Sociólogos rurais da América Latina reunidos em Porto de Galinhas

Cerca de 1.500 sociólogos rurais responderam ao chamado de sua associação latino-americana, a Alasru, e participaram neste mês de novembro do 8º Congresso, que aconteceu em Porto de Galinhas, uma bela praia do nordeste brasileiro. Durante muito tempo se discutiu se a sociologia devia ser acompanhada pelo qualificativo “rural” ou “agrário” para indicar a subdisciplina. Neste novo século nossa proposta foi dar um importante passo e integrar a “questão dos recursos naturais”. Em alguns espaços minoritários se refletiu sobre estes novos problemas, somando lutas, imbricando agronegócio com mineração, água, a construção de grandes hidrelétricas e os sofrimentos sociais que tudo isto acarreta.

A reportagem é de Norma Giarracca, professora titular de Sociologia Rural e pesquisadora do Instituto Gino Germani (UBA), e está publicada no jornalPágina/12, 30-11-2010. A tradução é do Cepat.

Mas a recorrente “sociologia rural” resistiu em abandonar a discussão dos temas que a acompanharam durante grande parte do século XX. A grande expansão da soja no Brasil, Argentina (e em termos relativos na Bolívia, Paraguai e Uruguai), foi compreendida nos dois sentidos cruciais que dividem os acadêmicos e todas as sociedades: “modernização capitalista” ou “agronegócio extrativo e devastador”.

A “agricultura familiar” teve a mesma polissemia: unidade com definição problemática nos tempos atuais ou proposta dos “expertos” do Banco Mundial que sonham em converter os rebeldes camponeses da América Latina em dóceis e pequenos agentes do mercado; a problemática do trabalho rural, a questão de gênero e propriedade da terra, a educação e a extensão agrícola foram alguns outros significativos pontos tratados.

Foi um encontro plural e completo em termos de velhas e novas discussões, mas a organização brasileira não teve melhor ideia para o Congresso do que escolher um hotel tipo resort, fechado, com obrigação de usar fitas nos braços para identificar os “de dentro” dos “de fora”, o que levou a intoleráveis discriminações dos jovens que não se hospedaram no caro hotel (que alojava os convidados). Foi uma escolha infeliz (assim como a de distribuir portfólios de plástico), que as autoridades da Alasru não souberam parar a tempo, e produziu barreiras além das físicas.

Com efeito, o enclaustramento impediu ver o que acontecia nas vizinhanças do hotel, ou impediu a participação do Movimento dos Sem Terra do encontro. Pior ainda, o enclaustramento fez com que muito poucos colegas se inteirassem de que nesses cinco dias estavam acontecendo graves fatos que não podem deixar de nos interpelar. Morreu o Ezequiel, um menino argentino que trabalhou com seus pais toda a sua curta vida em uma empresa avícola, em péssimas condições de trabalho. Sua curta vida transcorreu entre o sangue e o esterco das galinhas, manipulando venenos com elementos cancerígenos que a empresa impõe para atingir índices recordes de produção, explica o comunicado que denuncia a morte.

O Congresso também não se inteirou de que quatro camponeses hondurenhos foram assassinados pelos jagunços de um conhecido proprietário de terras da direita desse país. Todos eram membros ativos do Movimento Camponês Aguan, filiados à Central Nacional de Trabalhadores do Campo, à Associação Nacional de Camponeses Hondurenhos e à Via Campesina Internacional, que solicitou encarecidamente que se tornasse público mundialmente este massacre.

Lamentavelmente, a Alasru não fez nenhuma declaração sobre estes (e muitos outros) graves acontecimentos destes mundos sociais, e talvez tenha sido porque os grandes hotéis turísticos da nossa América são imunes contra os sofrimentos sociais de suas adjacências. Mas, a universidade pública – com todos os seus problemas de infraestrutura – deve continuar a ser a sede privilegiada destes eventos se quisermos preservar o pensamento crítico e o compromisso social latino-americano.

Fonte IHU Unisinos

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dezembro 01st, 2010 Postado por : admin Arquivado em: Notícias ,

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