O segredo do Bem Viver

Por Marcelo Barros [1]

Quem passa pelo sertão nordestino se depara com paisagens de seca que parecem cenários de filmes de guerra depois da destruição. No entanto, muitas pessoas que vivem no semiárido conseguem não só sobreviver, mas realizar projetos maravilhosos e dar testemunho de alegria e paz. Não é fácil compreender o segredo dessa energia de vida que ilumina o olhar da pessoa humana e a torna vencedora, mesmo nas mais duras condições de vida. É uma mística, segredo que dá força a essas pessoas e comunidades. Mística tem a mesma raiz de mistério. Diz respeito à intimidade mais profunda que motiva e impulsiona a vida interior de alguém e de um grupo.

Desde muito antigamente, as tradições orientais do Hinduísmo e do Budismo presenteiam a humanidade com místicas que ensinam a lidar com o sofrimento, a pobreza e a luta da vida. Hoje existem terapias baseadas em métodos de respiração oriental. Outras tradições espirituais como o Xamanismo também têm propostas místicas que ajudam a resistência. Alguns grupos contemporâneos desenvolvem um tipo de espiritualidade baseada na autoajuda, em cuidados consigo mesmo e com a saúde. São caminhos legítimos, mas só podem se chamar verdadeiramente espirituais quando vão além de um cuidado egoísta de cada um consigo mesmo para pôr as pessoas em comunhão umas com os outras e com o cosmos.

Todo ser humano é guiado por impulsos profundos que condicionam o seu modo de ser e de viver. Há pessoas que se movem e vivem pelo impulso de possuir. Querem sempre ter coisas e, mesmo quando se relacionam com os outros, é para possuir. Esse impulso de apropriação fortalece o instinto individualista. Ao contrário, há pessoas e grupos que desenvolvem a cultura de valorizar o que é comum a todos. Na África, os Zulus ensinam o princípio do Ubuntu: “Eu existo porque nós existimos”. Na América Latina, a concepção do bem viver e bem conviver tem sido espalhada por várias culturas indígenas. Segundo esse modo de ver a vida, a felicidade está em dar-se e em construir relações verdadeiramente baseadas no amor solidário e nos bens comuns. Assim, se enfrenta melhor o medo do desconhecido, a fragilidade da idade e se cria um convívio de justiça e não violência. Não se trata só de educação social, mas de uma verdadeira mística plantada no mais íntimo de cada pessoa. Em um mundo agitado e uma sociedade agressivamente competitiva, a contribuição mais importante de uma mística, seja cristã, seja de outra religião, é nos tornar capazes de sermos pessoas de profunda escuta do outro, capazes de comunhão universal e profundamente solidários com o destino da humanidade. Para aprofundar a comunhão com o outro, é importante saber conviver de modo mais profundo consigo/a mesmo/a. Até a intimidade com Deus depende do diálogo interior de cada pessoa consigo mesma. Na Bíblia, um salmo ora: “Unifica o meu coração, para eu viver na intimidade do teu amor” (Sl 86, 11). Os místicos antigos se chamavam monges (o termo grego monos quer dizer uno) porque viviam para alcançar a unidade interior. São Gregório escreveu sobre São Bento que ele “habitava consigo mesmo”. Essa busca da unidade interior é graça divina, mas pede um cultivo. Não acontece espontaneamente e sem método. Alguns elementos desse caminho são universais e ecumênicos. Outros são próprios de uma ou outra tradição. O Cristianismo antigo herdou das religiões orientais a técnica da meditação. Refez costumes como a peregrinação e a importância da solidariedade e da partilha. Essas duas dimensões (a interior e a social) se completam uma a outra. O Budismo faz da esmola uma exigência prévia para alguém ser monge. O Islã também põe a misericórdia com o outro como mandamento fundamental. O Cristianismo insiste que, se a gente não se relaciona com o irmão a quem vê, não pode se relacionar com Deus a quem não vê (Cf. 1 Jo 4, 20). Dietrich Bonhoeffer, teólogo, vítima do nazismo, dizia: “O Cristo está em mim para você e está em você para mim. Ele está em mim, mas eu só o encontro em você. Está em você, mas você só pode encontrá-lo em mim”. Na primeira vez em que veio a São Paulo, o Dalai Lama afirmou: “Toda pessoa tem dentro de si uma semente de compaixão. É preciso desenvolvê-la”.

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

 

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novembro 05th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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