“Mulheres do lar: e as que não se enquadram nessa categoria?” é tema do Humanitas em Diálogo

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O Instituto Humanitas Unicap realizou, na noite do dia 18, no auditório do bloco B, o Humanitas em Diálogo com o tema “Mulheres do lar: e as que não se enquadram nessa categoria?” Participaram do evento, como palestrantes, a advogada sanitarista, especialista em Direitos Humanos, Vera Baroni, e a advogada, poetisa, pesquisadora e professora do curso de Direito da Católica, Andrea Campos. A mediação ficou por conta da coordenadora do Espaço Criança Esperança de Jaboatão dos Guararapes, líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Raça, Gênero e Políticas Públicas e professora do curso de Serviço Social da Unicap, Valdenice Raimundo.

Vera Baroni, que coordena a Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco e a Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, apresentou a palestra “Mulher recatada, bela e do lar”.

IMG_2016_Vera Baroni iniciou sua apresentação abordando a conferência de Durbam 2001, dizendo: “Estamos convencidos de que o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerâncias correlatas revelam-se de maneira diferenciada para mulheres e meninas, e podem estar entre os fatores que levam a uma deterioração de sua condição de vida, à pobreza, à violência, às múltiplas formas de discriminação e à limitação ou negação de seus direitos humanos. Reconhecemos a necessidade de desenvolver um enfoque mais sistemático e coerente para avaliar e monitorar a discriminação racial contra mulheres, bem como as desvantagens, os obstáculos e as dificuldades que as mulheres enfrentam para o pleno exercício e gozo de seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais como consequência do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata.”

Em seguida, falou sobre o legado das ancestrais. “Desde de tempos imemoriais da África, as mulheres resistem, se empoderam e se organizam em sociedades próprias e especificas. Quero homenagear algumas matriarcas: de Pernambuco, Tia Inês, Dona Maria Joaquina da Costa – Ifátinuké, a que plantou o Axé do Xangô pernambucano, organizando ritualmente o Terreiro Ilê Obá Ogunté, Sítio do Pai Adão; da Bahia, as três escravas libertas que abriram o Ilê Iyá Nassô, Casa Branca do Engenho Velho; do Rio de Janeiro, a professora Lélia Gonzalez, feminista negra que afirmou que ‘Chegou a hora da Mulher Negra falar por sua própria voz’.

Quando abordou o tema: “Mulher recatada, bela e do lar”, Vera Baroni deixou no ar quatro perguntas: “Que mulher é essa?”; “Como ela se relaciona com a sociedade de seu tempo?”; “A quem interessa esse perfil de mulher?” e “Esse perfil de mulher se aproxima do perfil da mulher pernambucana e nordestina?”.

 

ideograma-sankofaFinalizou com uma citação intitulada “Voltar e recolher de novo aquilo que ficou para trás”, de Abade E. Glover (1969): “Para Elisa Larkin Nascimento, o idiograma Sankofa pertence a um conjunto de símbolos gráficos de origem Akan, chamado Adrinka, com significado complexo que expressam conceitos filosóficos. Voltar às suas raízes e construir sobre elas o desenvolvimento, o passado e a prosperidade de sua comunidade, em todos os aspectos da realização humana”.

Clique aqui a acesse os slides de sua palestra.

Com um bom público presente no auditório, a professora Andrea Campos, que é mestra em Políticas Públicas pela UFPE, e conselheira consultiva da Cátedra Dom Helder Camara de Direitos Humanos, falou sobre “Mulher: Nome Próprio”.

