“WhatsApp” ao PAPAI NOEL

Por Pe. Paco, SJ – Jesuíta missionário na Amazônia

Pastoral

Querido Papai Noel:

Neste ano não quero nenhum “smartphone”, nem “tablete”, “iphone”, “ipad”, “ipod”, nem outra bugiganga telemática. Ao longo deste ano tenho comprovado que as “telas” me afastam da vida e que eu quero ir com a vida; correr, voar, sentir com a vida; não passar os meus dias com meu olhar grudado numa tela. Eu quero o que a tela aponta, e não a tela, apesar dos muitos vídeos e lindas imagens que ela me possa proporcionar.

Por tanto, eu lhe peço outros sonhos: estes que passo a escrever.

Sobretudo, peço que estes tempos mais apertados para tanta gente, alarguem mais, no nosso interior, o princípio da solidariedade. O importante não é o saco cheio que você carrega e até transborda; desejo que nossos corações transbordem mais sentido de mutua compreensão, acolhida e ajuda, além do desejo de partilhar.

Não lhe peço saída para a crise em que vivemos, mas consciência do porquê entramos nela; consciência de que somente pode perdurar o sustentável, o que combina com a lei da solidariedade universal, com o respeito supremo à nossa Mãe-Terra / Pacha-Mama. Antes de pôr as máquinas a pleno rendimento, desejo que pensem se, de fato, precisamos de tudo que produzem e da forma como o produzem. Em vez de continuar vertendo química e veneno sobre os nossos campos, que possamos lembrar-nos do tempo em que a terra guardava toda a sua fertilidade, os vegetais o seu sabor, e as águas a sua pureza… Peço-lhe consciência de que nossos pequenos cosmos humanos exigem direto e estreito contato com o Grande Cosmos. E, falando destas questões siderais, que não aumente a conta da luz, mas sobretudo que os Governos não persigam os corajosos que põem moinhos de vento nas colinas e placas solares nos seus telhados.

Peço-lhe um lar para todas as pessoas. Que todos possam conseguir moradia digna. Que ninguém sofra despejo e fique no meio do abandono. Suplico, também, a consciência de que nossas vidas não sejam escravas de bancos onde pagamos as prestações; e que possamos viver, junto à nossa Mãe-Terra, em casas simples que nossas mãos podem construir, e não necessariamente no nono andar de um prédio com elevador.

Sonho com a inteira liberdade para a mulher quanto ao decidir sobre o seu corpo; sonho com a consciência da sacralidade da vida que leva no seu seio… Na verdade, o que desejo é que haja mais consciência, em todas as pessoas, da sacralidade da vida em todas suas formas, expressões, fases e cores. Liberdade na sua mais plena expressão; para os povos e raças. Liberdade para que cada sujeito decida como quer desenhar seu futuro e enfrentar seu destino. Liberdade para que os povos se autodeterminem, mas também consciência de fraternidade; sonho que a unidade, divinamente respeitosa com as partes, integrada, enriquecida e florescida na diversidade, talvez seja a mais elevada meta humana.

Ansiando pelas liberdades, desejo, de coração, que os tiranos, ditadores e fanáticos de todo signo e bandeira, terminem por cair. Que os Gandhis e Mandelas se multipliquem; que os mandatários com verdadeira vocação de serviço, com espírito de harmonização e de reconciliação, prossigam ascendendo aos governos dos povos e nações.

Particularmente, contudo, peço pela Paz nas terras do Oriente, onde o nosso Salvador Jesus nasceu; Santa Terra de tanto abraço adiado… Paz nas areias e desertos, principalmente na gloriosa Síria, berço de excelsas culturas e civilizações… E Paz, filha da justiça, nesta imensa Panamazônia, onde tantos indígenas e povos originários sofrem violência e morte pela ambição sem limites de pessoas e do sistema econômico em que vivemos.

Mais próximo de nossa casa, peço-lhe que voltemos a acreditar no Brasil. Que nunca esqueçamos o sangue e o suor derramados para chegarmos a uma democracia onde a justiça social tem conseguido dar passos reais, apesar de termos, ainda, muito caminho pela frente. Que continuemos a superar preconceitos de raça e gênero. Que não cansemos de lutar por preservar a preciosa “casa comum” na qual vivemos. E que, cada dia mais, nos sintamos irmãos e irmãs dos povos que moram nos países vizinhos de nossa Pátria Latino-Americana.

Papai Noel, desejo-lhe, de coração, uma boa caminhada pelos lares e pessoas que precisam de todos estes presentes que lhe pedi. Faça o possível para que ninguém converta você num ídolo – como já o fazem nas lojas comerciais – que tomou o lugar de Jesus. Ao contrário, que você seja a ponte para as pessoas encontrarem o Salvador que pode dar-nos vida plena e abundante e levar-nos a um novo mundo de paz, respeito, cuidado, justiça e fraternidade.

Papai Noel, que possamos seguir a estrela que os Magos do oriente seguiram, através dos nossos desertos, areias e dificuldades. Que, a exemplo deles, caminhemos juntos, despojados e com esperança, para encontrar JESUS ao longo do novo ano que está chegando. Que o saco que carrega e que carregamos espalhe esperanças.

Print Friendly

dezembro 23rd, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*