Carta do Quilombo dos Palmares: por uma construção do fazer existencial da libertação

Depois de 320 anos (1695 – 2015), Zumbi vive naquelas/es que continuam o caminho de resistir a um sistema que quer reduzir o ser humano ao estágio da mercantilização nas suas várias formas de escravidão. O resultado é a despersonalização das relações humanas e a alienação de todo processo educativo que afirma um ser humano de atitude lúcida e crítica em relação aos condicionamentos econômicos e socioculturais da vida.

De 5 a 12 de julho de 2015, realizou-se uma peregrinação de Porto Calvo-AL à Serra da Barriga / Quilombo dos Palmares – União dos Palmares-AL. Percorreu-se um itinerário de aproximadamente 150 km. O mapeamento correspondeu as cidades, povoados e quilombos de Porto Calvo, Jundiá, Colônia Leopoldina, Serra da Catita – Comunidade Monástica do Discípulo Amado -, Canastra, Ibateguara, Paus Brancos – Comunidade Quilombola do Munquém – União dos Palmares – Serra da Barriga – Quilombo dos Palmares.

Foi realizada pelo Grupo de Peregrinas e Peregrinos do Nordeste (GPPN) com o apoio do Instituto Humanitas Unicap e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígena da Unicap. O GPPN nasceu há 29 anos, sendo composto por homens e mulheres (crianças, jovens, adultos e pessoas idosas), naturais de toda parte do Brasil. É uma experiência ecumênica e inter-religiosa.

Tem, como carisma, caminhar segundo o chamado de Jesus: “e enviou-os a pregar o Reino de Deus, e a curar os enfermos. E disse-lhes: nada leveis convosco para o caminho, nem bastão, nem sacola, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas” (Lucas 9:2-3). Desse modo, os peregrinos andam sempre à pé, não utilizam e nem recebem dinheiro e não carregam comida. Toda sua manutenção, durante o período da peregrinação, resulta da partilha que as comunidades fazem. Alimentam-se do que lhes é ofertado pela comunidade. Suscitam, assim, a comunhão e a confiança nos lugares por onde passam.

Há vinte anos (1995), o GPPN fez uma peregrinação da Praça do Carmo, no Recife, até a Serra da Barriga com uma réplica da cabeça de Zumbi, o que se repetiu nessa última.

Em 1695 Zumbi teve a cabeça decapitada na cidade de Porto Calvo (hoje Alagoas) e exposta na praça central de Recife-PE, para inibir novas tentativas de revolta contra a escravidão. Por isso o ato simbólico forte de caminhar com a réplica da cabeça de Zumbi.

“É fundamental fazer o resgate dessa história. Zumbi foi trazido da Serra da Barriga como bandido e queremos levá-lo de volta como herói da luta pela liberdade. Vamos fazer um desagravo a Zumbi e aos Quilombos”, disse uma peregrina.

Em cada lugar visitado tentou-se fazer uma Assembleia do Povo para escutar as pessoas do lugar. Quem chega, primeiro procura saber as histórias do lugar. Em terras de quilombo se faz necessário escutar os mais velhos. Além dos momentos de silêncio e oração no interno do Grupo, sempre se fazia uma celebração, na perspectiva da memória dos quilombos nas comunidades visitadas. Durante toda peregrinação, procurou-se denunciar as várias formas de escravidão, racismo e preconceito contra o povo negro nos dias atuais.

A partir dos relatos do Diário da Peregrinação, podemos destacar alguns traços marcantes que podemos chamar de fios de ouro. Um fio condutor foi a hospitalidade em todos lugares visitados. Dizia um peregrino: “não dá para fazer jejum no meio dos pobres”. Houve lugares em que receberam e se despediram das peregrinas e peregrinos com muitos fogos estrelados no céu. Sentido profundo de acolhimento: dar, receber e retribuir. Para as peregrinas e peregrinos, ficou claro que a hospitalidade é a alma da peregrinação. Muitos encontros eram verdadeiras eucaristias.

Outra dimensão foi o traço de formação humana vivido pelo próprio Grupo ao longo de toda peregrinação: solidariedade, censo comunitário, abertura ao outro (antecipando-se no amor). Eram 17 peregrinas e peregrinos. Viveu-se uma pedagogia e espiritualidade integral, como humanização em que o lado espiritual está como dimensão norteadora de todos os passos do caminho.

A dimensão cultural foi uma marca forte em todo caminho percorrido. Sobretudo em comunidades quilombolas. Na do Munquém presenciou-se a dança do Samba de Cocô. Foi belíssimo presenciar mulheres de idade e jovens dançando. A dança Samba de Cocô quer lembrar uma antiga tradição em que os quilombolas dançavam em cima do barro cantando o Samba de Cocô com acompanhamento de percussão. Uns pisavam o barro e outros jogavam-no para levantar as paredes. É uma tentativa de recuperar valores da tradição. De fato, em muitas ocasiões, nas comunidades afro e indígena, não dá para distinguir bem o que é trabalho e o que é festa.

Percebeu-se que o racismo está impregnado no pensamento da sociedade brasileira. Por isso tentou-se identificar os sinais de discriminação, injustiça e escravidão nos dias atuais. Denunciou-se com veemência a atitude insana da Câmara dos Deputados em aprovar a diminuição da maioridade penal. Essa modificação colocará crianças e jovens negros nos cárceres. O que precisa é debater e melhorar a educação. Não se pode ficar insensível diante de muitas irmãs e irmãos afrodescendentes que são excluídos do banquete e condenados à miséria e à marginalidade. O papa Francisco não se cansa de denunciar o sistema neoliberal, que é idólatra, imoral e suicida para a maioria da humanidade, e nos convida a rezar e a agir para construir um modelo de sociedade em que o centro não seja mais o lucro, mas a pessoa humana.

A peregrinação, fazendo a memória de Zumbi e Dandara quis lembrar a todos que tombaram lutando para fazer valer o ser no seu sentido mais profundo.

O historiador Eduardo Hoonaert enviou uma mensagem para o GPPN, com a qual, terminamos essa partilha: “precisamos todos e todas, resistir ao terrível esquecimento do que aconteceu no passado e daquilo que os que lutaram no passado sonharam e procuraram realizar. O passado vive em nós e nos dá força para continuar”.

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agosto 07th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

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