Viagem ao mais profundo de si

Por Marcelo Barros [1]

Para o Catolicismo popular do interior da Bahia e do norte de Minas, em agosto acontecem as peregrinações a Bom Jesus da Lapa (Ba) e a Pirapora (MG). Tudo começa no dia 06 de agosto, celebração da Transfiguração do Senhor. Conforme os evangelhos, ao subir uma montanha, os discípulos viram Jesus com uma aparência luminosa, toda tomada pela presença divina em seu corpo. Até hoje, as comunidades celebram a memória da transfiguração de Jesus no alto do monte para estimular todos nós a vivermos, no dia a dia, esse mesmo processo de divinização. Jesus se deixou ver como impregnado de Deus quando já estava indo a Jerusalém, como profeta pobre e perseguido, enfrentar o poder político e religioso da época. Nós também somos chamados a perceber essa presença divina em nós, principalmente em meio à realidade da luta social e no dia a dia, quando nos descobrimos frágeis e feridos por tantas cicatrizes da vida.   

Atualmente, em nossa sociedade, cada vez mais se espalha uma cultura do cuidado com o corpo. As pessoas fazem caminhadas, freqüentam academias de malhação e procuram alimentos mais saudáveis. Entretanto, esses cuidados necessários só dão pleno resultado se cada um/uma rever o seu ritmo de vida e, em tudo o que faz, privilegiar uma dimensão mais humana e profunda do seu ser. Nos anos 70, no Recife, um padre, tido como alguém de trato difícil, recebeu um telefonema. Era Dom Hélder Câmara e lhe pedia uma audiência. O padre se sentiu honrado que o arcebispo lhe solicitasse a audiência. Mas, Dom Hélder esclareceu que o diálogo que propunha era do padre consigo mesmo. O padre respondeu: “Faço bem o meu trabalho, mas não aceito que ninguém interfira na minha vida pessoal”.

É lamentável que muita gente ainda faça essa separação entre a competência no trabalho e a coerência interior, no nível mais profundo do seu ser. A ciência moderna criou uma concepção de verdade objetiva que parece desligada da relação entre ética pessoal e verdade.  Os antigos pensadores se interessavam pela verdade, à medida que ela engajava o mais profundo do nosso ser interior. Em um artigo recente no IHU, Castor Bartolomé Ruiz afirmou: “A verdade da filosofia como forma de vida só pode ser atestada como verdadeira e útil, na medida em que a pessoa que a ela adere a assume efetiva e concretamente pelo seu modo de viver”. Na Filosofia antiga, não havia separação entre ciência e ética. A Ética era concebida como um caminho pelo qual se pratica a verdade em que se crê e a qual se adere. Do mesmo modo que um atleta, para manter sua boa forma física deve praticar permanentemente os exercícios necessários, o caminho da prática das virtudes exige a opção por expressar isso em forma de beleza, de estética. Dentro dessa concepção, a Arte não é algo separado da fé e da proposta de vida que o artista tem. Ética e Estética estão ligadas em um único processo de transformação interior. Conforme os filósofos antigos, tanto em uma obra de arte, como no modo de ser e de se relacionar, cada pessoa deve alcançar o seu autodomínio. Para isso, a Filosofia propunha  “o cuidado de si” que nada tinha a ver com um zelo egoísta ou individualista com seus próprios interesses. Tratava-se muito mais de um empenho em progredir como pessoa na direção de uma plena humanização. Em nossos tempos, Michel Foucault chamou isso de “veridição”, um neologismo para expressar a busca de uma coerência entre o que a pessoa pensa e o que a pessoa faz. Nas obras de arte, quando vemos uma obra de arquitetura, contemplamos um quadro, uma pintura ou ouvimos uma música determinada, quando elas são verdadeiras e profundas, podemos discernir nos traços e na forma de expressão o caminho espiritual do/a artista.

Nas tradições orientais, o silêncio e a meditação são elementos para ajudar as pessoas a aprimorar a busca interior. Nas tradições afrodescendentes, a descoberta do seu Orixá e a obediência a um caminho comunitário são instrumentos desse desdobramento da pessoa no cuidado com a sua verdade interior e a sua inserção na comunidade.

No Cristianismo, a meta não é apenas partir de si mesmo e em busca de si mesmo. A meta é alta porque se trata de deixar-se impregnar e transformar pelo Espírito que recebemos no batismo. E a pessoa percorre esse caminho como discípulo/a no seguimento de Jesus e ao aderir à causa pela qual Jesus deu a vida: a realização do projeto divino de paz, justiça e comunhão nesse mundo.  

Para realizar essa peregrinação interior, é preciso simplificar o modo de viver, buscar a sobriedade e principalmente, aprofundar a sua capacidade de amar. Conforme os evangelhos, Jesus propôs, como condição para o discipulado, o despojamento pessoal e a disposição de partilhar com o outro tudo o que se tem e o que se vive. A espiritualidade bíblica insiste que o cuidado com a interioridade é para ajudar a pessoa a sair de si e viver a comunhão com os outros e com a natureza como sinal e sacramento da presença amorosa do Espírito no mundo. Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, mártir do nazismo, dizia: “Deus está em mim para você e está em você, para mim. De fato, a divindade está em mim, mas eu só a percebo em você. Se eu a visse em mim, poderia confundi-la com minha própria autoimagem, o meu próprio eu. Eu descubro o Espírito revelado em você. Então, você o revela presente em mim, assim como eu o mostro presente e atuante em você”.

 

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

 

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agosto 20th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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