momento, arrebata e toma a pessoa por inteira. Mistura-se com a paixão e é a energia mais profunda e renovadora da vida.

Em um livro chamado “A biologia do amor”, Humberto Maturana, neurobiólogo chileno, afirma: “O que guia o fluxo do viver individual são as emoções. Na própria constituição evolutiva do ser também é o amor que provoca a continuidade”. “A dinâmica relacional do amor está na origem da própria vida e determinou o surgimento da linguagem, responsável pelos laços de comunicação e que inclui ações, emoções e sentimentos. (…) A aceitação do outro, ou seja, o amor solidário é o fundamento biológico do fenômeno social. Sem amor, sem aceitação do outro, não há socialização e sem essa não há humanidade”.

Quando lemos isso e vemos como está o mundo atual, sentimos como se estivéssemos caminhando no sentido inverso. A sociedade parece marcada pela construção social do desamor. O que, comumente, é chamado de desenvolvimento acarreta mais desigualdade social. Tem como regra a competição e absolutiza o lucro de alguns e não o bem-comum. No mundo atual, 60 famílias possuem uma riqueza equivalente ao ganho da metade mais pobre da humanidade. No Brasil, essa equação chega ao absurdo de cinco brasileiros possuírem uma riqueza igual à metade pobre da população. E essa elite econômica perdeu o pudor. Agora, não admite mais qualquer possibilidade de não ter nas mãos todo o poder político, sem precisar dividi-lo com ninguém. Grande parte da população continua anestesiada pelos grandes meios de comunicação que servem aos interesses da elite que está no poder. Em alguns países, como ocorreu nas eleições presidenciais norte-americanas, ou mesmo no Brasil, em cidades como São Paulo, muita gente desiludida vota no pior. E as consequências são sempre desastrosas.

Diante dessa realidade, as pessoas que buscam um caminho espiritual precisam ajudar a humanidade a descobrir que o amor solidário pode ser a saída para a crise. O amor é sentimento interpessoal, mas não fica só nisso. Pode ser um padrão para a organização social. Responderá à onda de intolerância e ódio com diálogo e inclusão. Na América Latina, os índios chamam essa proposta de Bem-viver. De modo algum, isso nega que existe uma luta de classes provocada pela elite e não temos como evitá-la. Com sua luta não violenta, Ghandi tornou a Índia independente. O pastor Martin-Luther King conseguiu as leis de igualdade racial nos Estados Unidos. Nesse ano, a CNBB nos propõe como Campanha da Fraternidade a superação da violência. Durante a segunda guerra mundial, em um campo de concentração nazista, Etty Hillesum, judia de 28 anos, escrevia: “O inimigo pode nos tirar tudo, mas não podemos permitir que ele nos roube o que temos de mais profundo e íntimo: nossa humanidade. Não podemos permitir que o ódio deles nos envolva”. Temos de nos educar para o amor como caminho de reconstrução social.

  • [*] Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e biblista, é membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT) e assessora comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação. E-mail: contato@marcelobarros.com Site: www.marcelobarros.com
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Fevereiro 20th, 2018 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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