Democracia das ruas

Por Marcelo Barros [1]

Ao festejar, nessa segunda feira, a data da independência do Brasil, a imensa maioria do povo brasileiro está consciente de que a emancipação política do império português foi importante, mas apenas como início de um processo a ser permanentemente aprofundado e atualizado. A independência política formal só se completa com uma verdadeira libertação social e econômica. Tudo isso está ligado a uma autonomia cultural e até à liberdade espiritual das pessoas e das comunidades.

Em cada sete de setembro, enquanto se repete o desfile militar de outros tempos, como se o militarismo fosse a solução para a liberdade, há mais de 25 anos, organizações sociais e comunitárias têm ido à rua para manifestar seu anseio por uma libertação integral. É o Grito dos Excluídos. Em muitas cidades brasileiras, ano após ano, essa manifestação popular tem mostrado que o problema político brasileiro não consiste em colocar ou tirar presidente. Sem dúvida, é importante contar com um poder executivo sensível e capaz de ouvir os gritos da rua. No entanto, o mais importante é um sistema político que possibilite a participação de todos. O sistema democrático representativo deve ser aprimorado por uma profunda democracia social e participativa de todos os brasileiros. Além disso, é fundamental reformar as leis que permitem abusos no sistema de eleição, como o fato de empresas privadas financiarem campanhas de candidatos. Como diz frei Betto: “Nós votamos e as empresas elegem”.

Desde agosto, o Brasil tem visto manifestações de rua que reúnem milhares de pessoas. No domingo 16 de agosto, a grande manifestação foi das pessoas e grupos que são contra o governo. No dia 20, outra grande manifestação protestava contra qualquer tentativa de golpe. Em ambas, a maioria dos/das manifestantes criticava diversas medidas do governo. Infelizmente, apesar de, durante a última campanha eleitoral, a presidente ter prometido dialogar com a sociedade, ela tem se revelado praticamente autista. Não aceita dialogar com a esquerda que confiou nela e a elegeu. Tenta agradar à direita que, de todos os modos, nunca a aceitaria. São pessoas e grupos que querem derrubá-la. Não porque ela não mantém uma política energética superada, ou porque não liga para a Ecologia, ou não defende as comunidades indígenas. Esses não são os pontos aos quais a oposição é sensível. Simplesmente não a querem. Por outro lado, não parecem saber o que querem, já que o Brasil presidido por Michel Temer ou por Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na linha da sucessão, não parece ser o sonho da maioria dos brasileiros.

Nas últimas décadas, na América Latina, as organizações de base do campo e da cidade suscitaram uma nova proposta de caminho para a sociedade. Baseado no paradigma indígena do Bem Viver coletivo como objetivo do Estado, buscam uma forma nova e mais democrática de um verdadeiro socialismo. Desde o movimento dos índios de Chiapas e os círculos de cultura espalhados pelos bairros de periferia de várias cidades do continente, surgiu a proposta de um novo bolivarianismo. Em 1965, em suas cartas escritas de Roma, durante a última sessão do Concílio Vaticano II, Dom Helder Camara já aludia a esse movimento de integração latino-americana e que se inspira nas propostas de Simon Bolívar, o libertador. As mesmas elites que, com razão ou sem razão, rejeitam Dilma, Lula e o PT, demonizam ainda mais Hugo Chávez, Nicolas Maduro, Evo Morales, Rafael Correa e qualquer bolivarianismo que, no continente, queira mudar as desigualdades sociais e ameace os privilégios que a elite sempre teve.

Em meio a tudo isso, é bom saber que o próprio papa Francisco tem se pronunciado a favor das propostas do Bolivarianismo: a integração latino-americana, a libertação do imperialismo e a busca de um caminho novo para uma sociedade alternativa. Para isso, propôs às Igrejas e à toda sociedade dialogar com os movimentos sociais organizados. Assim, caminharemos para uma nova realidade social, baseada na justiça, paz e comunhão com a nossa casa comum, a Terra.

 

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

 

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setembro 16th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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