Povos indígenas, parceiros do bem-viver

Marcelo Barros [*]

Há poucos dias, no Chile, o papa visitou os índios Mapuche. Viu que, como em todas as Américas, ali também os povos indígenas foram despojados dos seus territórios e assistem ao processo de destruição da natureza. O sul do Chile está sendo entregue a grandes empresas multinacionais para a criação industrial de peixes, privatização da água e outras formas de exploração da terra e dos bens que deveriam ser comuns. Em Santiago, o papa declarou que os povos originários têm direito a suas terras ancestrais e devem ser os interlocutores principais de um diálogo em vista do futuro da humanidade e do cuidado com a Terra.

Também aqui no Brasil, a vida dos índios não tem sido fácil. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) órgão da CNBB, publicou um relatório esclarecedor: em 2016, no Brasil, 118 índios foram assassinados. Além disso, 106 se suicidaram. Deles, a maioria era de jovens e adolescentes. Também 735 crianças indígenas, menores de cinco anos, morreram, a maioria vítima de desnutrição infantil. O relatório sobre o martírio dos índios no Brasil de 2017 ainda não foi concluído, mas promete ser mais grave. O Ministério Público investiga um massacre de índios ainda isolados e que foram atacados por garimpeiros clandestinos no vale do Javari a 1000 Km de Manaus na Amazônia (Folha de São Paulo, 06/ 01/ 2018). Na madrugada do 1o de janeiro, enquanto as pessoas festejavam o ano novo, em uma paria da Penha, S.C., um homem branco, com um pedaço de madeira, agrediu até matar um índio Xogleng. Marcondes Namblá, de 38 anos, era professor formado na Universidade de Santa Catarina. Outras lideranças indígenas estão ameaçadas de morte.

Nessa semana, o Rio Grande do Sul recorda a memória de Sepé Tiaraju, cacique guarani que, no século XVIII, chefiou o seu povo na luta de defesa do seu povo e do seu direito à terra. Por 150 anos, os Guarani viveram nas cidades missioneiras, onde estabeleceram uma sociedade mais solidária e livre. Os impérios de Portugal e Espanha se aliaram para conquistar a República Guarani. Contra os índios, uniram-se os dois exércitos de Portugal e Espanha. Usaram canhões e morteiros. Dizimaram os sete povoados das missões, matando todos que podiam matar e levando como escravos os poucos que escaparam vivos. No dia 07 de fevereiro de 1778, Sepé e 1500 companheiros índios tombaram mortos em combate às margens do riacho Caiboaté. Até hoje ressoa pelos pampas o seu grito aos soldados invasores: “Parem. Essa terra tem dono. Nós a recebemos de Deus e de São Miguel”.  Hoje, com tradução mais atualizada, esse grito pela defesa da terra e das águas é retomado na 41ª Romaria da Terra e das Águas que acontece em Osório no norte do Rio Grande do Sul, nesse 13 de fevereiro, 3ª feira de Carnaval. Em todo o Brasil, essa iniciativa das romarias da Terra se fortaleceram a partir de 1978. Naquele ano, irmãos e irmãs de todo o Brasil, retomaram a experiência nascida em Bom Jesus da Lapa, BA e vieram a primeira romaria da Terra, no Rio Grande do Sul. Ela se reuniu nas ruínas de São Miguel, o mesmo lugar em que 200 anos antes, Sepé Tiaraju liderava o seu povo para orar e lutar por seus direitos.

A partir daquele ano, por todo o país se espalhou o costume das romarias da terra. Elas são expressões de um movimento mais amplo por justiça, direitos humanos e dignidade que, em todo o Brasil, reúne lavradores, índios e moradores das periferias urbanas.

Comunidades cristãs e pastores de várias Igrejas participam dessa caminhada e procuram ligar a caminhada dos índios na busca do bem-viver à luta dos lavradores e dos trabalhadores urbanos. Todo o povo pobre busca ligar fé com a vida e com a luta pela justiça. Atualmente, em um Brasil dominado pela desigualdade social e pelo descrédito na Justiça e na dignidade da Política democrática, é preciso lembrar que a Política, como dizia o papa Paulo VI, é a mais nobre forma de caridade cristã. Através do exercício da cidadania, podemos sim organizar o mundo a serviço da justiça, da paz e da defesa da terra, da água e de todo o universo criado por Deus.

  • [*] Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e biblista, é membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT) e assessora comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação. E-mail: contato@marcelobarros.com Site: www.marcelobarros.com
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Fevereiro 05th, 2018 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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