Resistir, esperar, inventar

Por Marcelo Barros [1]

Esse foi o tema geral do 7o Fórum Mundial de Teologia e Libertação em Montreal, no Canadá. Durante quase uma semana, Montreal abrigou o 12o Fórum Social Mundial. Pela primeira vez, esse encontro dos movimentos sociais e da cidadania internacional se reuniu em um país rico do norte do mundo. Ligado ao fórum social, teólogos/as cristãos de várias Igrejas se reuniram em um Fórum Mundial de Teologia e Libertação para refletir sobre como viver a fé e testemunhar a esperança em meio a esse mundo tumultuado e cheio de desafios. Esse encontro de teólogos/as reuniu mais de 400 pessoas, de todas as províncias do Canadá e ainda irmãos e irmãs, vindos de 23 países do mundo.

Nunca como agora tem sido tão importante nos reunir e nos animar na resistência e na esperança. O mundo está mergulhado na maior crise ecológica de sua história. Essa crise, provocada pelo sistema social e econômico que a sociedade dominante impõe à maioria da humanidade tem consequências terríveis para o planeta e torna a sociedade cada vez mais desigual e injusta. Em 2015, um relatório da Oxfam, instituição ligada à ONU, confirma que menos de 20% da população se apropria de 94% de todas as riquezas do mundo. E mais da metade dessa riqueza está nas mãos de apenas 1% da humanidade.

Não podemos ser coniventes com esse modo de organizar o mundo e, ao mesmo tempo, nos sentimos frágeis para mudá-lo imediatamente. Por isso, a resistência se torna um imperativo para esses tempos difíceis. Essa palavra (resistência) foi o termo usado na França ocupada pelos alemães nazistas. A resistência era, então, a organização de grupos clandestinos nos quais as pessoas arriscavam a vida para esconder judeus e suas crianças da sanha assassina dos nazistas e também para empreender ações armadas para libertar o país. Agora, apesar de não termos um regime nazista, temos uma ditadura econômica. E não é mais apenas um país que é ocupado. Esse modo cruel e assassino de organizar a sociedade domina e maltrata continentes inteiros. E conta com o apoio dos grandes meios de comunicação para convencer a população que não há alternativas e a única forma de organizar o mundo é essa.

Quem tem consciência ética não pode ser conivente com essa situação. Atualmente, entrar na resistência significa revelar ao mundo as contradições e a face cruel do sistema que tenta apresentar-se como ético. Mesmo se somos obrigados a viver nesse mundo, de acordo com suas regras e valores, podemos nos esforçar por nos manter o mais possível livres e comprometidos em defender a liberdade de nossos irmãos e irmãs mais frágeis. Gandhi e Martin-Luther King propunham para a resistência dois princípios fundamentais da ação não violenta: a não cooperação com o sistema e a desobediência civil. Como não podemos fazer isso sozinhos e isolados, precisamos nos integrar nos grupos que buscam outro mundo possível e promovem ações comunitárias alternativas.

No latim, resistir (resistere) é um modo novo de existir (ex-sistere) no sentido de manter-se de pé diante das dificuldades.  No plano pessoal, isso exige de nós um estilo de vida simples, baseado na cooperação e não na competição. Supõe que fortaleçamos os laços de partilha e amizade. Ao mesmo tempo, precisamos nos abrir, cada vez mais, à arte e à beleza da natureza. Assim, manteremos nosso equilíbrio pessoal na relação justa entre silêncio e palavra, tempo e infinito. Uma canção chilena nos adverte:

“Deixa de pensar que tudo está perdido,
Torna a descobrir que sempre há um motivo,
Deixa de pensar que não tem sentido,
Volta a imaginar que os rios sempre dão para o mar”.

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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agosto 24th, 2016 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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