Religião e Terror

Por Marcelo Barros [1]

Nesses dias, um dos assuntos mais frequentes na imprensa internacional é o Terrorismo. Ele é apresentado como ações de fanáticos desumanos que atentam criminosamente contra a civilização. Quem olha de forma mais crítica jamais se colocará do lado de quem mata inocentes e, seja por qual for a causa, semeia no mundo o ódio e a violência. No entanto, sabe que não existe um império do bem em luta contra as forças do mal. Há denúncias sérias e comprovadas de que grupos terroristas são criados e armados pelo próprio Império norte-americano para se legitimar e para dar aos governos aliados do Ocidente o pretexto para exercerem maior controle sobre os cidadãos. Assim, se cria uma situação de insegurança, na qual a guerra se torna necessária. Afinal, como terroristas de países periféricos podem ter as armas mais sofisticadas? Quem os assessora em técnicas de guerra que só governos e empresas do mundo rico conhecem?

Atualmente, a opinião pública liga qualquer ato terrorista com o que se convencionou chamar de Estado Islâmico (EL). De fato, o EL nem é Estado, nem é islâmico. Prisioneiros que dele escaparam com vida afirmaram que seus militantes não conhecem e não praticam o Islamismo.

Pelo fato de lidar com as pulsões mais íntimas do ser humano e buscar resposta para as questões mais profundas da vida, toda religião mal compreendida pode se transformar em fanatismo e gerar atitudes violentas. Os fundamentalismos são movimentos religiosos que se colocam contra quaisquer formas novas de interpretar a fé. O fundamentalismo surgiu no início do século XX, em meios cristãos evangélicos dos Estados Unidos e até hoje, em todo o mundo, os Estados Unidos são o centro no qual o fundamentalismo é mais forte. Ali, em pleno século XXI, nas universidades, professores e estudantes ainda se dividem entre evolucionistas e os tais criacionistas que creem que a criação do mundo ocorreu conforme o relato da Bíblia, lido ao pé da letra.

Em 2002, diante de milhões de telespectadores, o presidente dos EUA afirmou que, naquela noite, Deus Pai lhe tinha ordenado invadir o Iraque. E assim foi feito com as consequências que o mundo inteiro vê até hoje.

No mundo atual existem grupos fundamentalistas judeus, cristãos, budistas e também muçulmanos. Embora o termo fundamentalista seja sempre ocidental e uma forma ocidental de julgar, existe um radicalismo islâmico que justifica, em nome de Deus, a violência simbólica e mesmo física, quando necessária. A maioria desses grupos radicalistas justifica a pena de morte. No entanto, normalmente, não praticam o terrorismo como meio para impor suas ideias.

No mundo atual, o terrorismo de grupos marginais parece se multiplicar como reação a um mundo organizado de forma cruel e injusta,  no qual 62 indivíduos possuem uma riqueza correspondente à metade da humanidade. Se somarmos todas as vítimas do terrorismo no mundo, nem de longe se aproximam do número de crianças e pessoas idosas que a, cada dia, morrem de desnutrição e fome, provocadas por esse sistema. Menos ainda se juntarmos a esse número, as vítimas das invasões e guerras preventivas realizadas pelos governos ocidentais. Já em 1968, os bispos católicos da América Latina, reunidos na sua 2ª conferência geral, em Medellín, Colômbia, chamaram atenção para o que chamaram de “injustiça institucionalizada”. É isso que torna o mundo mais inseguro e violento. É isso que, de forma lamentável, acaba legitimando os atos terroristas.

Embora os fanáticos não saibam fazer essa distinção, o que os grupos radicais ligados ao Islamismo odeiam não é o Cristianismo das comunidades ou a fé cristã como aparece na Bíblia e sim a Cristandade. Essa é o regime social e político que, desde o século XVI, legitimou os impérios do Ocidente e sempre se colocou do lado dos conquistadores. Na invasão dos países da África e Ásia, os missionários sempre estavam ao lado dos soldados. Os alvos principais dos grupos terroristas são países europeus que colonizaram de forma violenta países da África e da Ásia e até hoje mantêm políticas de tipo imperialista. Nesse ano, quem mais sofreu atentados foi a França, que mantém operações militares na Síria, Iraque e Mali, além de ser o país europeu que abriga o maior contingente de migrantes de cultura islâmica. Eles, juridicamente são cidadãos franceses, mas sofrem diariamente consequências do forte racismo da sociedade francesa de origem e vivem em periferias pobres, confinados em verdadeiros guetos. Muitos jovens que partem para pertencerem ao EL são oriundos dessa população marginalizada e discriminada pelos franceses. Sem dúvida, têm havido ataques terroristas em outros países e mesmo em cidades como Kabul e Bagdá. No entanto, por trás de cada um desses atos está sempre a revolta generalizada contra o Ocidente, identificado como “cristão”.

O remédio contra o terrorismo jamais será entrar na mesma lógica e responder ao terrorismo de grupos fanáticos com terrorismo de um Estado dominador que se pretende impor pelas armas. O mundo só terá paz quando, como canta o poeta Zé Vicente: “as armas da destruição foram destruídas, as mesas se encherem de pão e tombarem as cercas que fecham os jardins. Aí o dia da paz renascerá nos corações e na vida de todos os seres humanos”.

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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agosto 17th, 2016 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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