Pessoas que não morrem

Por Marcelo Barros [1]

Quase todos os caminhos espirituais creem que a relação entre as pessoas vai além da morte. Judeus e cristãos creem na revelação bíblica da ressurreição, não como prolongamento dessa existência na qual “tristeza não tem fim, felicidade, sim”, mas como vida nova, dada por Deus para além da morte. Na Bíblia, o mais belo dos cânticos diz que “o amor é mais forte do que a morte”. Tomas Borge, ex-ministro da Nicarágua, conta que, quando, na juventude, lutava contra a ditadura, foi preso junto com outros companheiros em um porão. Um dia, o carcereiro chegou com um sorriso nos lábios e, para abater o ânimo dos combatentes, afirmou: – Carlos Fonseca, o comandante de vocês, foi morto”. Imediatamente, Tomás Borge respondeu em voz alta: – Carlos Fonseca é dos homens que não morrem nunca. É claro que ele não se referia à morte física, mas ao desaparecimento da sua figura e missão.

Essa palavra sobre homens que nunca morrem pode ser aplicada a Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás e presidente honorário das pastorais sociais e padrinho dos movimentos sociais de trabalhadores rurais e índios. Nesses dias, celebramos o segundo aniversário de sua partida. Dois anos depois daquele 02 de maio em que Dom Tomás partiu para o Pai, o seu exemplo de pastor e de servidor dos mais pobres continua a nos orientar e nos animar.

A importância de Dom Tomás para as Igrejas cristãs inseridas no meio do povo, para o povo brasileiro e especialmente para os índios nos recorda um dos pais da Igreja dos pobres na América Latina. Bartolomeu de las Casas foi como Dom Tomás, um frade dominicano e bispo. No século XVI, foi o primeiro bispo de Chiapas, no sul do México e o primeiro defensor dos índios e teólogo da dignidade dos povos indígenas na luta contra a escravidão e contra o colonialismo.

Sobre Tomás Balduíno, muitos aspectos de sua profecia podem ser ressaltados. A sua consagração aos mais pobres, a sua vitalidade física e espiritual, mesmo até quase o momento da partida e outros elementos que o faziam admirável. No entanto, certamente, a profecia mais aberta a todos é a sua mensagem de que a fé e a espiritualidade só têm sentido quando se alicerçam na luta pela justiça e pela libertação de todos.

Nesses dias de tanta turbulência social e política no Brasil, a profecia viva de Dom Tomás grita para nós: na posição social e política que vocês tomarem, pensem que Deus pede a vocês de defenderem a justiça para todos. Não se esqueçam que Deus vê a realidade sempre a partir dos mais empobrecidos e carentes. É a partir dos interesses dos pequeninos que Jesus se colocará do lado de vocês ou mesmo contra o projeto político que vocês defendem. Nos seus últimos anos de sua vida, Dom Tomás estava convencido de que temos de pensar a realidade brasileira integrada na caminhada de toda a América Latina como a “pátria grande” sonhada pelos libertadores Simon Bolívar e José Marti. Como, nos anos 60, já predizia Dom Helder: “o caminho da justiça para a América Latina passa pelo bolivarianismo”. Por isso, Dom Tomás se aproximou e se tornou amigo do presidente Hugo Chávez. No final da década passada, duas vezes, eu o acompanhei em visita à Venezuela. Ali, ele apoiava a libertação do império norte-americano, a integração do nosso continente em uma comunidade de países irmãos e, principalmente, uma organização social e econômica que garanta mais justiça e igualdade social.

Ao celebrar esse segundo aniversário de sua páscoa, seja esse o nosso testemunho: Dom Tomás é para nós todos um mestre nessa palavra do evangelho: “Procurem realizar no mundo o projeto divino (o reino de Deus) e tudo o mais lhes será dado por acréscimo”. (Mt 6, 33).

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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maio 02nd, 2016 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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