Nossa grande pátria

Por Marcelo Barros [1]

Essa semana começou por um feriado comum a toda a América Latina. Nos países de língua hispânica, o 12 de outubro recorda a chegada dos colonizadores espanhóis ao continente e o começo da colonização. Os impérios chamaram esse fato “o encontro de dois mundos”. Para os povos indígenas, invadidos e escravizados pelos colonizadores, foi mais um violento atentado a todos os direitos humanos do que uma descoberta ou integração. Fez parte da astúcia dos conquistadores dividir para melhor governar. Eles colocaram os povos do continente uns contra os outros e criaram fronteiras para melhor dominá-los. Sempre que surgiu algum movimento de libertação dos povos explorados, seus líderes compreenderam: o primeiro passo para isso é a integração e a unidade de todo o continente. Nesse sentido, no começo do século XIX, Simon Bolívar, o libertador, chamava o continente: “Nuestra América”e algumas décadas mais tarde, José Marti, pensador e líder independentista cubano, a chamava de “Pátria grande”. Apesar de todas as tentativas de integração, até aqui a ideologia dos impérios e a ambição da elite de cada país foram mais fortes. Ainda hoje, países do continente disputam linhas de fronteiras. Há divisões sobre o direito ao acesso da Bolívia ao mar. Nesses dias, a Venezuela enfrenta conflitos dolorosos com vizinhos mais ligados aos interesses do império do que à preocupação com a unidade continental.

Atualmente, no Brasil, os movimentos sociais sabem que, além das questões nacionais que dividem partidários do governo e a oposição ligada aos grandes meios de comunicação, existe para a direita organizada o fantasma do que eles chamam de bolivarianismo, mesmo sem saber bem do que estão falando. O governo brasileiro, mesmo nos bons tempos do PT, nunca assumiu de modo claro, os pressupostos do processo bolivariano que levou a Bolívia, o Equador e a Venezuela a um novo patamar de distribuição social de renda, reforma agrária e participação de todos os cidadãos no destino do país. No entanto, mesmo sem se engajar profundamente no processo, colaborou com os esforços de integração do comandante Hugo Chávez. Não precisou da mediação do papa Francisco para entrar em diálogo com o governo cubano e colaborar de várias maneiras para pôr fim ao bloqueio assassino que isolou Cuba do resto da “pátria grande”. Por causa dessa política externa, hoje, temos a ALBA (Aliança Bolivariana dos Povos da América) no lugar dos tratados de livre comércio impostos pelos Estados Unidos. E a CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) tem mais força e credibilidade do que a velha OEA, ainda dominada pelos interesses do império. Por tudo isso, o Império norte-americano não perdoa e paga seus funcionários para desacreditar os governos progressistas latino-americanos e mesmo os que timidamente como fez o governo brasileiro ousou sair de sua proteção opressora.

Há 25 anos, um pequeno mas eficiente instrumento da integração cultural dos povos do continente tem sido a Agenda Latino-americana. É um livro publicado em forma de agenda porque relembra o que se comemora a cada dia do ano e deixa um espaço para que cada pessoa ou grupo planeje sua atividade naquele dia, semana ou mês. No entanto, a Latino-americana é mais do que uma agenda comum. Ela propõe um tema para cada ano e convida intelectuais e militantes do mundo inteiro ligados/as à América Latina para tratar desse assunto a partir de diversos enfoques e sempre na linha do “ver, julgar e agir”.

A Agenda Latino-americana se tornou mundial. Sem deixar de ser pensada a partir da América Latina, procura olhar o seu tema em uma perspectiva que une o continente e o mundo. Nesse ano, a Latino-americana 2016 tem como tema geral “Desigualdade e Propriedade”. Como sempre começa por uma carta introdutória, assinada por Dom Pedro Casaldáliga e José Maria Vigil. E nos apresenta 50 textos de autores/as diferentes que nos fazem refletir e nos convidam a assumir propostas de esperança e transformação do mundo. Uma novidade é integrar entre os autores as propostas do papa Francisco, proclamadas no seu 2o encontro com os/as representantes de movimentos sociais na Bolívia. No Brasil, a Agenda Latino-americana é editada pela Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil que tem sede em Goiânia.

Agenda significa um programa para o próximo ano. O das pessoas que seguem uma espiritualidade ligada à realidade é discernir, em meio a todos os torvelinhos da política e as tempestades do dia a dia, como testemunhar e colaborar com a agenda de Deus (paz, justiça e cuidado com a Terra) a se realizar no mundo e nas nossas vidas.

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

 

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outubro 15th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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