IMG_2059_Professora Andrea Campos começou sua fala dizendo: “Se a mulher quiser ser do lar, ou trabalhar fora, ela terá que ter o nosso apoio. Se essa mulher quiser ser prostituta, ela tem que ter o nosso apoio. Então, o lugar da mulher é onde ela quiser estar, com o nosso apoio, gozando de direitos e sendo respeitada. Nesse fato, que houve em relação à esposa do vice-presidente (presidente em exercício), o que me incomodou tanto em relação ao caso dela quanto em relação ao caso da esposa do ministro do Turismo foi o quanto a intimidade das mulheres e a sexualidade feminina estão sendo capitalizadas politicamente. Porque, na realidade, ela foi vitimizada desde o momento que foi feita a reportagem. Porque ali a vida sexual dela ficou aberta para todos. Eu sei com quem ela perdeu a virgindade. Eu sei quantos homens ela teve. Eu não sei com quem Temer perdeu a virgindade, mas a dela, eu sei. Assim como foi o caso da mulher do ministro do Turismo. Ou seja, a sexualidade das mulheres é colocada estampando as revistas para que nós aqui olhemos essa sexualidade, essa intimidade.”

Continuando, Andrea falou sobre as consequências decorrentes da reportagem. “Depois disso, essa questão de ser do lar, existe um fetiche erótico em torno disso. Ela foi vítima de um hacker que pegou fotos intimas de seu celular e a chantageou. Ela está sendo vítima de chantagem. Então, essa é uma sexualidade que se expõe de uma mulher a fim de uma capitalização política. No sentido, de esse ser um modelo, se é um modelo bom ou se é um modelo mau, não importa! É a sexualidade dela e ninguém tem que falar nada em relação a isso. E nem apedrejar o modelo dela e nem o modelo da Miss Bumbum, que apareceu nua, que fez filme pornô, sei lá. Isso aí é a vida dela. Isso passa a ser capitalizado politicamente, porque historicamente, os homens nunca se valeram por se só.”

Andrea abordou a importância feminina na relação com o marido e com o pai. “A mulher é sempre um acessório fundamental do homem, no sentido dessa mulher, do modelo dessa mulher vai dizer se esse homem é bom ou ruim, se tem honra ou não tem honra. Por exemplo, se o homem tem uma filha que engravida, isso não mais hoje, mas até há uns 20 anos, a filha desonrava o pai, era expulsa de casa por ter desonrado o pai. Se a mulher é infiel, ela está desonrando esse homem, daí os crimes em defesa da honra. Agora, se a mulher tem um marido que é bandido e não presta, ninguém vai dizer que essa mulher não presta, ela não perde a honra por causa disso. Ou seja, os homens dependem muito mais desse modelo feminino do que a mulher. A mulher, ela se diz por si só. Mas o homem precisa de uma mulher para dizê-lo, ou seja, ele é muito mais dependente. Em razão disso, historicamente, o modelo de mulher que o homem tem ao seu lado vai dizer sobre ele, inclusive sobre o valor desse homem.”

Em seguida, Andrea Campos apresentou seus slides. Acesse a apresentação da professora clicando aqui.

Andrea Campos falou da importância do movimento de mulheres. “O movimento de mulheres, desde a sua origem deve estar comprometido em combater a violência contra a mulher, a discriminação, a conquista de direitos sociais, direitos econômicos e direitos políticos. Se ao invés disso, nós escolhermos como atuação, escolher uma de nós mulheres para ser apedrejada em praça pública, então esse movimento está falido.”

Finalizando sua palestra, Andrea Campos recitou o poema “Lugar de Mulher”, de sua autoria.

Vazio recato,
cevo a vida
e o mundo
naquele prato,
cozinhando as vestes
da multidão
de filhos que gero
por parição.

Na planície do tempo
varro a poeira,
costuro os sonhos
de uma vida inteira
sou cerca e esteio
de uma casa,
se um homem voa,
sou eu a asa.

Se vou à rua,
marcada
e nua:
revolução!

Se sou do lar,
assada e crua,
é com meu gozo
que se
encera o chão.

E antes que pretendas
que me possuas,
e que sou dos homens,
capitalização,
é de mim que eles
dependem,
a mim se prendem,
a mim se rendem,
atrelam suas honras
por derivação,
E se fui a cativa que imola o pão,
sempre foram eles
a costela de Adão.

 

 

 

 

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maio 30th, 2016 Postado por vieira Arquivado em: Notícias

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